quarta-feira, 1 de outubro de 2014

CONCORDÂNCIAS VERBAIS

A linguagem é uma arma poderosa. Uma simples palavrinha pode mudar todo o  sentido de uma discussão. Porque ela é bem mais do que uma etiqueta: cada palavra traz toda uma bagagem própria, repleta de outros significados. Foi por causa desse poder que surgiu a onda do politicamente correto, 20 anos atrás: de fato, dizer “pessoa portadora de deficiência física” é muito diferente do que chamá-la de “aleijada”. Mas as palavras também servem para mascarar as piores intenções. A toda hora, estão tentando ressignificá-las. É o caso dos homofóbicos, que querem restringir a homofobia apenas à violência física contra os homossexuais. Por isto, como eles não saem por aí batendo em bichas, não poderiam ser enquadrados como homofóbicos. Líderes fundamentalistas também passaram agora a se chamar de “cristãos”, para que as críticas contra eles atinjam também católicos, ortodoxos e protestantes em geral. Outro termo que entrou na moda é “concordar”: não é que fulano tenha ódio aos gays, ele apenas “não concorda com o homossexualismo”. O que quer dizer isto? A atração pelo mesmo sexo não é escolha: é algo que aflora à revelia do indivíduo. Faz sentido alguém dizer que “não concorda” com os cabelos louros ou os narizes aduncos? As escolhas que existem são duas: exercer ou não esta sexualidade, e declará-la ao resto do mundo. Muitos católicos acreditam que os gays devem permanecer castos, superando dessa maneira o “desafio” que lhes foi imposto por Deus (como se Deus fosse o Boninho inventando provas para o “BBB”, como eu já disse muitas vezes). Outros mais “liberais” não ligam para o que se faça entre quatro paredes, contanto que ninguém mais fique sabendo. Mas cada vez mais gente está optando por não só seguir sua verdadeira natureza como também sair do armário. Aí, novamente, não cabe o verbo “concordar”. Você “concorda” que alguém se torne evangélico? Tudo isto faz parte do esforço dos tacanhos de renomearem seus preconceitos como “opiniões”. Portanto, queridos leitores, cuidado com esta armadilha. Não vamos sair por aí dizendo que essa laia tem pelo menos o direito de “discordar” da homossexualidade (não -ismo, claro). Assim estaremos fazendo o jogo deles.

SE EU TIVER FILHOS GAYS

Quando até o pastor Everaldo se apressa a condenar o Levy Fidelix, é porque alguma coisa está mesmo mudando. Claro que o candidato do PSC não discorda muito das ideias do sr. Aparelho Excretor, só do método. Mas está ficando claro que os momofóbicos espumantes estão se tornando uma minoria, e pouca gente quer ser vista como um deles. Mais interessante ainda é a lenta aproximação que algumas denominações evangélicas vêm fazendo com a causa LGBT, a exemplo do que o papa Francisco vem promovendo na Ingreja Católica. Acho que é um pouco por medo de perder o rebanho mais jovem, mas também acho que existe compaixão. Como é o caso do pastor americano John Pavlovitz, que postou mês passado em seu blog um texto que já viralizou. Nele, com calma e sabedoria, o religioso explica quatro pontos que seguiria se algum de seus filhos se revelar gay. Está tudo aqui, em inglês; só vou traduzir os itens principais:

1) Se eu tiver filhos gays, todo mundo vai saber.

2) Se eu tiver filhos gays, irei rezar por eles.

3)Se eu tiver filhos gays, irei amá-los.

4) Se eu tiver filhos gays, isto quer dizer que eu tenho filhos gays.


Pavlovitz estava esperando reações equivalentes de amor e ódio, mas as primeiras foram muito mais numerosas. O que significa que há um contingente enorme de evangélicos que sofrem com a homofobia de suas igrejas, e não estou falando apenas dos gays. Também suas famílias, seus amigos e todas as pessoas que se importam com eles. É com este tipo de apio que venceremos.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

SÍNDROME DE ROMAGAGA

Nossa jovem democracia ainda tem muito o que aprender. Não convivemos bem com opiniões divergentes e exageramos na reação quando alguém nos ofende. Vejamos o caso do coquetel molotov atirado na casa da torcedora do Grêmio que xingou o goleiro Aranha de macaco. Claro que ela errou, mas por isto merece que sua casa exploda em chamas? Algo parecido está ocorrendo agora com o Levy Fidelix. Acho ótimo que haja revolta na internet, manifestação na Paulista e até mesmo que a OAB peça a cassação de sua candidatura (que já estaria pulverizada se ele tivesse feito uma declaração racista). Mas pedir para a Globo desconvidar o sr. Aparelho Excretor do debate desta quinta é inútil - a lei obriga que todos os candidatos de partidos com representação no Congresso participem. E o tal do "trepaço" na frente da casa dele me parece um pouco demais. Daí para a agressão física é um pulo, e pode até sobrar para a família do cara. Já pensou, que prato cheio para os nossos inimigos? Precisamos acabar com essa mania de conseguir as coisas por intimidação, como a Romagaga tentou fazer com a Gabi. Não é por estarmos do lado certo de uma questão que podemos fazer o que quisermos com quem está do outro lado. Levy Fidelix é um escroto, um aproveitador e um cocô em forma de gente, mas é no confronto de ideias que iremos dar a descarga nele.

PEQUENAS IMPERFEIÇÕES


A personagem de Isabelle Huppert em "Um Amor em Paris" é uma mulher que está em ótima forma para sua idade. Só tem um probleminha: um eczema na altura do peito, provavelmente causado por alguma alergia. Assim como seu corpo, seu casamento tampouco é perfeito. Nada muito grave, apesar dos muitos anos de estrada. Só a vontade louca de conhecer coisas novas, mas o marido pecuarista não tem o menor saco de sair da rotina. Este filminho despretensioso saiu melhor que a encomenda, com muitos momentos engraçados e outros realmente tocantes. A protagonista, fazendeira no interior da França, se manda para a capital em busca de uma aventura e acaba vivendo outra. Mas será o suficiente para abalar seu relacionamento de décadas? O final tem drama e profundidade, e uma cena muda de Isabelle que a faz digna de um Oscar. O título turístico e o trailer engraçadinho despistam sobre as reais intenções de "Um Amor em Paris". É uma comédia madura, mas não amarga.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

SEND IN THE CLOWNS

De todas as merdas excretadas pelo Levy Fidelix no debate de ontem, nenhuma me chocou mais do que "somos maioria, vamos combater essa minoria". Esse raciocínio doente (também seguido pelo Bolsonaro e quetais) revela uma compreensão primitiva do que é democracia. Não, seus idiotas, o sistema democrático não é a ditadura da maioria. Caso contrário, nada nos impediria de escravizar os índios, por exemplo. A democracia também inclui o respeito aos direitos das minorias, sejam elas numéricas ou não. Agora, se somarmos aos LGBT seus parentes e amigos que os apoiam, estaremos longe de ser minoria. 

Vejam só o exemplo translumbrante do Tiririca, logo quem, que provocou uma tempestade nas internets hoje à tarde por causa de uma série de tuítes onde arrasa não só com o Mr. Spacely brasileiro como também com os que criticam seu pouco estudo. Sim, eu fui um adversário ferrenho da candidatura do Tiririca em 2010: sua votação recorde garantiu que alguns sacripantas com pouco voto também fossem para a Câmara. Mas o palhaço está terminando seu primeiro mandato sem ter faltado a uma única sessão do plenário, acho que um caso único na história de Brasília. E, se não subiu nenhuma vez à tribuna, pelo menos não se envolveu em nenhum escândalo nem deu declarações questionáveis. Tiririca está se posicionando porque é atingido de perto pelo aparelho excretor de Fidelix. Ele tem um filho gay, como revelou ao programa "CQC" três anos atrás. Agora precisa passar das palavras à ação e fazer alguma coisa pelos direitos igualitários em seu segundo mandato. Aliás, Dilma também precisa. De que adianta o Brasil ajudar a aprovar resolução na ONU - que nenhum país é obrigado a seguir - se a presidenta não fez absolutamente nada de concreto pelos LGBT no Brasil?

EXCRETANDO PELA BOCA

Deu certo. Levy Fidelix está hoje nas manchetes de todos os portais e causando bafafá nas redes sociais. Sua frase "aparelho excretor não reproduz" não só já entrou para o folclore desta campanha como também provou que o dito do candidato localiza-se em seu rosto, logo abaixo do bigode. Como falou merda! E ainda traiu o medo latente de toda essa canalha homofóbica, que é a do mundo inteiro virar gay - a começar por eles mesmos, que pelo jeito só não soltam a franga porque não existem leis específicas. Como bem disse o Sakamoto, é uma vergonha que nenhum candidato tenha se indignado e exigido direito de resposta (lembrando que Dilma o exigia cada vez que a palavra "governo" era dita). Também está claríssimo que é necessária uma reforma política para anteontem, para que partidelhos como o PRTB não ocupem tempo precioso nos debates nem consigam palanque de graça para divulgar barbaridades. O sr. Barriga brasileiro não vai decolar nas pesquisas, mas angariou admiradores entre a escória da sociedade, que agora o defende por "dizer o que pensa". Tolinhos, isto É homofobia, e da pior espécie: a que incita a violência física contra os homossexuais. Depois, quando morrer o próximo, não adianta vir dizendo que você têm amigos gays. Porque vocês não têm.

domingo, 28 de setembro de 2014

A COREIA DO NORTE QUE DEU CERTO

Sou obrigado por contrato a ver todos os filmes de Meryl Streep. Por isto tive que enfrentar "O Doador de Memórias", pelo qual, em condições normais, eu passaria do outro lado da rua. É mais uma ficção científica voltada para um público adolescente que se passa num futuro distante, onde os jovens são obrigados a enfrentar algo terrível sobre o qual não têm controle - ou seja, mais uma metáfora mal disfarçada do medo que a garotada atual tem de virar adulto. Diga-se a favor de "O Doador..." que ele é baseado num livro dos anos 90, portanto anterior à onda apocalíptica teen (apocalipteen?) desencadeada pela série "Jogos Vorazes". Mas há inúmeras selmelhanças: depois de uma catástrofe em escala planetária, os remanescentes da raça humana se organizam numa sociedade totalitária, onde cada um tem um papel definido por comitê e a felicidade é enfiada goela abaixo do indivíduo. Ou seja, o mundo agora é uma espécie de Coreia do Norte que deu super certo. Em "O Doador..." existem até os alto-falantes que dizem as horas de acordar e dormir, como no regime de Kim Jong-un. Mas o nível de conforto é absoluto: ninguém passa fome, não há conflitos e a mentira está proibida. Só que há há um preço... E aí, mais uma vez, um jovem intrépido vai se voltar contra o sistema, num desenlace óbvio e tranquilizador. Meryl nunca esteve tão feia, com cabelos compridíssimos que a deixam com cara de maluca moradora de rua (mas acho que era essa a intenção). Sem grandes efeitos especiais nem interpretações marcantes, "O Doador de Memórias" pelo menos lança uma questão interessante: de quanto estamos dispostos a abrir mão para vivermos relativamente bem?

sábado, 27 de setembro de 2014

MIS ANTIPATIA

As redes sociais servem para dar vazão a um dos mais torpes sentimentos humanos: o ódio por quem tem mais do que a gente, hoje mais conhecido por recalque. Vai além da mera inveja: queremos que essa gente se foda. É a tal da Síndrome do Alá o Rico Idiota, uma maneira certeira de conseguir likes e cliques. E os ricos nem precisam falar bobagem para serem vítimas do escárnio generalizado. Vejamos o que acontece nas redondezas do Museu da Imagem e do Som em São Paulo. André Sturm, o atual diretor, tirou o MIS do marasmo em que permaneceu por mais de dez anos, promovendo incríveis exposições sobre Stanley Kubrick e David Bowie e franqueando os jardins para a festa mensal Green Party, ponto de encontro das bichas esclarecidas. Sucesso absoluto, com filas dobrando várias esquinas. Acontece que o MIS está encravado no Jardim Europa, o bairro com o IPTU mais caro de SP. E alguns vizinhos do museu tiveram a ideia de fazer um abaixo-assinado, pedindo mais organização nas filas (para a mostra do Castelo Rá-Tim-Bum ela começa a se formar às sete da manhã, muito antes dos portões se abrirem) e menos tumulto nos arredores. Para quê, não é mesmo? Já foi convocado mais um Churrascão da Gente Diferenciada na esquina das ruas Bucareste e Luxemburgo para a tarde de hoje, em repúdio aos moradores que só querem tranquilidade. Claro que irá muito menos gente do que os 8 mil que já confirmaram presença pelo Facebook, mas este não é o meu ponto. Ninguém está pedindo para o MIS sair dali nem nada, só um pouco de silêncio, mas nossa cultura atual não permite esse tipo de reclamação. "Que se fodam, eeeeeee".

MAS VOCÊ NÃO TEM UM LOOK

Só o sobrenome já impõe respeito: Callas. Calem-se! Uma voz maior se levanta. A maior cantora lírica do século 20 - e provavelmente de todos os tempos, mas não há registros gravados das mais antigas - é uma fonte inesgotável de inspiração para outros artistas. Sua vida atormentada já rendeu dezenas de filmes e peças, nenhuma delas definitiva. Uma das melhores foi "Master Class", que recriava uma série de aulas magnas que Maria Callas deu na Juilliard School de Nova York . Montado no Brasil em 1996 com Marília Pera no papel principal e cantores de verdade fazendo os alunos, o espetáculo ainda tinha uma fala que me marcou para sempre. Em dado momento, a professora avalia o visual de uma jovem soprano: "Até que você é bonitinha. Mas você não tem um look". Dezoito anos depois, Marília se reencontra com a personagem. Seu ex-camareiro Fernando Duarte, hoje um autor de sucesso, escreveu para ela a peça "Callas", onde a própria dá uma entrevista a um jornalista amigo um dia antes de morrer. Como achou que não tem mais idade para o papel, preferiu assumir a direção e chamou atrizes mais jovens para a empreitada: Sílvia Pfeiffer no Rio e Claudia Ohana em SP. Assisti à montagem paulistana, e gostei muito. Muitas passagens da vida da cantora são projetadas em biombos do cenário que representa seu apartamento em Paris, dando mesmo a sensação do pretendido "documentário ao vivo". O texto é curto mas consegue passar a dimensão da tragédia de Callas, que se deixou morrer aos 53 anos por se ver sem perspectivas no amor e na carreira. E os atores vão melhorando no decorrer da peça. Mas há um senão: apesar do esforço, falta em Claudia Ohana aquele algo mais. Ela é bonita, competente e até canta, mas não é uma diva. Ou seja - não tem um look.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

TÁ ME GOZANDO

Ainda não tenho certeza se esta história é pegadinha. Parece ainda mais absurda que a da mulher com três peitos, mas repercutiu até no site da rede americana CBS. Trata-se de um sujeito que deslocou um disco na coluna e agora sofre de uma síndrome raríssima, que o faz ter mais de 100 orgasmos por dia. O cara acorda, vai tomar café, créu. Anda até a porta da casa, créu. Entra no carro, créu créu créu. Claro que depois da terceira ou quarta vez deve ser tudo a seco, então não deve haver a necessidade de usar fraldas descartáveis. Mas o desconforto e o constrangimento são tão grandes que o coitado precisou parar de trabalhar. Está certo que ele também não precisava cair no chão de quatro toda vez, e o fato dele se sentir "sujo" demonstra que ele poderia ser mais bem resolvido com relação ao sexo. Mas tudo soa tão bizarro que eu não duvido que seja... gozação.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

O BENEDETTO E A GERMANOTTA

Pela menos uma vez na vida, Ladya Gaga fez alguma coisa que ninguém poderá acusá-la de Madonna ter feito primeiro. Madge até já cometeu um disco com sabor retrô, em 1990: "I'm Breathless", "inspirado" em seu personagem na trilha do filme "Dick Tracy" sem ser exatamente uma trilha sonora. Mas ela nunca se aventurou no arriscadíssimo terreno dos standards americanos, simplesmente porque sua voz não dá para o gasto. Já Lady Gaga, debaixo daqueles vestidos de lagosta e carne crua, tem um vozeirão, além de um talento musical bem superior ao de sua mentora e rival. A moça já tinha dado uma palhinha no álbum "Duets II" de Tony Bennett três anos atrás, onde os dois estraçalharam (no bom sentido) com uma versão esfuziante de "The Lady is a Tramp". Aquela faixa está incluída como bônus em "Cheek to Cheek", o CD completo que a dupla acaba de lançar. Apesar dos 60 anos que os separam (sim, Tony está com 88 e Gaga com 28), eles têm muito em comum - mais até do que ele tem com k. d. lang, com quem gravou um disco inteirinho de duetos em 2002. A começar pela ascendência italiana, visível em seus sobrenomes originais, e continuando pela paixão com que os dois se entregam a um repertório manjadíssimo. Esta é minha única pinimba com "Cheek to Cheek": ao invés das mesmas e óbvias canções que costumam infestar as compilações do gênero, o Benedetto e a Germanotta podiam ter se arriscado mais. Talvez alguma pérola obscura de Cole Porter, ou quem sabe um cover contemporâneo com arranjos de jazz? Mas no trivial variado eles se saem muito bem, e Gaga esbarra em Ella ao cantar sozinha "Lush Life", uma das músicas mais difíceis de todos os tempos. Madonna deve estar se sentindo lacrada.

COISA RUIM NÃO MORRE

Ainda mais chocante do que Paulo maluf ser um dos favoritos para deputado federal em São Paulo é o ministro Gilmar Mendes criticar a composição do TSE. Por quatro votos a três, o tribunal considerou que Maluf se enquadrava na Lei da Ficha Limpa. Entre os que votaram a favor de sua candidatura estavam Mendes e Dias Toffoli - que também são colegas no Supremo, mas garvitam em pólos opostos do espectro político. O que levou os dois magistrados a se aferrar a tecnicalidades e a não defenestrar de uma vez um dos ladrões mais notórios do Brasil? Impedido de concorrer, Maluf também perderia seu poder no PP, e seu grupo político ficaria acéfalo por um bom tempo. Não tenho nenhum saber jurídico, mas nessas horas perco mais um pouquinho do restinho de fé que me resta no Brasil. Se um país não consegue cassar os corruptos nem quando existem leis específicas para isto, é porque o buraco é tão mais embaixo, mas tããão mais embaixo, que atravessa o magma e chega nas antípodas.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

SAI DE MIM, ENCOSTO

Hoje é um dia especial para mim. Estreia logo mais no canal Viva, às 21 horas, "Meu Amigo Encosto" - uma das duas séries das quais eu participei do "writer's room" no ano passado (a outra, "Condomínio Jacqueline", ainda nem começou a ser gravada, mas já está acertada com a TV Cultura). Estou muito curioso. Visitei o set de filmagem, mas não participei do processo de produção. Também não vi nenhum episódio pronto, só os making of que estão disponíveis no site do Viva.
"Meu Amigo Encosto" é a primeira série a chegar ao ar entre as 12 selecionadas pelo 1o. Projeto Globosat de Desenvolvimento de Roteiristas. Uma dessas 12, "O Filho do Meio", é minha, mas não entrou em produção. Foi durante o seminário com Marta Kauffman, ano passado, que eu conheci o Thiago Luciano, o criador do "Encosto", que depois me convidou para fazer parte do writer's room. Junto com ele, Fausto Noro e Helena Perim, tive uma das experiências mais ricas e divertidas da minha vida, criando situações para o coitado do Ivan e seu encosto Janjão. O resultado, verei (veremos) hoje à noite. Cara, como eu estou ansioso!

DIPLOMACIA SEM CABEÇA

A política externa brasileira não surpreende mais: está sempre do lado errado, não importa qual seja a questão. Consegue até manifestar apoio aos terroristas do ISIS, só porque eles estão sendo atacados por uma coligação liderada pelos Estados Unidos. É uma atitude infantil, digna de diretório de centro acadêmico: "seremos contra qualquer coisa que os EUA façam". Mesmo que esta coisa seja o combate à organização mais violenta e perigosa do mundo atual. O ISIS, ou Estado Islâmico, é pior que a Alemanha nazista. Persegue os não-muçulmanos, os muçulmanos xiitas, as mulheres, os gays e até mesmo os sunitas que não fazem a mesma interpetação radical e equivocada do Alcorão que eles fazem. E está tentando conquistar o maior território possível: o objetivo de um califado, que é como o grupo se proclama, é reunir toda a ummah, a comunidade muçulmana, sob uma única liderança. Querem até retomar a península Ibérica, veja só. Claro que não vão conseguir, mas antes disso podem fazer um estrago mais do que considerável. Com uma base territorial entre a Síria e o Iraque, terão a capacidade de organizar atentados como o Taliban e a al-Qaeda tinham quando dominavam o Afeganistão. Precisam ser eliminados já, agora, ontem. Mas o Itamaraty, comandado não tanto na surdina pela besta-fera do Marco Antono Garcia, acha que é "pelo diálogo" que se dobra essa turma. Diálogo com quem? Com o "califa" al-Baghdadi? Parece que nossos diplomatas já foram decapitados.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

SER GAY NO ES MODA

La Polar é uma cadeia de lojas de moda jovem do Chile que tentou parecer ser mais moderna do que de fato é. Há cerca de um mês, a marca veiculou na TV o comercial acima, onde casais do mesmo sexo aparecem se beijando. Óbvio que teve babaca reclamando, e então a La Polar agiu feito Marina Silva: deu para trás. Reeditou o comercial e eliminou os beijos. Para quê, não é mesmo? Em poucos dias surgiu uma paródia na internet que teve muito mais visualizações do que o filme original. O mais legal é que essa sátira é protagonizada por uma atriz de novelas bem conhecida por lá, Claudia Jara, que não teve o pudor de dizer o nome do anunciante com todas as letras e perder futuros contratos. O hashtag #SerGayNoEsModa viralizou e agora a La Polar corre atrás do prejuízo. Bem feito: como dizem lá no Chile, eso es de la raya, huevón. De la putissima madre.

PONHA A MÃO NA CONSCIÊNCIA

E aí, já escolheu seus candidatos para deputado estadual, deputado federal e senador? Dessa vez não temos desculpa: de norte a sul do Brasil, o que não falta são candidatos GLS. Usei esta sigla fora de moda porque a atual LGBT não inclui um pessoal importantíssimo para a causa dos direitos igualitários: os S, nossos queridos simpatizantes, os héteros de cabeça e coração abertos. Sem eles não há avanço possível, porque, por mais que agreguemos outras letras, seremos sempre minoria. Mas a triste verdade é que não basta ser GLS. Também tem que estar num partido decente e, ainda mais importante, numa coligação idem. É impressionante como nós brasileiros ignoramos nosso próprio sistema eleitoral, que permite que candidatos inexpressivos sejam alçados ao Congresso só porque estavam numa coligação que recebeu muitos votos. Tem nego que vota no Tiririca achando que está zoando ou fazendo voto de protesto, quando na verdade está ajudando a eleger figuras sinistras na coligação do palhaço. Todos os partidos de médios para baixo usam puxadores de votos: é a maneira que eles têm de engrossar suas bancadas. Por isto, antes de escolher seu candidato, verifique quais outros partidos estão na coligação da qual ele participa. Não adianta se o fulano for um modernex do PV se o famigerado PSC, do Feliciano, também estiver na coligação. E este de tipo de união estapafúrdia é o que não falta Brasil afora. Se você tiver tempo, saco e consciência, leia com cuidado a Cartilha LGBT para as Eleições. Ela foi criada para o pleito de 2012 e alguns detalhes estão desatualizados, mas a visão geral dos partidos continua válida (só não inclui os recém-criados, como o PROS). Depois de 5 de outubro, não adianta reclamar.

AS IT BEGAN


Tornei-me um súdito do Queen em 1974, quando um amigo me emprestou "Queen II" - talvez o meu disco favorito de todos os tempos. Permaneço fiel à banda até hoje, mas ainda acho que a excelência dos primeiros álbuns jamais foi ultrapassada. Imagina minha trepidação quando soube que dois shows bem antigos seriam lançados pela primeira vez em CD e DVD. "Live at the Raibow '74" foi gravado no mesmo lugar e no mesmo ano, mas em datas diferentes. O primeiro disco, registrado em março de 1974, é a última apresentação da turnê de "Queen II". O segundo, de novembro, já traz muitas canções do terceiro álbum, "Sheer Heart Attack". Isto quer dizer que muitos clássicos de Freddie Mercury e cia. finalmente ganham versões oficiais ao vivo, como "Liar" ou "Father to Son" - eles foram cortados do repertório dos shows que a banda fazia no final da carreira. Além da qualidade técnica excepcional (foi tudo remasterizado), "Live at the Rainbow '74" mostra que, mesmo em seus primórdios, o Queen já estava maduro. E, apesar das músicas pesadas tanto nas letras como na sonoridade, Freddie faz piadas com a plateia como o entertainer completo que sempre foi. Aliás, esta é a encarnação dele de que eu mais gosto: cabelos compridos, cara limpa, figurinos majestosos da estilista Zandra Rhodes. E as unhas da mão esquerda pintadas de preto...

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

SANTINHOS DO PLÁSTICO OCO

Muitos anos atrás, eu tive a ideia de fotografar passagens da Bíblia usando bonecos da Barbie e da Ken. Por exemplo, o Anjo Gabriel anunciando à Virgem Maria sua iminente gravidez... Mas jamais pus mãos à obra. Bem feito: hoje eu poderia estar causando o mesmo rebuliço que os artistas argentinos Pool&Marianela, que abrem mês que vem em Buenos Aires uma mostra chamada "The Plastic Religion". Eles já divulgaram algumas imagens na internet: tem a Barbie vestida como várias iterações de Nossa Senhora (inclusive uma negra, representando a Aparecida) e o Ken como Jesus crucificado e muitos outros santos. Mas a blasfêmia não se resume ao catolicismo. Também sobrou para Buda, Iemanjá, Baphomet, Kali e até algumas divindades cultuadas apenas do outro lado do Rio da Prata, como o Gauchito Gil ou a Difunta Correa, que seguiu amamentando seu filho mesmo depois de morta. Esta figura, inclusive, pode gerar um processo movido pela província de San Juan, detentora exclusiva dos direitos da "marca". É exatamente este tipo de comércio que a explosição se propõe a criticar. Também cabem muitas outras interpretações, claro, e até entendo porque tanta gente está ofendida com este trabalho. Mas preciso dizer que eu adorei?

O AMOR E SEU DUPLO

É muito comum que alguém só namore pessoas parecidas entre si. Seja porque gostam do mesmo tipo físico, seja porque querem repor um amor que se perdeu. A protagonista de "Uma Segunda Chance para Amar" se encaixa nesta segunda categoria, e de maneira quase patológica. Ela conhece um sósia perfeito do marido que morreu, e se envolve com ele sem lhe contar da mórbida semelhança. Claro que o problema só vai aumentando, até um desenlace que não chega a ser satisfatório. O filme ganhou um título super óbvio no Brasil, que não faz jus à sutileza do diretor e roteirista Arie Posin. Com takes rápidos e música delicada, ele consegue criar uma atmosfera que mistura encanto e opressão em doses iguais. Annette Benning, para variar, consegue registrar cada nuance de uma personagem pouco crível. E é muito aflitivo ver Robin Williams, em seu primeiro filme lançado após sua morte, entrar em cena já falando que foi ao cemitério. "Uma Segunda Chance para Amar" é um filme adulto e levemente amargo, e já está dividindo seus espectadores. Conheço gente que odiou. Eu gostei.

domingo, 21 de setembro de 2014

TWICE

Dizem que os bons cineastas estão sempre refazendo o mesmo filme. Não é verdade: tem muito diretor por aí que surpreende a cada novo trabalho. Mas também existem aqueles medianos que se repetem. É o caso de John Carney, revelado há alguns anos com "Once". O filme, que ganhou o Oscar de melhor canção, contava a história de um músico de rua irlandês que se apaixonava por uma imigrante tcheca, mas no final ela voltava para o marido que havia abandonado. "Mesmo que Nada Dê Certo" segue a mesmíssima planta, devidamente adaptada a Nova York e a um orçamento que permite a contratação de estrelas. Mark Ruffalo está de fato muito bem como o executivo de gravadora que é demitido (a surpresa é ele ainda estar empregado em 2014), e que reencontra uma razão para viver na compositora inglesa vivida por Keira Knightley. Mais uma vez, a música assume um papel de protagonista; as muitas canções do filme são todas muito boas, se bem que nada inovadoras. E a historinha é simpática, sem maiores arroubos. Teve uma hora em que eu até pensei, qual é o problema dessa gente? Nenhum! Pelo menos "Once" suscitava emoções mais profundas. Este fica só no rasinho. Não é ruim, quando você não quer nadar de braçada. Talvez fosse melhor ter visto em casa.

sábado, 20 de setembro de 2014

OS GENROS QUE MAMÃE PEDIU A DEUS

Sou totalmente maria-vai-com-as-outras. Pegando carona no assunto que mais mobiliza as bichas nessa campanha eleitoral, resolvi lançar a primeira enquete da história deste blog. Tá vendo o gadget aí do lado esquerdo? Vá lá e crave sua preferência. Qual deles é o genro que mamãe gostaria de ver nos seus braços?

O filho da Luciana Genro, Fernando Genro Robaina, que lembra uma versão mais clara do rapper Criolo, é jogador de futebol e parece ter uma pegada poderosa?

Ou o filho do Eduardo Jorge, o sarado Alexandre Alves Duarte, que, apesar de ser discretíssimo, já tem toda uma rede de intrigas construída ao seu redor?

Valendo!

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

OVA NOVA

Estou sendo pressionado a votar na Luciana Genro. No Facebook, amigos gays me interpelam: "como é que você ainda não fechou com a única candidata que defende os gays?". Na família, minha sobrinha de 18 anos declarou que vai votar nela, junto com toda sua classe - e eu me senti com 267 anos de idade. Fora que Luciana realmente tem dado um show nos debates, e ainda tem um filho gato... Ai, gente, me larga, eu já me decidi pelo Eduardo Jorge. Ele também apoia o casamento igualitário, o direito ao aborto e a liberação da maconha, e ainda propõe um monte de políticas coerentes e factíveis. Luciana é do PSOL: mesmo sabendo que ela tem tanta chance quando o candidato do PV, ou seja, zero, não consigo mudar meu voto. Acho que os partidos da esquerda radical são ótimos no Legislativo, onde fazem bastante barulho e lutam sem tréguas pelo que realmente acreditam. Mas no Executivo, ainda mais na presidência da república... não, não dá. O Jean Wyllys é um excelente candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, e em São Paulo tem o Ivan Valente, a quem eu fiz questão de cumprimentar outro dia, quando cruzei com ele na rua. Mas, quando se trata do Executivo, me baixa a Regina Duarte e eu tenho medo. Se bem que ia ser fabuloso termos uma presidente com culhão de dizer "uma ova" num debate promovido pela Igreja Católica. Ô se ia.

GAROTAS DE FUTURO

Será que a onda das divas sexy finalmente estourou na praia? Não, porque Nicky Minaj continua balançando a "Anaconda". Mas surgiu uma contracorrente de cantoras gringas que não se encaixam neste padrão. Elas até são lindas de rosto e corpo, mas nenhuma fica esfregando as partes pudendas na câmera. E as letras podem falar de sexo de maneira explícita, mas sensualidade não é o produto que elas vendem. Para complicar, a música que essas moças fazem não é fácil. Escapam das fórmulas para tocar no rádio e são cheias de surpresinhas; algumas faixas são francamente experimentais. É o caso da inglesa FKA twigs, de quem eu falei aqui no blog um mês atrás. E também da americana Banks, que prefere usar só seu sobrenome como nome artístico, ignorando o prenome Jillian. Ela acabou de lançar "Goddess", seu primeiro álbum completo, com um som difícil de classificar. Não é pop, não é dance, não é soul - mas é muito bom, com arranjos complexos e melodias inusitadas. Entrou para minha lista dos melhores do ano.
Com um pé no hip-hop mas ainda da mesma turma, a também americana Jhené Aiko segue trilha parecida. Sua música reflete sua mistura de raças: ela é descendente de japoneses, afro-americanos, judeus e espanhóis. E também de algum povo alienígena, porque partes de seu disco "Souled Out" parecem ter sido gravadas em outro planeta. Não dá para dançar, mas é incrível para se ouvir com headphones.
E aí chegamos a "The Golden Echo", o segundo trabalho solo da neozelandesa Kimbra. Revelada em 2012 graças ao dueto com Gotye no megahit das galáxias "Somebody I Used to Know", ela surpreendeu logo em seguida com "Vows", um disco alegre e inovador. Kimbra continua feliz, mas dessa vez nem todas as músicas são para se cantar a plenos pulmões: há mais introspecção, mais momentos sombrios, e muita colagem de efeitos e trilhas incidentais. Não, não é tão bom quando o álbum de estreia. Mas nunca deixa de ser interessante, o que a torna uma digna integrante dessa nova geração de cantoras-compositoras que está expandindo os limites do pop.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

SATANÁS PARA COLORIR

Sucumbindo à pressão de grupos ligados a igrejas evangélicas, um tribunal do estado americano da Flórida decidiu que é perfeitamente legal que panfletos religiosos sejam distribuídos aos alunos da rede pública. Mas, como nos Estados Unidos a lei vale mesmo para todos, os ativistas do Templo Satânico correram para produzir um livrinho de atividades voltado ao público infantil. Não, não se trata de um culto diabólico: o Templo Satânico na verdade é uma ONG que luta pela total separação entre Igreja e Estados, assim como pela mais ampla liberdade religiosa (inclusive a de não ter religião). O livro pode ser baixado de graça aqui, e, além de ilustrações fofíssimas de Baphomet ou do pentagrama invertido, também é recheado de mensagens de tolerância e boa convivência. Adoraria que algo semelhante acontecesse aqui no Brasil, onde a bancada fundamentalista tenta impingir sua agenda na legislação. Quem se habilita?

HOJE EU QUERO GANHAR O OSCAR

Mias uma vez, o Brasil não tinha um blockbuster óbvio, tipo "Cidade de Deus", para ser seu representante na disputa pelo Oscar de filme em língua estrangeira. Mas opção era o que não faltava: 17 títulos tentaram a indicação, alguns deles muito bons. "Praia do Futuro", "O Lobo Atrás da Porta" e o excelente "Tatuagem" são filmes que honram qualquer país, assim como "O Menino e o Mundo" - que ainda tem chances na categoria de longa-metragem em animação. Mas no final o comitê encarregado selecionou meu favorito pessoal, "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho". É uma escolha ousada, porque a Academia não costuma morrer de amores por filmes de temática gay. Mas também faz sentido, porque é o filme brasileiro mais premiado do ano no exterior (o que talvez não queira dizer muita coisa: o indicado do ano passado, "O Som ao Redor", também era, e não ficou nem entre os nove semifinalistas). Como bem disse a ministra Marta Suplicy, a história de "Hoje Eu Quero..." é universal, e também muito original. O longa de estreia de Daniel Ribeiro já tem estreia garantida nos EUA, mas o fato de ter sido escolhido pelo Brasil para brigar pelo Oscar vai lhe dar um gás. Se bem que nenhuma bicha precisa desse tipo de incentivo para ver essa pequena joia. A beleza dos meninos protagonistas já basta. Se você ainda não viu, corra - isto é uma ordem.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

CHATOS POR EXTENSO

Impressionante como o Facebook é mal gerido. O mercado publicitário já questiona a eficácia da rede social como mídia. Nem era para menos: o algoritmo que eles usam é burro. Bastou eu entrar numa página teocrática para espinafrar uns "pastores" desonestos para o Feice agora ficar me sugerindo coisas tipo "Namoro Evangélico" - hellooo? Também proíbem cartuns com peitinhos, mas liberam páginas homofóbicas e nazistas. E agora inventaram que os usuários precisam usar seus nomes verdadeiros. As drag queens americanas já estão em pé de guerra, e conseguiram uma reunião com a diretoria da empresa. Por aqui, amigos que usam iniciais ou siglas em seus sobrenomes estão sendo obrigados a adotar seus nomes por extenso, do jeito como estão no RGs. Daqui a pouco virão atrás de mim: Tony não é como eu apareço nos meus documentos. Sugerem que as pessoas usem parênteses embaixo de seus nomes verdadeiros, ou que criem fanpages para suas personas artísticas. Ah, quer saber? Pau no cu do Facebook. Eles é que têm que se adaptar, não nós. Chega dessas regras estúpidas. Por muito menos, MySpace e Orkut foram pro saco.

REINO DESUNIDO

Meu lado racional é totalmente contra a independência da Escócia, que será decidida amanhã num plebiscito. Acho qualquer nacionalismo o ápice da cafonice. O mundo inteiro tem que aprender a viver junto, sem fronteiras nem bandeiras. Mas meu lado emocional é a favor: se a Escócia se tornar indeopendente, acrescentarei mais um país à lista dos que eu conheço, e sem fazer força. Estive lá em 1988.

A fragmentação do Reino Unido impõe alguns problemas práticos. Qual será a moeda escocesa? E como fica o Union Jack, uma das bandeiras mais famosas do mundo? Se o pavilhão azul com a cruz em x de Santo André for eliminado do desenho, sobram as cruzes de São Jorge (da Inglaterra) e a de São Patrício (da Irlanda). Além de parecer ter sido lavada com Cândida, a nova bandeira não contempla o País de Gales.

Um monte de designs alternativos já está sendo proposto. Alguns incluem o dragão galês, outros o preto e amarelo da cruz de São Davi, também símbolo de Gales. Mas talvez nada mude: a rigor, a bandeira atual representa uma união de coroas, não de países (por isto que Gales, há muito tempo incoporado à Inglaterra, não aparece). E como Elizabeth II continuaria sendo a rainha da Escócia (como ainda o é da Austrália ou do Canadá), o Union Jack, presente em milhões de canecas e camisetas, poderia seguir igual. Mas, vem cá, e o castelo de Balmoral? A família real perderia seu refúgio favorito, que fica nas Highlands escocesas? Nããããooo!!!