quinta-feira, 24 de abril de 2014

"VEEP" À FRANCESA


Aqui no Brasil só conseguimos rir da corrupção dos nossos políticos. E assim ignoramos um traço que é ainda pior: a incompetência. A série americana "Veep" faz isto com maestria: a vice-presidente Selina Meyer, descaradamente inspirada em Sarah Palin, é despreparada para o cargo e vive se metendo em confusão. O filme "O Palácio Francês" tem alguns pontos em comum com a sitcom de Julia Louis-Dreyfus. Aqui o protagonista é um fictício ministro das Relações Exteriores (o palácio do título é o Quai d'Orsay, o Itamaraty deles), que disfarça com arrogância e hiperatividade o vácuo que existe em sua cabeça. É um personagem e tanto, mas o roteiro - adaptado de uma história em quadrinhos baseada em fatos reais - não sabe o que fazer com ele. O filme anda em círculos, com algumas boas piadas mas sem um plot propriamente dito. O veterano Niels Arestrup ganhou seu terceiro César de coadjuvante como o assessor que conserta as cagadas do patrão, mas a fantástica interpretação de Thierry Lhermitte como o ministro desastrado sequer foi indicada. Mesmo que fosse incrível (não é), "O Palácio Francês" não tem muito interesse para o espectador brasileiro. A não ser para aquele que quiser ver Julie Gayet, a amante do presidente François Hollande, que também está no elenco.

SEND IN THE CLONES

"Breaking Bad" deixou um buraco na minha vida, que eu venho tentando preencher com muitas séries diferentes. Uma delas é a canadense "Orphan Black", cuja primeira temporada eu termino hoje (a segunda acaba de estrear lá fora). É uma trama policial com fartas doses de ficção científica: uma moça meio punk descobre que tem vários clones, e que todos foram gerados numa misteriosa experiência genética. Mas uma seita de fanáticos religiosos quer eliminar os clones, e um dos personagens tem rabo. Essa despirocação toda é compensada por temas de fundo realmente sérios: quem sou eu? Como eu seria se fosse diferente? Devo encaracolar o cabelo? A atriz Tatiana Maslany dá vida a quase uma dezena de personagens idênticas porém diferentes e, como disse um crítico americano, tem muita química com si mesa. "Orphan Black" tem momentos de muita tensão e outros de comédia de boulevard, como nas muitas vezes em que um clone tem que se passar por outro. Não chega a ser transcendental como a saga do Walter White, mas é um dos programas mais interessantes da TV contemporânea. Procure no Netflix.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

PODE SER A GOTA D'ÁGUA

Acho um acinte essa história do governo de São Paulo querer multar quem aumentar seu consumo de água. Isto é uma medida digna de Hugo Chávez, que a implantou durante uma seca na Venezuela quatro anos atrás. É passar recibo de incompetência. Também é sinal de que passa da hora do PSDB sair do Palácio dos Bandeirantes. Sim, sou eu quem diz isto: eu, tido como tucano de carteirinha por boa parte dos leitores deste blog. E como acredito que o rodízio dos partidos no poder é um dos pilares da democracia, não vou votar em Alckmin nas próximas eleições. Meu saco transbordou.

VENIMOS A BRASILAR

Por quê que a FIFA cismou que os hinos "oficiais" das Copas precisam ser cantados em inglês por latinos? Ela acha que isto que é ser global? O torneio de 2010 teve "Waka Waka" na voz de Shakira, discretamente acompanhada por uma banda da África do Sul. Agora há uma enxurrada de temas, inclusive uma atrocidade cometida pela própria Shakira. Sem falar em "We Are One (Ole Ola)", que reúne Pitbull, Jennifer Lopez e Cláudia Leitte e conseguiu a façanha de não agradar a absolutamente ninguém. Mas nada é pior do que "Vida", cujo clipe foi gravado por Ricky Martin nas praias do Rio de Janeiro. A música é de uma banalidade espantosa, e o vídeo é mais anódino do que um comercial de Coca-Cola. Fora que Ricky, ainda sensacional aos 40 anos, envelheceu uns 10 com essa barba rala sal-e-pimenta. Deus é testemunha de que eu sou um grande apreciador de porcarias, mas elas têm que ser bem feitas. Não é o caso aqui.

terça-feira, 22 de abril de 2014

VAMOS ABRIR A RODA, ENLARGUECER

Acaba de sair o segundo vídeo do Põe na Roda, dessa vez com a participação de um grande elenco. Eu inclusive: já vou antecipando os haters anônimos e dizer que estou gordo, velho e ridículo. Portanto, nem se deem ao trabalho. Foquem no vídeo! Que está engraçado e muito bem editado. Daqui a pouco vão rolar remixes funk, e o Pedro HMC vai ficar rico. Vamos ver se ele põe os lucros na roda?

PROVA DE CONFIANÇA

Não me lembro de ter visto um filme brasileiro de suspense antes de "Confia em Mim". Só isto já me deixou bastante interessado na estreia em longa-metragem do diretor Michel Tikhomiroff. Junte-se a isto o elenco encabeçado por Mateus Solano e o argumento instigante (moça insegura cai nas mãos de um vigarista), e lá fui eu com a maior das boas vontades para o cinema. Não me decepcionei, mas também não saí maravilhado. O roteiro não tem barriga e segura a atenção até o final de enxutos 90 minutos. Mateus me lembrou muito o Félix no começo, mas lá pela metade eu já tinha esquecido da bicha má de "Amor à Vida". E Fernanda Machado mostrou que tem "star quality" quando ganha um papel com um mínimo de coerência. Mas o excesso de planos fechadíssimos remete às novelas de vinte anos atrás, e a fotografia sem brilho dá um ar corriqueiro a um filme que precisava de um toque de glamour. Em resumo: "Confia em Mim" parece ter sido feito para a televisão, onde certamente fará sucesso. Mas é uma boa incursão num gênero raro no cinema nacional, e um começo promissor para todos os envolvidos. Dá para confiar.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A BOSSA NOSSA E A DOS OUTROS

Um amigo gringo que havia acabado de se mudar para o Rio me perguntou qual era o melhor lugar para se ouvir bossa nova na cidade. E eu respondi... (grilos). Curioso como a música brasileira mais famosa do mundo virou quase que peça de museu por aqui. A bossa nova não gerou variantes: até existem versões eletrônicas dos clássicos, mas nada que se compare ao que aconteceu com o tango na Argentina. Mas não morreu para sempre. De vez em quando surge um bom disco novo do gênero, ainda que sem acrescentar muito ao que já existe. É o caso de "Gilbertos Samba": a releitura que Gilberto Gil faz de diversos temas gravados por João Gilberto (inclusive um co-escrito pelo próprio Gil). O ex-ministro da Cultura é excelente violonista, e sua voz tem mais alcance do que a do pai da bossa nova (se bem que eu nunca gostei muito de seu timbre). Com bom gosto e sobriedade, ele fez um álbum forte e delicado ao mesmo tempo, com uns toques moderninhos aqui e ali. Mas Gil acaba sendo reverente demais, aparentando medo de profanar um campo sagrado. Ou vai ver que ele sente que já profanou o suficiente com a Tropicália.

Mais interessante, para mim, é a bossa nova que os gringos fazem. Como a da dupla americana Thievery Corporation, que faz um som "lounge" assumidamente influenciado pelo Brasil. Agora eles lançam "Saudade", um CD inteirinho do que acham que seja bossa nova. Digo acham porque mesmo as faixas cantadas em português (há também em inglês, francês, espanhol e italiano) e acompanhadas por uma leve batucada não soam como standards de Tom Jobim. Há um certo excesso de melancolia. Outras estão mais para a praia de Henry Mancini do que qualquer outra coisa, sem o menor aroma de brasilidade. Mas tudo bem: o que importa é que o disco é um ótimo exemplar do estilo "rede sonora". É só ouvir para você se sentir balançando numa rede à beira-mar, com um drink na mão.

GORÓ EM PÓ

Acaba de ser liberada nos EUA a comercialização do Palcohol, o primeiro álcool em pó. Apesar do som sugestivo em português, o nome é uma contração de "pal" (amigo) com "alcohol", e a propaganda do produto fala que ele é "um amigo que te acompanha por toda parte". Aí que mora o perigo: o Palcohol vem em saquinhos discretos que podem ser levados no bolso para cinemas, estádios, escolas e qualquer lugar onde é proibido o consumo de bebidas alcóolicas. Basta acrescentar água para que ele se transforme num drink (já existem cinco sabores, inclusive o suspeito kamikaze). Ou nem isto. O Palcohol também pode ser cheirado, causando um porre instantâneo. A princípio o fabricante exaltou essas "virtudes" no site, mas já mudou a linguagem por causa das reações negativas. Também avisou que tornará o pó mais grosso, para desestimular o consumo nasal. Ainda é cedo para dizer, mas o estrago do Palcohol pode ser enorme. Periga até mudar o final da frase histórica atribuída a Jânio Quadros: "...se fosse sólido, aspirá-lo-ia".

domingo, 20 de abril de 2014

MEU PROBLEMA COM BRASÍLIA

Esta é só a terceira vez que eu venho a Brasília, e a primeira em que dormi na cidade. Claro que ainda é pouco para ter uma boa noção do lugar, ainda mais porque ficamos 90% do tempo absorvidos pela chegada da Aurora. Mas também não foi o suficiente para apagar a má impressão que eu tive na outra vez. Verdade que as ruas me pareceram mais limpas e os jardins melhor cuidados. Minha pinimba agora é com os serviços. Para começar, onde se meteram os táxis? Uma cidade com transporte público deficiente e distâncias imensas, e o táxi chega a levar quase meia hora para chegar ao hotel depois de chamado? Ah, o hotel: o Eurostar Brisas do Lago inaugurou há quatro meses, mas ainda não está totalmente pronto. Seu staff também não está: no café da manhã, por exemplo, tive que acenar freneticamente para que algum dos garços distraídos me notasse. Também precisei mostrar para um deles que eu, desastrado como sempre, havia derramado um copo inteiro de suco de laranja - caso contrário, o chão estaria melado até agora. Nos shoppings, nenhum vendedor parece muito interessado em atender o cliente. E os endereços cheios de siglas, para quem vem de fora, parecem coordenadas estelares usadas pela nave Enterprise. Pelo menos a parte nova do aeroporto está sensacional; tem até Hudson News, igualzinha às de Miami. Sei que, para ter uma opinião mais justa, eu precisaria passar uma temporada em Brasília. Mas será que eu quero?

sábado, 19 de abril de 2014

AURORA

Nasceu a neta do meu marido. Como a filha dele insiste que ela também é minha, então eu também sou avô. O parto aconteceu em Brasília com o auxílio de uma doula e o bebê nasceu empelicado - ou seja, dentro da bolsa, que não se rompeu. É um acontecimento raríssimo (um a cada 80.000 partos) e há toda uma mitologia ao redor. As criancas que nascem empelicadas teriam uma proteção especial. Só descobrimos que era menina depois do nascimento, pois minha enteada, apesar de ter feito todos os exames, se recusou a saber o sexo. Vai se chamar Aurora, nome de princesa. E passar a vida escutando: "se você fosse sincera, ôôôô...".

sexta-feira, 18 de abril de 2014

GABO

Só li cinco livros de Gabriel García Márquez: "Cem Anos de Solidão", "Crônica de uma Morte Anunciada", "O Amor nos Tempos do Cólera", "Noticias de un Secuestro" (que me surpreendeu epla crítica feita às FARC, ainda mais vinda de um notório comunista) e "Memórias de Minhas Putas Tristes"(que eu detestei, por ser incrivelmente machista). Por isto não me tenho como profundo conhecedor de sua obra, e quer saber? Sou mais team Vargas Llosa. Mas é claro que Gabo era maravilhoso. O impacto de "Cem Anos..."é sentido até hoje, quase meio século depois de sua publicação, e é uma dos obras chave quem quiser ter noção do que é a América Latina. O cara teve todas as homenagens possíveis em vida, então só nos resta uma coisa a lamentar: não teremos mais livros novos dele.

DOMINGÃO DO FALSTAFF

Gosto muito de ópera, mas só vou quando os ingressos me caem no colo. Foi o que aconteceu desta vez: um casal de amigos que tem assinatura da temporada foi viajar no feriadão, e lá fomos nós para o Municipal de SP ver "Falstaff". A última obra composta por Verdi é uma adaptação da peça "As Alegres Comadres de Windsor" de Shakespeare, e é a mais engraçada de todas. Verdi tira sarro do próprio gênero: árias são interrompidas por resmungos, e por pouco os personagens não soltam palavrões. O diretor italiano Davide Livermoore traz a ação para a Londres dos anos 70, com direito a punks e rainhas no palco. Mas as marcas são pobrinhas, e o cenário que reflete o próprio teatro não diz muito a que veio. Salva-se o excelente baixo-barítono Ambrogio Maestri, que parece ter nascido para o papel-título. Imenso no corpo e na voz, ele ainda tem o timing cômico afiadíssimo. Quem se interessar ainda tem tempo: haverá récitas nos dias 19, 20, 22 e 24.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A REPÚBLICA DOS G0YS

Você conhece algum g0y? Sei não, mas o tal do movimento que está eriçando a internet - umas cinco pessoas já me mandaram links para notícias a respeito - me parece meio fake. Ouvi falar dos g0ys há mais de um mês, graças a esta matéria no site Lado Bi. Depois disso eles ganharam site e página em português no Facebook, além de várias menções na imprensa. Mas o que eu acho de tudo isto? Pra começo de conversa, claro que eu acho que é tudo viado. Esse papo de "homens que curtem homens, mas não fazem penetração" não diminui em nada a homossexualidade dos envolvidos. Aliás, como que até hoje é difícil para alguns se assumirem, hein? Quando eu era adolescente, conhecia caras que comiam os viadinhos do colégio e nem por isto se achavam gays. Mais tarde, tive um amigo que se gabava de ser "ativo radical" e de nunca ter tocado num único pinto, apesar de só transar com homens (hoje em dia parece que ele aliviou as regras). Fui olhar a fanpage dos g0ys no Face e, apesar de não ter reconhecido ninguém, achei que todos levam jeito. Até aí zuzo bem: cada um tem o direito de gostar do que gosta, e de procurar outras pessoas que compartilhem do mesmo gosto. Mas repito que o fato desses rapazes criarem um nominho ishperto para si próprios - e até mesmo uma bandeira, que mais parece a de uma republiqueta do Caribe - me soa tão falso quanto aquele jornalista da Dinamarca.

IT'S THE FREAKIEST SHOW

Marquei uma bobeira épica e perdi a exposição do Kubrick, que ficou meses em cartaz em SP. Quase marquei de novo com a do David Bowie, que está na reta final. Ontem corri para o MIS e enfrentei uma ligeira fila, mas nada de grave. Pior foram as legendas dos itens expostos: impressas em letras brancas e miudinhas sobre fundo preto (como as desse blog...),  mal iluminadas e mal posicionadas. Tampouco há ordem cronológica, e quem não souber detalhes da vida de Bowie vai sair embananado. Mas nada disso importa diante do esplendor dos figurinos de todas as fases, ou dos cadernos rabiscados com versões primitivas das letras, ou as artes finais das capas dos discos clássicos. Bowie emerge como o artista pop mais influente depois dos Beatles, e de fato é difícil apontar alguém legal que não "descenda" dele de certa forma. Também fica claríssima a caretice dos dias que correm, em contraste total com o desbunde dos anos 70. Nada disso teria valor se a música de Bowie também não fosse excepcional, mas os fones de ouvidos distribuídos na entrada nos lembram o tempo todo da grandeza de "Heroes" ou "Space Oddity". E eu ainda me emocionei com o clipe da belíssima "Life on Mars?", um pioneiro do gênero e moderno até hoje. Quem ainda não viu tem só até domingo. Coragem.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

VALOR DE FACE


Volta e meia compro discos só por causa da capa. Óbvio que já errei rude muitas vezes, mas também costumo acertar na mosca. Foi o que aconteceu com Stromae. Adquiri o álbum "Racine Carrée" na iTunes Store pensando que se tratava de uma cantora branca. Nananina: é um mulato belga, filho de mãe flamenga com pai ruandês. E a música do rapaz até lembra a porcariada que toca em rádios europeias como a NRJ, mas é bem mais elaborada. Seu nome quer dizer "maestro" em verlan, a antiga gíria francófona que inverte as sílabas das palavras. E seus vídeos são os mais criativos que vi este ano até agora. Para entender "Papaoutai" (corruptela de "papa ou tu est", papai onde você está?) é preciso saber que o pai de Stromae voltou para a África quando o cantor era pequeno, e foi morto durante o genocídio em Ruanda. Esse momento melancólico é contrabalançado por outros de plena euforia, como "Ta Fête" - o hino da seleção da Bélgica para a Copa. "Racine Carrée" (ou, para os íntimos, "√") pode ser escutado na íntegra aqui. E a capa é linda, né, gente?

A KISS IS NOT JUST A KISS

Há cerca de um mês dei uma entrevista para Bruce Curb, um jornalista ida BBC baseado no Rio. Ele queria saber a minha douta opinião sobre o beijo gay de "Amor à Vida", e o que isto implicava para a guerra cultural que se trava no Brasil. Pena que, por questão de tempo, ele cortou a parte em que eu digo que, como nos EUA, os evangélicos não vão ultrapassar os 25% da população nem conseguir impor sua agenda retrógrada aos demais. A matéria pode ser ouvida aí acima. Dois alertas: 1) é toda em inglês. 2) Silas Malafaia aparece no final.

terça-feira, 15 de abril de 2014

PAÍS CIVILIZADO É OUTRA COISA

A Finlândia vai lançar uma série de selos homenageando um de seus filhos mais ilustres, o desenhista homoerótico Tom of Finland. Já tem gente querendo lamber.

CHEQUE COM FUNDOS

Até que demorou para surgir uma versão arreganhadamente gay do "Porta dos Fundos". Mas voilà: saiu hoje o primeiríssimo vídeo do Põe na Roda, capitaneado por Pedro HMC, meu colega no F5. Eles prometem um esquete novo toda terça, e making of às sextas. Em breve terão camisetas, chaveiros, preservativos...

SOMBRAS NA PASSARELA

Pierre Bergé não só aprovou o roteiro de "Yves Saint-Laurent" como permitiu que o apartamento do casal em Paris e a casa em Marrakech servissem de locações. Por isto mesmo, é surpreendente o tom sombrio do filme: muitas indiscrições são reveladas, como as puladas de cerca, o consumo de drogas e a instabilidade emocional do protagonista. Talvez porque o objetivo derradeiro seja mesmo pintar Bergé como um herói, que permitiu que Saint-Laurent desse vazão a todo seu gênio e ainda o salvou de si mesmo inúmeras vezes. Claro que não falta glamour na tela: desfiles, festas, loucurinhas, está quase tudo lá (faltou Catherine Deneuve, uma das musas do estilista). É irresistível saber que Saint-Laurent roubou um namorado de Karl Lagerfeld nos anos 70, e interessante ver como a moda evoluiu em poucas décadas de um circuitinho fechado para um negócio global de bilhões de dólares. Este é só o primeiro filme do ano sobre o mais importante costureiro da segunda metade do século 20: um outro, chamado apenas "Saint-Laurent", estreia na França em outubro, sem o aval de Pierre Bergé. O que vem por aí? Uma visão ainda mais pessimista da vida de Yves?

segunda-feira, 14 de abril de 2014

PT-ROBRÁS

Empresas que fornecem serviços públicos devem ser privadas ou estatais? O debate não tem fim, e há argumentos fortíssimos para ambos os lados. Muita gente reclama das operadoras de telefonia, mas antes delas a vida era muito pior - linhas telefônicas eram consideradas artigos de luxo, e valiam mais do que alguns imóveis. Por outro lado, o Brasil deve ser um dos poucos países do mundo onde os transportes públicos podem ser explorados por companhias particulares, e o resultado está aí: nossos ônibus são caros e ineficientes. A coisa se complica ainda mais quando se trata das riquezas do subsolo. Nosso primeiro instinto é achar que o está debaixo da terra pertence à toda a nação. Mas é inegável que a Vale deu um salto de produtividade depois que foi privatizada. Fora que ficou fora do alcance dos interesses políticos, o que está afundando a Petrobrás. Está cada vez mais óbvio que a petrolífera brasileira está sendo usada há mais de uma década para gerar recursos para o PT, sofrendo com o aparelhamento e perdendo boa parte do investimento de seus acionistas. Lula foi reeleito em 2006 em parte porque espalhou que os tucanos queriam privatizar a Petrobrás. Não era verdade, mas começo a achar que não seria má ideia.

MEU PROBLEMA COM A ROMÊNIA

Não sou de confiança. Já declarei em alto e bom som que o cienma da Romênia não me pegava mais. Mas basta um filme daquele país ganhar uma porrada de prêmios para eu romper meu voto - e depois me arrepender, claro. "Instinto Maternal" venceu o festival de Berlim do ano passado, foi o indicado de seu país ao Oscar de filme estrangeiro e vem ganhando elogios por onde quer que passe. O argumento até que é original: uma senhora da alta sociedade faz de tudo para livrar a cara do filho playboy, que atropelou e matou um garoto quando dirigia em altíssima velocidade. Mas a câmera tremida, os planos longuíssimos e a ausência total de trilha sonora me afastam da história. Sim, o problema está em mim, mas fazer o quê? Ninguém pode dizer que eu não esteja tentando superá-lo.

domingo, 13 de abril de 2014

AMAZING GRACE

Boa parte da humanidade (eu inclusive) nunca tinha ouvido falar de Grace Coddington até ver o documentário "The September Issue". O filme foi encomendado por Anna Wintour para mostrar que ela não é tão mostruosa como sugere "O Diabo Veste Prada", mas quem acabou roubando a cena foi Grace, seu braço direito na "Vogue". Uma editora de moda em atividade há mais de 40 anos, que já viu de tudo, trabalhou com todo mundo e ainda quer mais. Grace é tão cheia de graça que se tornou uma mini-celebridade, a ponto de haver demanda para um livro com suas memórias. Comprei há mais de um ano e estou terminando agora: é na verdade uma visão por dentro do mundo fashion desde o final da década de 60, contada de maneira despretensiosa (a autora admite que não leu mais que dois livros na vida) e fartamente ilustrada por desenhos dela mesma. Longe de ser uma leitura eletrizante, "Grace: a Memoir" funciona como um longo e divertido bate-papo, com algumas fofocas deliciosas e momentos de reflexão profunda. O que emerge no final é uma mulher vivida e resolvida, ainda fascinante aos 73 anos. Moral da história: ninguém envelhece se continua interessado no mundo ao seu redor.

sábado, 12 de abril de 2014

BRRR


Há até bem pouco tempo, eu assistia a todos os desenhos animados importantes de longa metragem. Não vejo mais porque meus sobrinhos cresceram, e sem uma criança junto não tenho muitas razões para enfrentar "Carros 2" ou "Meu Malvado Favorito". Foi por isto que perdi "Frozen" nos cinemas. Aí o filme se tornou a animação de maior bilheteria de todos os tempos (em valores absolutos - se levarmos em conta a inflação, "Branca de Neve" ainda ganha) e ganhou vários Oscars, inclusive o de melhor canção. "Let It Go" tornou-se um sucesso tão grande que a Disney se animou a lançar o clipe acima, uma compilação de 25 versões internacionais diferentes do baladão de "Adele Dazim" (pena que o Brasil não esteja representado...). Hoje finalmente nos atualizamos graças a um esplendoroso Blu-Ray. "Frozen"é, antes de mais nada, um triunfo do marketing. O título original do conto de Andersen, "A Rainha das Neves", foi alterado para não espantar os meninos (a mesma estratégia que transformou "Rapunzel" em "Enrolados"), e os adoráveis trolls parecem milimetricamente calibrados para vender muitos bonequinhos nos parques da Disney. Mas duas irmãs como protagonistas, sem nenhum vilão no começo, não deixa de ser uma inovação - e pena que um malvado convencional precise aparecer antes do desfecho. A trilha em estilo Broadway empolga menos do que deveria, mas a experiência sensorial é plenamente realizada peloo visual alucinante. Apesar do dinheirão que fez, "Frozen" não é um clássico instantâneo, nem chega aos pés dos primeiros filmes da Pixar. Mas mostra que a Disney ainda tem a fórmula mágica para misturar comérico e arte nas proporções adequadas.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

CEGOS DE AMOR

Fui bobo o suficiente para perguntar a um gay cego como foi que ele havia descoberto que gostava de homem. Se o cara fosse hétero, uma pergunta tão estúpida não teria me ocorrido. A visão é o mais tirânico dos sentidos, e às vezes tratamos quem não a tem como se fossem deficientes mentais. É o que fazem os pais de Leonardo, o protagonista cego de “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”. Mesmo assim não conseguem protegê-lo do bullying na escola – e nem evitar que ele se apaixone por Gabriel, um novo colega de classe. O longa de estreia de Daniel Ribeiro é uma extensão de seu premiadíssimo curta “Não Quero Voltar Sozinho”, com o mesmo elenco e argumento. Por vezes parece que a história foi esticada mais do que deveria; isto não evita a sensação de que o final é prematuro, já que novos conflitos surgiriam depois dele. Ficaram para a continuação? Nada contra: passo feliz mais duas horas na companhia desses garotos, todos excelentes – especialmente Ghilherme Lobo, que não é cego na vida real. “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho” resvala um pouco no excesso de fofura, mas o primeiro amor é sempre fofo.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

MI ANHELO NO ESTÁ

Depois de quatro anos sem lançar um disco completo de inéditas, o uruguaio Jorge Drexler reaparece com o trabalho mais animado de sua carreira. "Bailar en la Cueva" foi gravado em Bogotá e traz uma mistura de ritmos inesperada. Também traz convidados como Caetano Veloso (cantando num espanhol tão perfeito que eu quase não o reconheci) ou a rapper chilena Ana Tijoux, que dá pinta em "Universos Paralelos". Quase não há os momentos introspectivos que fizeram a fama do menestrel cisplatino, e isto é ótimo. Drexler nunca foi chato, mas corria o risco de se repetir. Saiu da zona de conforto, e o resultado é seu melhor CD em uma década. Que dá mesmo anhelo (ânsia) de dançar, apesar dele ser o pior dançarino do mundo.

MA MÈRE EST UNE PIÈCE

É incrível a semelhança entre "Minha Mãe É uma Peça" e o filme francês "Eu, Mamãe e os Meninos". Os dois projetos nasceram de monólogos teatrais, onde o autor e ator interpreta a própria mãe em chave cômica. Ambos foram adaptados com sucesso para o cinema: o filme de Paulo Gustavo foi a maior bilheteria nacional do ano passado, e o de Guillaume Gallienne ganhou uma pá de prêmios na última edição dos Césars (inclusive melhor filme e ator). É uma das maiores atrações do Festival Varilux, que começou esta semana em várias cidades brasileiras, e deve entrar logo em cartaz. O título original é quase cruel: "Meninos, Guillaume, está na mesa", como se o protagonista não fosse um dos meninos. A edição rápida e a atuação engraçadíssima de Gallienne compensam a leve barriga que se acumula mais para o final. Que, aliás, é surpreendente. À primeira vista parece caretérrimo, mas o fato é que é profundamente liberador. E é todinho verdadeiro: o que se vê na tela aconteceu mesmo na vida real de Gallienne. Não sei se o filme entra para a minha lista de melhores do ano, mas gostei bastante.