domingo, 5 de julho de 2015

NEVE AVERMELHADA


Muita gente vai dizer que "O Cidadão do Ano" tem muito de Tarantino, e tem mesmo. Mas este filme norueguês também deve bastante ao estilo dos irmãos Coen, com personagens que são despachados sem a menor cerimônia. É quase uma comédia negra, que parte de uma imensa tragédia: um pai que procura vingar o filho, morto por engano por uma quadrilha de traficantes. Ele sai à caça de um por um, e acaba se metendo numa guerra entre gangues rivais. Há muita violência, mas várias das mortes são apenas sugeridas - só vemos o sangue espirrando na neve, ou apenas a cartela preta anunciando o nome do defunto, um toque macabro do diretor Hans Petter Moland. Este cara logo, logo vai estar dirigindo em Hollywood, porque sabe manter a tensão e o interesse num filme em que o mundo parece ser todo branco. "O Cidadão do Ano" causou uma certa polêmica e é um dos melhores lançamentos do ano, mas precisa conquistar um público maior que o das salas de arte. Procure assistir.

sábado, 4 de julho de 2015

NINA SIMONE GODDAMM


Fui ver Nina Simone logo na primeira vez em que ela esteve no Brasil, em 1988. A mulher era uma entidade. Um orixá, como disse Jorge Amado de Maria Bethânia. Mas não era uma divindade benfazeja: era torturada, instável, violenta. Suas três visitas ao ao nosso país contribuíram com várias anedotas ao seu vasto folclore. Consta até que, certa vez, ela reagiu a bala aos moleques que faziam algazarra na casa vizinha à sua, no sul da França. Agora todo esse gênio e loucura ressurge capturado no excelente documentário "What Happenned, Miss Simone", disponível no Netflix e desde já um dos favoritos ao próximo Oscar. Com depoimentos da filha e de muita gente que a conheceu, mais muito material de arquivo, a diretora Liz Garbus monta em menos de duas horas um retrato preciso de uma das maiores artistas do século 20. Nina era bipolar, e suas variações de humor punham tudo a perder mesmo quando as coisas iam bem. Seu engajamento político em prol dos direitos civis (i.e., contra as leis racistas americanas) custou-lhe um estrelato ainda maior e a tornou uma mulher amarga, com a vida pessoal despedaçada. Mas quando cantava e tocava piano, não tinha para ninguém. Os dedos voavam, a voz ia às profundezas e a plateia ficava hipnotizada (mesmo levando broncas de vez em quando, como o filme também mostra). Deixou clássicos absolutos como a deliciosa "My Baby Just Cares for Me" e a furiosamente ativista "Mississippi Goddamm" (essa última palavra era considerada palavrão na época). Nina Simone morreu relativamente cedo, em 2003, com apenas 70 anos de idade. Merece ser descoberta por quem ainda não a conhece. Nada contra Beyoncé e similares, mas isso é que era diva.

MISS BORRACHEI

Donald Trump não é nem de longe o megaempresário que tenta projetar. Já quebrou algumas vezes e hoje é apenas um personagem midiático, pouco mais que uma subcelebridade. Mas ele ainda se leva a sério: pela segunda vez, anunciou que vai disputar a indicação do partido Republicano para ser candidato à presidência nas eleições do ano que vem. O humorista Jon Stewart agradeceu, porque a presença de um pateta como Trump gera piadas nonstop. Mas o pseudo-magnata talvez não dure muito tempo no páreo. Para seduzir o (cada vez menor) eleitorado de extrema direita, ele propôs a construção de uma muralha na fronteira entre o México e os Estados Unidos. Ainda declarou que todos os mexicanos imigrantes são ladrões. Foi o que bastou para a rede de TV Univision, que transmite nos EUA programação em espanhol, cancelar a exibição do concurso Miss Universo, que é produzido por Trump. A rede anglófona NBC fez o mesmo na sequência, e agora já são três os países que irão boicotar o evento: o próprio México, a Costa Rica e o Panamá. Bee, para um país latino-americano não participar de um concurso de miss, é porque a coisa é séria mesmo. Pior que os EUA ficarem de fora das Olimpíadas. O mais engraçado é que Trump não pediu desculpas e ainda atacou seus detratores. Vai se esborrachar em chamas e sair da cena deste circo eleitoral.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

#SOMOSTODOSMAJÚ

O sorriso e a elegância de Maria Júlia Coutinho são um vrááá triunfal na cara dos racistas que emporcalharam a página no Facebook do "JN" durante o dia de hoje. O ataque foi tão escroto que a gente até duvida, pois não é tão difícil assim descobrir quem está por trás. Mas é o tal negócio: se esses babacas fossem inteligentes, não seriam racistas. E numa hora dessas não cabem críticas à "rédi" Globo nem aquela argumentação covarde de que a moça está aproveitando para se promover. Claro que o tiro saiu pela culatra e Majú está mais forte do que antes, mas o ponto aqui é outro: racismo é crime, racismo é horroroso, racismo, nem de brincadeira. Não se dialoga com racista, não se tenta entender os motivos, não se titubeia. Manda-se para a cadeia.

JARDIM NÃO-SECRETO


O título "Um Pouco de Caos" sugere uma comédia, mas este filme dirigido pelo ator Alan Rickman é um drama discreto com visual deslumbrante. A personagem principal é uma paisagista do século 17: se até hoje as mulheres enfrentam resistências no mercado de trabalho, imagine naquela época. Contratada para construir uma espécie de anfiteatro nos jardins do palácio de Versailles, então em obras, ela acaba cativando o rei Luís XIV com seu jeitão "no bullshit". A interepretação delicada de Kate Winslet serve como fio terra num universo onde as aparências e a ilusão de ordem davam a tônica - e não dá para não lembrar que, pouco mais de cem anos depois, aquele teatro todo seria varrido pela Revolução Francesa. "Um Pouco de Caos" não provoca grandes emoções nem é um filme para todos os públicos. Mas é uma versão agradável da vida privada num momento peculiar da história, além de contar com um grande elenco. O destaque vai para o ator belga Mathias Schonaerts, que está prestes a estrear em mais uma dezena de produções. Preste atenção nele.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

ESCOLHENDO MAÇÃS

Já usei o Spotify, mas só um par de vezes e jamais assinei o serviço. Mas, como eu recebo ordens de Steve Jobs do além-túmulo, não levei nem 24 horas para aderir ao Apple Music - e estou a-man-do. Para começar que é lindo, e bastante fácil de navegar. Adorei ter que bater duas vezes nas bolinhas dos gêneros que eu não gosto, para que eles fossem varridos da face da (minha) Terra. Fora, sertanejos! Fora, música gospel! Agora estou explorando as rádios, que por enquanto me soam todas muito parecidas. Muito pop/dance/eletrônica, e só para malhar na academia tem quatro. Cadê a de musicais da Broadway? Cadê a de hits de Bollywood? Tomara que venham com o tempo, assim como a minha habilidade de habitar esse admirável mundo novo. Eu, que ainda compro CD físico e não tenho mais onde enfiá-los. Eu, que ainda compro mp3 e não tenho mais onde enfiá-los. Será que o Apple Music vai dar conta da minha biblioteca e do meu gosto, tão específico e refinado? E como é que é esse tal de modo offline? De onde vêm as músicas? Onde elas ficam armazenadas? Tenho o resto da vida para descobrir. Ou até inventarem algo mais moderno.

O DONO DA BOLA

Não durou nem 24 horas. Eduardo Cunha usou seu truque que já virou clássico: mudou umas palavrinhas, acrescentou umas vírgulas e pôs a PEC que reduz a maioridade penal novamente em votação. Mas isto já era esperado. Triste mesmo foi ver deputados como a Mara Gabrilli, que prega a inclusão, virando casaca e votando no "sim". Ela deve ter ficado com medo de, na próxima campanha, ser acusada de ter CONTRIBUÍDO para o aumento da criminalidade por ter votado "não". Este é o Brasil de hoje: o reino da boçalidade, do medo e da ignorância. Um país como este merece um facínora como Eduardo Cunha, que anda tão saidinho que teve até a desfaçatez de anunciar seu próximo golpe: aprovar o parlamentarismo. Por que daí, quem seria o primeiro-ministro? Hein? Hein?

quarta-feira, 1 de julho de 2015

MEU OUVIDO NA FASE GAY


Sempre fui hétero de ouvido. Prefiro música com vocal feminino do que masculino (o que decerto quer dizer que NÃO sou hétero em tudo o mais). Por isto me surpreendi por não ter trazido um único disquinho de cantora deste meu recente bate-e-volta à Suíça. Só tem marmanjo! Se bem que não sei se o Mika se encaixa muito nessa categoria... Mas seu novo CD, "No Place in Heaven", é o melhor e mais consistente de sua carreira. Pop criativo, alegre quase o tempo todo, triste às vezes, mas nunca deprê. Com atenção especial aos backing vocals, esse discípulo de Freddie Mercury está mais maduro, mas não perdeu o frescor. E eu ainda tive a sorte de comprar a versão deluxe europeia, que tem quatro ótimas faixas em francês. Cherchez-las!

Outro que busca inspiração no passado é o americano Brandon Flowers, líder do The Killers. "The Desired Effect", seu novo disco solo, tem os dois pés firmemente plantados nos anos 80. Pena que a melhora faixa, "I Can Change", só tenha lyric video: o gay honorário Brandon (que é casado com mulher e tem filhos) sampleia o arranjo do hino bicha "Smalltown Boy", do Bronski Beat, e ainda tem Neil Tennant dos Pet Shop Boys no corinho. Hmm, significa?


Agora, moderno mesmo é o "In Colour" do Jamie xx. Membro e produtor do The xx, este rapazote de 26 anos lança um trabalho solo que não vai decepcionar quem gosta de sua banda, mas que também vai além das sonoridades etéreas que se tornaram sua marca registrada. Na boa: acho que já temos o melhor álbum de 2015. É para escutar com fones e se deixar levar, como se fosse rock progressivo dos anos 70 - só que é atual pacas. E agora estou me tocando que Jamie xx não é cantor. As poucas faixas com vocais são featuring convidados, inclusive a colega de grupo Romy. Ou seja, este disco tem mulher cantando. Ou seja, continuo hétero no ouvido. No resto...

POR CINCO VOTOS

Contrariando quase todas as previsões, a PEC da redução da maioridade penal não passou na Câmara. Faltaram cinco votos para que se atingissem os 308 necessários para se alterar a Consituição. Talvez tenha sido um mero golpe do acaso: vinte deputados não puderam ir ao plenário, número mais do que o suficiente para virar o placar. Como seria de se esperar, Eduardo Cunha não se deu por vencido e já vai propor outra emenda na semana que vem, com algumas alterações. Temo que aconteça o mesmo que se passou com a proibição do financiamento de campanhas por empresas, que foi recusado num dia e aprovado no outro. Mas essa vitória do "não" na madrugada de hoje, ainda que temporária, dá um soprinho de esperança: parece que o Brasil ainda não está irremediavelmente nas mãos dos conservadores. Parece... Eu acho a questão super complexa, mas, se tenho que dar uma resposta binária, também voto no "não". É preciso mais debate, mais estudo sobre o que aconteceu nos países que reduziram, menos pai-nossos e mais civilidade. De qualquer forma, seja lá de que lado você estiver nessa questão, confira aqui como o seu deputado (ou o seu partido favorito) votou. Se não bater com o que você pensa, reclame.

terça-feira, 30 de junho de 2015

MANIFESTO DO NOJINHO

Estou com nojinho do momento em que estamos vivendo, tanto politica quanto culturalmente. Nojinho da Dilma dizer que "despreza" os delatores - justo ela, que sancionou a lei da delação premiada? E será que ela não percebe que, ao "desprezá-lo" e compará-lo a Joaquim Silvério dos Reis, ela está confirmando as denúncias do delator? Também estou com nojinho do Aécio, que procura manter acesa a chama do impeachment para agradar à neodireita selvagem, que o apoia "à faute de mieux". Nojinho, não, nojão, do Eduardo Cunha, um safado oportunista que está fazendo de tudo para o circo pegar fogo e ele se dar bem. Nojinho dos fãs da música sertaneja, que acham que é "descaso com a dor da família de Cristiano Araújo" dizer que o funeral do rapaz não merecia uma cobertura digna de um faraó. Nojinho dos babacas que não coloriram suas fotos no Facebook, alegando que a fome na África, sim, é que é uma causa justa. Quanto que esses tolinho doaram ao combate à fome? O Zuckeberg, dono do Facebook, doou milhões de dólares, e nem por isto deixou de apoiar os gays. Também estou com nojinho de quem não sabe interpretar o que lê, de quem não consegue manter na cabeça duas ideias contraditórias ao mesmo tempo, de quem se julga o dono da verdade e ainda não tem nem 30 anos, de quem exige "desculpas" porque alguém não seguiu à risca o cânone sagrado recém-lançado... Eu poderia ficar horas aumentando essa lista. Tenho até nojinho de mim mesmo, por ser tão complacente com essas coisas.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

FIM DE FESTA NO APÊ


Mas é óbvio que eu iria ver um filme estrelado por Maggie Smith e Kristin Scot-Thomas. Ainda mais porque "Minha Querida Dama" se passa em Paris. Mas, sinto dizer, não gostei muito. Boa parte do tempo é gasta com o stress de um americano que herda um apartamentaço na capital francesa, mas com um senão: ele precisa pagar 2.400 à antiga proprietária até ela morrer, um sistema local chamado viager. Para complicar, a velha ainda mora lá e não pretende se mudar. Problemas com transações imobiliárias não são exatamente um tema agradável, mas o elenco e a paisagem ajudam. Pena que também se gaste muito tempo com segredos de família dignos de novela mexicana.

MAUS FÍGADOS

A proibição do foie gras na cidade de São Paulo me destapa uma enxurrada de emoções contraditórias. A primeira é de revolta: como assim, não posso mais comer nem comprar foie gras no lugar onde eu vivo? A segunda é de indiferença. Acho que como foie gras menos do que uma vez por ano, apesar de gostar muito. Acontece que é caro pacas, e não tão fácil de encontrar. A terceira emoção é de despeito: tenho a sensação de que o prefeito Fernando Haddad só foi atrás do foie gras porque é uma iguaria das elites. A crueldade da "gavage", o método de alimentação forçada a que os gansos são submetidos para que seus fígados engordem, não é pior do que o que se faz com os frangos das megagranjas: confinados em espaços apertados, debaixo de luzes pernamentemente acesas, depois pendurados de cabeça para baixo numa roldana e decapitados numa linha de montagem. Mas frango é comida do povão, quase um artigo de primeira necessidade. A quarta emoção é a de um alívio civilizado. Os únicos países da Europa onde ainda se pratica a "gavage" são França, Espanha, Hungria e Bulgária. No resto já é proibido, e a tendência é que a proibição se espalhe pelo mundo. Essa questão, no entanto, levanta muitas outras. Por exemplo: e as lagostas, que costumam ser cozinhadas vivas? E as ostras, engolidas só com limão? E o bife koi, de gado confinado? E a carne de vitela, na verdade de bezerrinhos que ainda mamam? E os abatedouros em geral? Espiritualmente, eu queria ser vegetariano. Mas na prática não consigo...

domingo, 28 de junho de 2015

FALTOU CHAMPIGNON

Wilson Simonal ocupa um lugar bizarro no panteão da música brasileira. Foi maior ídolo do país na virada dos anos 60 para os 70 - maior até que Roberto Carlos, que naquela época vivia a ressaca da Jovem Guarda. Bonitão, seguro de si, esbanjando carisma e ainda com uma voz fenomenal, o cara comandou o Maracanãzinho e fez dueto com Sarah Vaughn. Aí mandou dar um "susto" no contador que suspeitava estar lhe roubando, foi em cana e caiu no ostracismo, incentivado pela esquerda que o acusava injustamente de dedo-duro. Nunca mais se reergueu e morreu, alcoólatra e semi-esquecido, quinze anos atrás. Não é uma história com final feliz, mas rendeu um excelente documentário em 2009 e agora chega aos palcos com o musical "S'imbora". Um espetáculo que, sinto dizer, não faz jus à sua grandeza. Talvez fosse melhor sem uma estrutura linear, pois perde-se muito tempo num desinteressante começo de carreira e termina-se com alegria forçada numa suposta festa no céu, onde Simonal é recebido por seu descobridor, o folclórico Carlos Imperial. Para piorar, assisti à peça com o stand-in no papel principal, e o rapaz não convence totalmente. Nelson Motta deu mais sorte com "Tim Maia", que revelou Tiago Abravanel e cujas músicas se eternizaram nos nossos corações. Não é o caso de Simonal: seus hits hoje soam datados, assim como a gíria que ele usava quando queria dizer veneno, pimenta, sacanagem - "champignon". Pois foi exatamente o que faltou nessa produção quase modesta.

FILME CABEÇA


Quando eu era pequeno, passava na televisão um programa chamado "Disneylândia", que reembalava antigos desenhos e curtas-metragens dos estúdios do Mickey. Um dos que mais me marcou foi "Razão e Emoção", onde essas duas entidades duelavam dentro da cabeça das pessoas para assumir o controle. Tenho certeza que este clássico (que está logo mais abaixo em todo seu esplendor original) serviu de inspiração para "Divertida Mente", desde já um dos melhores filmes da década. Esta nova obra-prima da Pixar é uma delícia do começo ao fim, com piadas sensacionais e um "insight" verdadeiro sobre como funciona o cérebro humano. Por isto, apesar de ser voltada para as crianças, só os adultos conseguirão usufruir totalmente. Fiz questão de assistir à versão original, porque queria escutar a voz de Phyllis Smith como a Tristeza. Lembra dela? A gorda de "The Office", um prodígio de under-acting naquela série e que aqui encontra o papel de sua vida. Só lamento que uma das minhas emoções favoritas, o Nojinho, apareça tão pouco. Quem sabe daqui a pouco ela ganha um filme só para ela?

sábado, 27 de junho de 2015

RAINBOW IS THE NEW BLACK

Pronto, o mundo inteiro é gay. Que delícia ver tantos amigos, principalmente os héteros, colorindo suas fotinhas no Facebook. A brincadeira se espalhou pelo mundo inteiro, e claro que alguns pareciam estar aderindo por puro oportunismo - desde quando que Lula e Dilma são paladinos da causa LGBT? Mas é melhor que adiram, claro, pois é sinal da força do movimento (Aécio e Marina, até agora, lhufas). Também senti que essa enviadação em massa faz parte da recente reação aos excessos dos fundamentalistas, juntando-se à campanha do Boticário e à procura por rola do Malafaia. E aqui vai um recado aos chatos de plantão que reclamam que, quatro anos atrás, não rolou uma onda dessas nas redes sociais quando o nosso STF fez o mesmo que a Suprema Corte americana: o momento era outro, os teocratas não estavam tããão pentelhos como estão agora, e tudo o que vem dos Estados Unidos tem repercussão mundial. Quem diria que veríamos o Jean Wyllys colocando a Casa Branca na foto de capa do perfil dele?... 

Um dia emocionante, que aliás ainda está sendo. E também divertido, porque the zoeira never stops. A Cleycianne se arcoirizou, mas disse que foi hackeada. Um engraçadinho hackeou pra valer o site Verdade Gospel e postou a imagem acima ao som de "YMACA". Sempre fico dividido com esse tipo de ação, porque dá pretexto para esses canalhas se fazerem de vítimas (e há uma injustiça na imagem: Aecim, pelo menos até o primeiro turno das eleições do ano passado, era declaradamente a favor do casamento igualitário, coisa que Dilmão jamais disse com todas as letras).

Quero muito acreditar que alguma coisa está mudando no Brasil (em boa parte do mndo civilizado já mudou). Que não vamos mais ficar calados enquanto que a bancada BBB (bíblia, bala e boi) faz o que quer no Congresso. Não vai ser fácil: ainda somos minoria, e tem muito brucutu por aí que acha que democracia é a ditadura da maioria e que devemos todos nos submeter à vontade deles. Mas essa gracinha promovida pelo Feice mostrou que não somos tão poucos assim, e que a tendência é crescermos. Raio enviadador, acionar!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

EX-GAY E ANDEI

Na falta de louça para lavar, a bancada fundamentalista do Congresso tentou lançar luz a uma das minorias supostamente mais perseguidas do Brasil: os ex-gays. Não sei exatamente em qual instância da vida esses coitados sofrem restrições - na adoção de crianças? no plano de saúde? nas manifestações públicas de afeto? - mas agora já se fala até em "ex-gayfobia". Alguns deles contaram suas histórias aos parlamentares. Em comum, todos foram "salvos" por Jesus de uma vida de pecado. Faltou dizer que, para cada ex-gay que essas "igrejas" ostentam como troféus, existem dezenas, talvez centenas de pessoas traumatizadas que não conseguiram se "curar" da própria homossexualidade. Acho que está na hora de darmos mais voz aos ex-evangélicos, às vítimas da opressão religiosa, tanto física quanto psicológica. O pior é que o que está por trás nem é ideologia, é cobiça mesmo. Infeliciano e seus asseclas sonham em trazer para o Brasil "clínicas de reabilitação sexual" nos moldes das que existem nos Estados Unidos, com verniz científico e tudo. Ou existiam: estão fechando uma atrás da outra, depois que seus métodos se revelaram fraudulentos e que muitos ex-pacientes narraram o terror que viveram lá dentro. Por aqui existe um lobby para que possam ser instaladas, além dos trabalhos de descarrego e amarração que essas seitas mercenárias já fazem. O perigo é real e a meia dúzia de deputado abertamente pró-LGBT pouco consegue fazer. Precisa surgir uma mobilização como a de junho de 2013, quando a "cura gay" entrou no balaio das maldades a serem combatidas e foi rapidamente engavetada. Mas o momento político atual é totalmente diverso. Os próprios gays parecem mais divididos do que nunca, atacando seus poucos representantes no Congresso ou patrulhando-se uns aos outros. Tem até quem diga que deveríamos ignorar provocações como esta que a bancada BBB acabou de fazer, para não dar ibope para essa corja. Mas aí eu lembro do que disse a J. K. Rowling, a autora do "Harry Potter": a gente responde aos homofóbicos em prol dos jovens reprimidos, que não podem se defender. E são justamente eles os que mais irão sofrer se esses projetos se tornarem leis.

LOVE WINS


Mais um dia histórico. A Suprema Corte dos Estados Unidos acaba de decidir que as proibições estaduais ao casamento igualitário são inconstitucionais - na prática, isto quer dizer que o casamento gay está aprovado em todo o país. O placar foi apertado: 5 a 4, com os juízes liberais de um lado, os conservadores do outro e William Kennedy, que costuma pender para um lado ou para o outro, pendendo para o lado certo. Muitos políticos republicanos dizem que ainda vão lutar na justiça (em qual instância?), ou simplesmente ignorar a resolução. Talvez ainda haja alguns sobressaltos pela frente, mas o amor venceu. Como sempre.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

DEFINA HÉTERO

A notícia de quea drag queen Léo Áquila considera estar num relacionamento heterossexual me incomodou um tiquinho. Também fiquei incomodado por me incomodar. Vamos por partes. Léo é razoavelmente conhecida: já participou de "A Fazenda" e se candidatou uma pá de vezes a cargos políticos, sem jamais ter sido eleita para nada. Não é operada nem sei se pretende entrar na faca, mas se considera transexual: estas definições agora mudam o tempo todo, então basta alguém dizer que é alguma coisa para sê-la. Você é mulher se acha que é mulher, e eu sou a favor disto. Mas será que sou mesmo? Acho que não, porque fiquei bolado por Léo se dizer hétero. Preconceito dela? Preconceito meu? Mas, se a Caitlyn Jenner se diz lésbica... Também me mordi por ela dizer que quer casar na igreja católica e que até já teria encontrado uma "inclusiva". Oi? Então não é católica, né? Tenho medo que isto sirva de munição ao inimigo, que diz que os gays forçarão a passagem de leis obrigando todas as igrejas a casá-los. Por outro lado, quem é religioso e sempre sonhou se casar de véu e grinalda deve poder realizar este sonho de alguma maneira. E para terminar, chega de tanto rótulo. Cansei.

CRISTIANO QUEM?

Ontem foi um dia trágico para os milhões de fãs de Cristiano Araújo, que morreu ao lado da namorada num acidente de carro no interior de Goiás. Também foi um dia curioso nas redes sociais: em muitas timelines, o que não faltava era gente se perguntando quem era o falecido cantor sertanejo. Esse descompasso fez com que a Folha me sugerisse um texto para o F5, que acabou saindo também no caderno Cotidiano, na versão impressa do jornal. Tive que escrevê-lo correndo, em cima da hora do fechamento, pois passei quase a tarde toda numa reunião do trabalho. E acabei cometendo uns errinhos: alguns foram corrigidos a tempo, mas um outro permaneceu, bem na abertura da coluna. Hoje de manhã mandei uma nova versão para ser publicada online, e o resultado é que, neste momento, as duas estão no ar no F5: a primeira, igual à do jornal, está aqui, e a segunda, aqui, com alguns acréscimos. Mas o pensamento por trás de ambas é o mesmo: como é que pode, um sujeito se tornar um ídolo para tantas pessoas e passar batido para outras tantas? Politica e culturalmente, o Brasil está se tornando muitos países  num só - mas será que isto é necessariamente ruim? O que você acha?

ATUALIZAÇÃO: Agora só a versão mais recente do texto está no ar no F5. Mas a antiga ainda pode ser lida no site da Folha e na versão impressa do jornal.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

TRANSLUMBRANTE

Ainda nem chegamos à metade de 2015, mas já está claro qual é o tema dominante da cultura pop produzida este ano: a transexualidade. A capa da revista "Entertainment Weekly" confirma a minha tese, mas Laverne Cox (da série "Orange is the New Black") nem é a trans mais badalada do momento. Esta honra vai para Caitlyn Jenner, que está fazendo de sua transição um espetáculo, um negócio e um exemplo a ser seguido. O assunto está presente na TV e no cinema: "Transparent", "Glee", "Sense8", o filme francês "Une Nouvelle Amie" que eu acabei de ver no avião. Mas a onda não começou agora, óbvio, RuPaul está por aí há mais de 20 anos e, aqui no Brasil, Laerte não sai das manchetes desde que se assumiu crossdresser em 2010. Só que nossos transexuais ainda não chegaram ao mainstream. Sim, havia a Valéria do "Zorra Total", mas cadê o personagem numa novela? Não tão cedo, né? Ainda mais agora, depois da grita em torno de "Babilônia" (que, aliás, está retardando a entrada em cena de Rogéria). Pelo menos tivemos a performance de Viviany Beleboni, a trans crucificada da parada gay de SP, que trouxe a polêmica para a luz do dia. E o brilho de Nany People, uma das melhores atrizes com quem eu já trabalhei, period. Não tenha dúvida: mais cedo ou mais tarde, o Brasil também vai transicionar para este novo tempo.

terça-feira, 23 de junho de 2015

VOCÊ JÁ FOI A ISRAEL, NÊGA? NÃO?

Então vá. Há um nítido esforço de alguns setores da esquerda em demonizar Israel. A única democracia do Oriente Médio e um dos países mais gay-friendly do mundo vem sendo pintado, desde que a direita se aferrou ao poder, no maior vilão de uma vizinhança que inclui o Irã, a Arábia Saudita e o ISIS. Claro que o governo de Netanyahu não é flor que se cheire, e que injustiças terríveis são cometidas todos os dias contra os palestinos. Mas tocar num país não significa aderir ao regime que o governa. E Israel não é a África do Sul, onde o apartheid, com o perdão do trocadilho, deixava tudo preto no branco. Israel são 500 tons de cinza e, repito, uma democracia mais funcional que a maioria das que nos rodeiam. É por isto que Caetano Veloso e Gilberto Gil têm toda a razão em recusar polidamente o pedido de Roger Waters para que não se apresentassem em Tel Aviv. Adorei a carta aberta com que Caetano respondeu a Waters: quase tão boa quanto o pito que ele deu no funcionário que usou errado a crase numa de suas redes sociais. Acho que há muito que se pode fazer para que os israelenses retomem a ideia dos dois estados (ou, melhor ainda, um estado só, com plena cidadania para todos). Mas privar um público provavelmente mais liberal que a média de ver dois velhos baianos não me parece lá muito eficaz.

LOVE TO LOVE YOU GIORGIO


Giorgio Moroder foi crucial na formação do meu gosto musical. Aliás, não é só para mim que ele foi importante: leva a sua assinatura aquela que é, na minha opinião, a canção mais influente dos últimos 40 anos: "I Feel Love", da diva Donna Sumer. Um dos primeiros arranjos feitos apenas com sequências eletrônicas e um hit global, cujos ecos ainda se ouvem. Moroder diz que estava tentando capturar o som da luz estroboscópica. Conseguiu.
Esse produtor italiano de sobrenome alemão foi disputadíssimo pelas estrelas até meados dos anos 80, mas depois caiu no ostracismo. Voltou a ficar em evidência dois anos atrás, quando o Daft Punk dedicou a ele a faixa "Giorgio by Moroder" no álbum "Random Access Memories": na verdade, uma longa entrevista ilustrada com música. A repercussão foi tão grande que o cara passou a ser convidado para DJ sets ao redor do mundo (passou até pelo Brasil), algo que nunca foi sua especialidade. Agora ele surge fazendo o que melhor sabe, que é fabricar sucessos. Seu primeiro disco em décadas, "Déjà Vu", tem um elenco de grandes nomes nos vocais e parece uma compilação do tipo "Now That's What I Call Music". Tudo é animado, tudo soa clássico e moderno ao mesmo tempo.
Minha faixa favorita é o remake de "Tom's Diner" com Britney Spears, que ainda não tem seu vídeo. Mas Morodoer soa mais Moroder do que nunca nos temas instrumentais, com aquela pegada de ficção científica prateada misturada com o glamour de boates parisienses como o Chez Régine's. É o caso de "74 is the new 24", aí acima, que foi lançada como jiongle do Google em 2013, mudou de nome algumas vezes e agora encontra sua encarnaçnao definitiva. Ah, Giorgio, tantas lembranças... da gemeção de Donna Summer à trilha pioneira do "Expresso da Meia-Noite", passando pela fase mais radical do meu adorado Sparks. Que bom que chegou mais uma: "Déjà Vu" é um trabalho digno de quem não precisa provar mais nada, mas continua ótimo como sempre foi. Corre atrás que vale a pena.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

CAROUGE PARTOUT

Pronto, já estou fazendo a mala. Esses quatro dias em Genebra foram quase que só programas de família: almoço na casa de um, jantar na casa de outro, festa de casamento e umas comprinhas, bien sûr. Os dias estavam gloriosos e a cidade mudou de vibe. As praias às margens do lago estão lotadas, a garotada invadiu as ruas e chega até a fazer calor. Diria-se que o espírito de Carouge se espalhou por toda parte: o bairro boêmio de Genebra começou sua história como um vilarejo italiano vizinho à ultra-austera cidade dominada pelos calvinistas. Como aqui era proibido até cantar e dançar, era em Carouge que os genevoises iam festejar no século 17. Hoje é tudo uma coisa só, mas com arquiteura e ambiente bem distintos entre si. Ou nem tanto, nesse comecinho do verão setentrional.

domingo, 21 de junho de 2015

IT'S A SMALL, SMALL WORLD

"Há um mundo bem melhor / Todo feito pra vocês / É um mundo pequenino / Que a ternura fez". E a ternura fez mesmo, junto com a tecnologia. Não há mais distâncias, não há mais barreiras, ou quase não há. É o que possibilita a formação de casais como meu sobrinho Marc e sua noiva Nashe. Ele nasceu na Suíça, filho de pai brasileiro (meu irmão) e mãe americana de origem judia. Ela, filha de pai suíço-alemão e mãe tanzaniana (Flora, comigo na foto abaixo). Os dois se conheceram em Londres e se casaram ontem, na casa da mãe dele em Cologny, arredores de Genebra. É aqui onde estou hospedado, com direito a vista para o lago Léman.

Foi a festa com mais nacionalidades presentes a que eu já fui. O interessante é que todo mundo era meio conectado, quase uma imensa família. Sentei ao lado de uma moça tailandesa e, conversando, descobri que ela é casada com um primo 100% suíço e louro da noiva, com quem tem uma filhinha absolutamente linda. Os melhores amigos de Nashe são um gay iraniano fervidíssimo e uma filipina chamada Tosca, que mora em SP. Dá pra ser mais cool do que isto?

Não houve cerimônia religiosa, mas um discurso emocionante e engraçado feito pelos irmãos dos noivos, dois de cada lado. Depois teve troca de alianças e, seguindo a tradição judaica, um copo quebrado com os pés (mazel tov!). A área da garagem, nos fundos da casa, foi coberta por um toldo e ocupada por grandes mesas e bancos de piquenique, sem encosto. Um jantar bastante simples (salada, vitela, tiramisù) e, logo em seguida, as mesas afastadas para que surgisse uma pista de dança. Ao som de funk africano, duas revelações: o pai da noiva, o suíço mais groovy evah, e essa japonesa de quimono, que rodopiou nos tamancos sem jamais perder o rebolado. Uma festa divertida, que parecia a confraternização de final de ano dos funcionários da ONU. Que bom que eu vim.