quarta-feira, 30 de julho de 2014

LÁGRIMAS DE KROKODIL

"Krokodil" era uma revista de humor da extinta União Soviética. Surgida nos fervilhantes anos 20 como uma sátira impiedosa aos líderes da jovem nação, sofreu censura pesada e logo se transformou numa ferramenta do Partido Comunista. Também virou sinônimo de humor a favor, aquele que não existe: só falava bem do governo e mal de seus adversários. Ou seja, uma tristeza só. A "Krokodil" acabou junto com a URSS mas ressurgiu depois, com nova proposta editorial - mas ainda vigiada de perto, porque o regime de Vladimir Putin não é exatamente democrático.

A "krokodilização" avança no Brasil. O exemplo mais recente é o da Dilma Bolada, que agora é oficialmente parte da campanha pela reeleição da presidenta. O criador da personagem, Jefferson Monteiro, chegou a tirar a página do ar, alegando não querer suportar sozinho os ataques da oposição. Mas já está de volta, e, segundo informantes, a soldo do PT (ele nega isto em seu perfil no Facebook). No fundo, não importa muito se ele recebe ou não do partido. O fato é que a Dilma Bolada, que já tinha pouca graça, agora é totalmente chapa-branca.

Num contexto mais amplo, me assusta a reação do governo à mensagem que o Santander enviou para alguns clientes VIP. Claro que o banco foi inábil na escolha das palavras, mas o fato é incontestável: a Bolsa cai quando Dilma sobe nas pesquisas, e vice-versa. E também é claro que o PT está usando o episódio a seu favor, como fez no caso das vaias na abertura da Copa. Mas a ameaça de sanções ao banco soa mesmo venezuelana. Sim, tenho medo que, num segundo termo, Dilma se "bolivarianize" sem medo de ser feliz, com maior vigilância à imprensa e restrições aos opositores. O que não quer dizer que eu ache que vá ser uma maravilha com o Aécio. É notório que grande parte da imprensa mineira tem o rabo preso com o ex-governador, e ele já mostrou de que não sabe lidar bem com a liberdade de expressão que vigora em outros estados. Precisa mudar de atitude agora. Depois, não adianta chorar.

FOTOS DO CARALHO

Já faz uns dez anos que existem blogs do tipo "Avalie Meu Pinto", onde internautas mostram fotos de suas joias da coroa para arrancar suspiros de admiração de outros internautas. A maioria desses sites logo descambou para a pornografia pura e simples, mas agora existe um Tumblr que vai na direção contrária: a advogada neozelandesa Madeleine Holder criou o "Critique My Dick Pic", onde ela analisa a qualidade da foto em si e não exatamente o dito cujo. A moça não está interessada apenas em arte. Também aprecia que as imagens enviadas por seus leitores sejam eróticas, mas implica com o que chama de "porky pigging" (o cara usando uma camisa e mais nada - o que há de errado com isto?). Por outro lado, é absolutamente democrática: aceita fotos de paus de todos os tamanhos (que ela promete nunca julgar), de transexuais e até de mulheres, com dildos ou sem. O anonimato é garantido, mas alguns comentários são implacáveis. Para quem quiser, aqui tem uma entrevista de Madeleine (em inglês). E aí, se animou a compartilhar com estranhos o seu selfie mais íntimo?

terça-feira, 29 de julho de 2014

CHER, É VOCÊ?

Lady Gaga só não desapontou os mais aguerridos little monsters com seu último disco. Não que "Artpop" fosse ruim: só não era a obra-prima grandiosa que ela vinha alardeando. Mas Gaga tem um talento inegável, e já tem um novo projeto na manga. Foi com ela que Tony Bennett gravou "The Lady is a Tramp", a melhor faixa do CD "Duets II" - sim, melhor até mesmo do que a que ele gravou com Amy Winehouse. E agora, dez anos depois de dividir um álbum inteiro com k. d. lang, o lendário cantor fará o mesmo com a Germanotta. "Cheek to Cheek" sai em setembro, a tempo de ser indicado aos Grammys do ano que vem (Bennett é um dos queridinhos do prêmio). A primeira amostra saiu hoje e, se não é exatamente inovadora, tampouco faz feio. Não se pode dizer o mesmo da peruca da Gaga.

OS ALBINOS EM SPRINGFIELD

"Os Simpsons" deve estrear em setembro nos EUA sua 387a. temporada, mas é impressionante a capacidade que a série ainda tem de gerar notícia. Os produtores já anunciaram que vão matar um personagem importante logo no primeiro episódio, e este nem é o maior trunfo. Ainda mais esperada é a visita que o "elenco" de "Family Guy" fará a Homer e sua turma. Um teaser de cinco minutos foi divulgado na Comic-Con, o bastante para deixar o sistema solar em chamas. Nada como um dia depois do outro: os criadores dos dois programas passaram anos se acusando mutuamente de plágio. $ó o amor con$trói, não é me$mo?

segunda-feira, 28 de julho de 2014

A FRAGILIDADE DO CASTELO DE CARTAS


Com apenas um ano e meio de atraso, eu finalmente me deixei abduzir por "House of Cards". Estou no meio da segunda temporada e me maravilhando com a qualidade da produção, dos roteiros e do elenco. Kevin Spacey tem uma das tarefas mais difíceis jamais dadas a um ator: Frank Underwood tem que deixar claro para o espectador quando está mentindo, ao mesmo tempo em que seu interlocutor precisa acreditar que ele diz a verdade. Talvez por isto mesmo o personagem quebre tantas vezes a quarta parede. Mesmo assim, tem algo em sua construção que me incomoda demais. Se você ainda pretende ver a série, é melhor parar de ler por aqui.

Parou? Não, né? Então segura porque lá vai: não gosto de Frank ser um assassino. Não é por moralismo, longe disto - afinal, estamos falando de ficção. Mas acho mais do que improvável que o vice-presidente dos Estados Unidos atire uma jornalista nos trilhos do metrô, quando um outro passageiro qualquer ou mesmo uma câmera de segurança poderiam flagrar sua peraltice. Não estou dizendo que um político inescrupuloso como ele seria incapaz de matar alguém. Mas com as próprias mãos? Gente assim tem quem faça este tipo de serviço. Entendo que os criadores da série pensam que deste jeito aumentam a carga dramática, mas para mim é um furo considerável num antiherói que, tirando este deslize, merece estar no mesmo panteão que Walter White, Don Draper e Tony Soprano.

OS SONHOS MAIS LINDOS SONHEI

E eles se realizaram: "Elis, a Musical" é o primeiro musical 100% brasileiro que não faria feio na Broadway. Sim, tivemos muita coisa boa produzida nos últimos anos, quase sempre na veia das biografias - de "Somos Irmãs", sobre Linda e Dircinha Batista, a "Tim Maia - Vale Tudo". Mas "Elis" está uma prateleira acima. Tudo funciona às mil maravilhas, do libreto de Nélson Motta (talvez a pessoa com mais gabarito para falar de Elis) e Patricia Andrade à direção de Dênis Carvalho, que faz sua estreia no teatro. E que elenco, meu. De onde desencavaram Laila Garin, que me deu a sensação de estar assistindo a uma sessão espírita em 3D? E por que Claudio Lins nunca estourou na TV, já que tem looks e atitude de protagonista? Tuca Andrada não me surpreendeu: sensacional como sempre. Surpresa mesmo eu tive com Danilo Timm, que já é um veterano de musicais mas a quem eu nunca tinha visto antes. Soluções cênicas inteligentes, efeitos multimídia que ajudam sem ofuscar e repertório a prova de bomba atômica completam o pacote luxuoso. Só me ressenti, mais uma vez, da morte da cantora ter ficado de fora. Não sei se é a família que implica ou se é a obrigação de terminar para cima. Como no especial "Por Toda a Minha Vida", no final parece que Elis foi morar numa fazenda.

domingo, 27 de julho de 2014

TO THE LEFT TO THE LEFT

A ideia não é nova: interpretar a letra de uma música como se ela fosse poesia, ou mesmo um texto teatral. Pedro Paulo Rangel fez até um espetáculo completo alguns anos atrás, usando apenas letras de clássicos da música brasileira. Agora a atriz americana Nina Millin está ficando conhecida na internet graças aos seus "Beyoncélogues". O que soava banal de repente ganha uma força inusitada, mais pela interpretação de Nina do que pela qualidade das palavras. Oh, oh, oh.

sábado, 26 de julho de 2014

O GIGANTE ABOBALHADO

Yigal Palmor, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, é um babaca. Onde já se viu xingar um país amigo de "anão diplomático", ou dizer que vergonha mesmo não é matar centenas de civis inocentes, mas sim perder de 7 a 1 para a Alemanha? O Brasil poderia ter dito que os judeus perderam de 6 milhões a zero para os alemães na 2a. Guerra, mas preferimos reagir com bom humor (já viu o tumblr Porta-Voz de Israel?). O fato é que a gafe do sujeito pegou tão mal que ele já veio com panos quentes, dizendo que o Brasil é incrível e que adora brigadeiro. Mas, má-criação à parte, Palmor tem razão: a política externa brasileira é uma mixórdia desde que o PT chegou ao poder. Comandada de fora do Itamaraty pela besta-fera do Marco Aurélio Garcia, as atuais diretrizes são ideologizadas ao extremo e prejudiciais aos interesses do país. Os diplomatas de carreira ficam putos quando veem o Brasil se calar diante das atrocidades russas na Ucrânia, ou dos abusos de regimes falidos de Cuba e da Venezuela. E o que dizer do apoio à admissão da Guiné Equatorial à Comunidades dos Países de Língua Portuguesa? Este pequeno arquipélago na costa ocidental da África foi colonizado pela Espanha e em apenas uma de suas ilhas se fala uma forma arcaica de português. Mas é rico em petróleo, então vamos fingir que não se trata de uma ditadura hereditária. O Brasil é um gigante sim, mas está mais para o Hodor de "Game of Thrones". Taí mais um bom motivo para não reeleger a Dilma.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

SALVE GEORGE

Alain Resnais sabia que "Amar, Beber, Cantar" seria seu último filme? Provavelmente - aos 91 anos de idade, tudo o que se faz deve ter sabor de última vez. Talvez por isto mesmo ele tenha escolhido adaptar para o cinema a peça inglesa "Life of Riley". São seis personagens que parecem ter só uma preocupação na vida: falar de George, um amigo comum que foi desenganado pelos médicos. Mas o tom é de farsa, não de tragédia. Todos querem ligar para George, sair com George, convidar George para fazer teatro amador, fugir com George para Tenerife. Resnais optou por literalmente filmar a peça, com um cenário estilizado e assumidamente artificial. No começo é engraçado, mas lá pelas tantas fica monótono visualmente. Pelo menos os diálogos são fantásticos e os atores idem. E é irresistível pensar que Resnais gostaria de ser George: mesmo depois de sua morte em março, continuamos falando dele.

O TEMPLO E O VENTO

São misteriosas para mim as razões que levaram a Igreja Universal do Reino de Deus a construir uma réplica do Templo de Salomão na zona leste de São Paulo. Sim, entendo que seja uma demonstração de poder e prestígio - até a presidenta está sendo aguardada na inauguração, na próxima quinta-feira. Mas não é esquisito uma denominação que se diz cristã refazer um templo que não cultuava Jesus? Também acho bizarro os pastores celebrarem cultos fantasiados de rabinos. Além do mais, o Templo de Jerusalém era o único local onde os judeus da antiguidade podiam cultuar seu deus; não havia sinagogas naquele tempo. E lá dentro se acreditava que estava presente a própria divindade, um conceito que vai contra a proliferação de filiais da IURD por toda parte. Ainda pior que a mongonga teológica é a arquitetura anacronicamente medonha e a localização num bairro feioso onde nada ornaria de qualquer jeito. Mas para Edir Macedo e sua turma, nada disso importa; o Templo traz uma dose de glamour (ainda que equivocado) a uma organização que vem perdendo rebanho para a concorrência, ao mesmo tempo em que seu projeto televisivo vai mal das pernas. Vai virar o vento da mudança que sopra sobre a Universal?

quinta-feira, 24 de julho de 2014

MEU BRASIL NÃO-BRASILEIRO


O músico francês Sébastien Tellier acaba de lançar um disco sobre sua infância no Brasil. As músicas falam de suas lembranças do verde das florestas, da brisa marinha e dos pássaros coloridos. Só que não: Tellier cresceu mesmo na França, e só veio ao nosso país para gravar algumas faixas de "L'Aventura" e rodar o clipe acima. Até mesmo os ritmos supostamente brasileiros são imaginários. O cara não é nenhum grande conhecedor da MPB, pela qual diz ter se apaixonado dentro de um táxi. Portanto, há duas maneiras de lidar com este CD. Uma é desprezar o trabalho como um todo, tão autêntico como macumba para turista. A outra é embarcar na brincadeira e mergulhar nesse Brasil onírico, cheio de fontes murmurantes onde a lua vem brincar. Eu escolhi a segunda.

ROMEU E HASAN

Será que estamos assistindo a mais uma guerra inútil entre Israel e o Hamas? Nas duas últimas vezes, apesar do elevado número de mortos (mais ainda do lado palestino),  o placar fechou em 0 a 0. Israel não conseguirá reduzir drasticamente o poder de fogo do Hamas, e o Hamas não conseguirá eliminar Israel da face da Terra. Tudo vai continuar mais ou menos igual, só com menos gente dos dois lados (menos ainda do lado palestino). Essa matança serve apenas aos objetivos políticos de quem a comanda: a direita israelense que quer se manter no poder, e o Hamas quer se firmar como defensor incontestável de uma população oprimida. Mas alguns fatos novos me dão um raiozinho de esperança. Para começar, a opinião pública do mundo inteiro se voltou contra Israel - inclusive dentro dos Estados Unidos, cujo governo insiste em defender o estado judeu a qualquer custo. Além disso, a proibição das companhias aéreas ocidentais de seus voos pousarem em Tel-Aviv está funcionando como uma pesada sanção diplomática. Também é inusitado o pouco apoio que o Hamas vem recebendo do mundo árabe. O Egito, que voltou para as mãos dos militares, não quer mais saber desses aliados da Irmandade Muçulmana. E o Hizbollah, que atua na Cisjordânia e no sul do Líbano, é xiita. Não vai socorrer um grupo sunita que tem muito em comum com o estado islâmico instalado por uma franquia da al-Qaeda entre a Síria e o Iraque. No meio desse imbroglio todo, é consolador encontrar um Tumbl'r como o PalesTinder, que exibe paqueras virtuais entre palestinos e israelenses de todas as orientações. Façam amor, não façam guerra!

quarta-feira, 23 de julho de 2014

MANIA DE PERSEGUIÇÃO

A moda já chegou por aqui, com fundamentalistas de diversos matizes se dizendo tolhidos em seus direitos à liberdade de expressão e de religião. Mas, num país onde se constróem Templos de Salomão e se distribuem folhetos pregando a "jesuscracia", ainda não dá para essa turma reclamar muito. Nos Estados Unidos dá: as igrejas evangélicas de lá vêm perdendo a passos largos o poder que tinham dez anos atrás, e claro que estão se fazendo de coitadas. Um dos sintomas mais agudos dessa paranoia é o filme "Persecuted" ("Perseguido"), que conta a história de um pastor acusado de um crime que não cometeu - só porque não endossou uma lei liberal que ia contra algum de seus credos (o teor da tal lei não é revelado, mas pelo jeito devia tornar obrigatórias aulas de evolucionismo por professores gays em pleno dia de Natal). O cara então vira um fugitivo, mas felizmente, como qualquer pastor que se preza, sabe lidar bem com armas de fogo. "Persecuted" é uma produção independente visando um público-alvo bastante reduzido. Mas é desanimador pensar que este público existe.

DOWN DOWN DOWN NO HIGH SOCIETY

Na primeira versão de "O Rebu", Tereza Rachel interpretava Lupe Garcez, uma personagem descaradamente inspirada numa pessoa real: Beki Klabin, a primeira socialite a desfilar numa escola de samba. Lupe foi transformada em Vic na versão atual da novela e agora é feita por Vera Holtz. Mas qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas será mera coincidência. Meu ponto: foi-se o tempo em que havia socialites famosas o suficiente para serem retratadas na TV. Porque não existe mais a alta sociedade, pelo menos como existiu até os anos 80. Claro que ainda tem gente rica que dá festas. Mas, como num remake, mudaram roteiro e elenco.

O que eu chamo de "alta sociedade" era um grupo de pessoas que tinha mais do que dinheiro: tinha "berço". Achavam-se "bem-nascidas" (até este termo sumiu de circulação). Iam aos mesmos colégios, namoravam entre si, casavam-se e reproduziam-se em cativeiro. Quase sempre de distante origem portuguesa ("quatrocentões", como se dizia em São Paulo), com um sobrenome francês ou inglês aqui e ali. Apesar deste encastelamento, foram mudando de perfil ao longo do século 20 à medida que algumas famílias de imigrantes iam enriquecendo: primeiro os italianos, depois os árabes e os judeus. Curiosamente, os japoneses nunca foram admitidos no clube - não sei se porque a própria comunidade se isolou até a terceira geração, não sei se por racismo dos demais. Os negros, então, nem passaram perto, por causa do apartheid social que perdura até hoje no Brasil.

O "high society" era um produto cultural influente. Um Olimpo jamais criticado e por todos almejado.  Sambas populares falavam em Teresa (Sousa Campos) e Dolores (Guinle). As colunas sociais eram lidas por todas as classes. Nos anos 40 surgiu a revista "Sombra", antepassada do que hoje é a "Caras" - mas com um design gráfico tão avançado que sua descendente mais parece um catálogo de supemercado. Em SP havia o caretérrimo Tavares de Miranda, que escrevia coisas como "a noite transcorreu sobre carretéis". No Rio, firmaram-se o elegante Zózimo Barroso do Amaral - tão influente que ganhou até estátua no Leblon - e o folclórico Ibrahim Sued, que, mesmo cometendo erros atrozes de português, conseguia emplacar expressões como "geração pão com cocada".

A única jornalista que ainda segue este estilo antigo é Hildegard Angel, que saiu do que sobrou online do "Jornal do Brasil" e hoje tem seu próprio site. Nos grandes jornais do Rio e São Paulo, o que era o colunismo social hoje fala mais em política e economia, ou simplesmente desapareceu. As razões são inúmeras. Antes de mais nada, o dinheiro mudou de mãos. Muitos dos ricaços de antanho hoje são "nouveaux pauvres", enquanto que cantores sertanejos, jogadores de futebol e empresários de áreas inusitadas são os novos grã-finos (outra palavra que saiu de moda). A indústria das celebridades explodiu, e hoje qualquer um se acha no direito à fama instantânea.

Mas também mudou a cultura. Hoje somos um país mais democrático, e pega mal ostentar privilégios. Ainda assim, o colunismo social persiste nas capitais das províncias e pelo interior adentro, onde figuras como Lucas Celebridade cobrem a mais finíssima maionese ainda servida nos convescotes locais. Causam impacto regional, mas viram motivo de chacota nos grandes centros. Enquanto isto, proliferam as blogueiras de moda, os eventos corporativos e os shoppings de griffes. Estes são alguns vetores da elite atual. Porque o que era a alta sociedade, com suas senhas secretas ("cântri", não "cáuntri"), evaporou feito o gás de uma champagne esquecida aberta. Tim-tim.

terça-feira, 22 de julho de 2014

PIRLIMPIMPIM

Podem me chamar de direitista, mas não estou especialmente triste com a prisão preventiva da Sininho e seus amiguinhos. Só de saber que esses pestinhas usam apelidos como "Punk" ou "Game Over" me dá vontade de encher a mamadeira deles com coquetel molotov. Podem me chamar de velhinha de Taubaté, mas tenho cá comigo que o governo realmente descobriu algo gravíssimo que os black blocs estariam tramando para o final da Copa. Mas por que não conta o que é? Para não causar pânico na população? Para não revelar a identidade dos agentes infiltrados? Ou para não revelar que quem está por trás desses vândalos, que diminuíram com sua violência a legitimidade das manifestações por todo o país, na verdade é o próprio governo? O ministro José Eduardo Cardozo, um homem respeiteavel, deu a entender que sabe mais do que diz. Mas o mistério continua suspenso no ar. Feito pó de pirlimpimpim.

BELAS DA TARDE

Aproveitei a tarde de folga para conhecer o novo Belas Artes. Logo de cara, uma surpresa: o saguão do cinema continua idêntico ao que era na época do fechamento, três anos atrás. A bombonière continua no mesmo lugar, a lojinha também e até as placas com os nomes das salas permanecem iguais. Superado este pequeno choque, me bateu uma espécie de alívio. A geografia familiar me deu a sensação de que o tempo não havia passado. E também a de que só esfregaram um pano úmido nas instalações que já existiam. O que não é totalmente verdade: nem todas as salas já foram reabertas, e as poltronas da que eu fui estão tinindo de novas (mas podiam ser melhores - esta parece ser a maldição do Belas Artes, que nunca primou pelo conforto). Toda essa experiência foi mais intensa que o filme em si, o argentino "Filha Distante". Adoro o estilo minimalista do diretor Carlos Sorín, mas dessa vez acho que ele exagerou um pouco. Na tentativa de não soar piegas com uma história potencialmente melodramática (pai arrependido parte em busca da filha magoada), o roteiro acaba fazendo elipses demais e poupando o espectador de qualquer emoção mais forte. Mas o que importa mesmo é que um dos cinemas mais tradicionais de São Paulo está de volta, no que parece ser um movimento maior de recuperação das salas de rua. O cine Leblon do Rio de Janeiro, também ameaçado de cerrar as portas, foi salvo por uma aliança entre a prefeitura e os moradores do bairro. São notícias surpreendentes nesta época de downloads e streaming.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

MEU PRIMEIRO TURNO

Sou sempre "xingado" de tucano aqui no blog por petistas empedernidos, mas não me sinto ofendido porque ser peessedebista não é motivo de vergonha. Acontece que eu não sou. Sim, já votei várias vezes no PSDB, mas também no PT e no PV, além de ter anulado meu voto no 2o. turno de 1989. E não, não vou de Aécio no dia 5 de outubro. Primeiro turno é para a gente votar com o coração: naquele em quem realmente acreditamos, mesmo que ele não tenha a menor chance. E, em 2014, o candidato que preenche os meus requisitos é Eduardo Jorge, do Partido Verde. O cara é médico sanitarista, tem biografia ilibada e transita bem entre as ideologias: foi secretário da saúde de São Paulo quando Erundina e Marta foram prefeitas, e do Verde e Meio Mabiente quando Kassab. Também defende um programa que eu assino embaixo: pró- LGBT, pró-maconha, pró-aborto. Nenhum dos "três grandes" faz o mesmo, e os nanicos que o fazem são de extrema-esquerda demais para o meu gosto. Eduardo Jorge deverá chegar em quinto lugar, atrás do celerado pastor Everaldo, mas eu não estou nem aí. Para mim, isto é que é não desperdiçar o voto.

TOC DE CLASSE

Giuseppe Tornatore já ganhou um Oscar e seus filmes são realmente acima da média, mas eu não consigo colocá-lo na lista dos melhores diretores em atividade. E não mudei de ideia com "O Melhor Lance", totalmente rodado em inglês numa cidade europeia não identificada (desconfio que seja Viena, por causa de um ".at."que aparece numa vitrine). O protagonista, feito muito bem pelo competente Geoffrey Rush, é um leiloeiro que despreza a humanidade e tudo o que ela toca, tanto que usa luvas o tempo todo. Prefere a companhia de obras de arte, que avalia por preços irrisórios para ele mesmo comprá-las e mantê-las numa sala secreta de seu imenso apartamento. Um belo dia, o sujeito é procurado por uma herdeira que quer se desfazer da coleção de sua família. Detalhe: ela se recusa a aparecer pessoalmente, falando primeiro pelo telefone e depois atrás de portas, num jogo de esconde-esconde que deixa o pobre leiloeiro com a pulguíssima atrás da orelha. Claro que esses dois portadores de Transtorno Obsessivo-Compulsivo acabam se envolvendo, e lá pelas tantas eu achei que se tratava da clássica fantasia do velho gagá que seduz uma moça algumas gerações mais nova. Mas o final é surpreendente, e divide opiniões. "O Melhor Lance" é longo demais, mas pelo menos é lindo de se ver e a música é de Ennio Morricone. Sua mensagem final é a de que mesmo o olho mais treinado pode ser enganado por uma boa falsificação. Mas nem assim me convenceu de que Giuseppe Tornatore seja um verdadeiro mestre do cinema.

domingo, 20 de julho de 2014

DILMA BOLADA

A campanha eleitoral mal começou e já surgiu uma notícia explosiva: neste momento, Dilma está tecnicamente empatada tanto com Aécio quanto com Campos num eventual segundo turno. Isto significa que os marqueteiros da presidenta vão fazer de tudo para liquidar a fatura já na primeira rodada. Mas é improvável que consigam. O PT jamais elegeu um presidente num turno só (se bem que teria conseguido se Lula pudesse concorrer a um terceiro mandato em 2010, quando estava no auge da popularidade). Vem artilharia pesada por aí: preparem-se para ouvir boatos cada vez mais cabeludos sobre os vícios dos candidatos da oposição, a extinção do Bolsa-Família, a venda da Amazônia aos gringos... Isto se Dilma não tiver um mal súbito e Lula não for convocado no último segundo para concorrer no lugar dela. Os próximos meses prometem fortes emoções. Brace yourselves.

sábado, 19 de julho de 2014

A GUERRA DO BRIGADEIRO

Nem havíamos nos recuperado da derrota retumbante na Copa quando fomos submetidos a mais um insulto inenarrável ao orgulho nacional. O badalado chef Jamie Oliver não gostou do brigadeiro, nem do quindim e ainda menos do beijinho. A opinião foi emitida durante uma entrevista a Barbara Gancia para o programa "Saia Justa" onde ele precisou experimentar os doces em rápida sequência, além de caldo de cana e açaí. A grita foi tão grande que a própria Barbara teve que explicar no Feice que era de manhã muito cedo, a edição deixou muita coisa de fora e os doces brasileiros têm mesmo muitíssimo açúcar para o paladar europeu. Mas não adiantou. As redes sociais continuam em armas, pedindo a cabeça de Jamie. É isso aí, gente: vamos perder tempo com o que realmente tem importância, e não com bobaginhas como a queda do avião na Ucrânia.

(a entrevista de Jamie Oliver a Barbara Gancia pode ser vista aqui.)

sexta-feira, 18 de julho de 2014

FAMÍLIA REQUEIJÃO

Só hoje que eu fiquei sabendo que a Vigor postou anteontem este anúncio em sua página no Facebook. Claro que eu preferia que a direção de arte tivesse deixado mais claro que as mãos de cada lado da foto são do mesmo sexo, e ainda mais que o anúncio fosse publicado na "Veja" - fazer este tipo de ação na internet é mole. Também desconfio que a marca esteja moderando os comentários, porque todos os que aparecem na postagem são pra lá de positivos. Não tem nem aquele novo clássico que é "virou moda, só estão fazendo isto para vender mais". Sim, porque vender mais não deveria ser o objetivo de uma empresa capitalista, não é mesmo? Mas o que importa é que o anúncio existe e que muita gente está gostando. E, de repente, "família margarina" virou uma coisa do século passado.

RIO DEGENERADO

Tenho muito orgulho em ser carioca e penso em algum dia voltar para a minha cidade natal. Mas estou aliviado por não morar no Rio neste momento. Os quatro principais candidatos a governador são todos péssimos - principalmente o Garotinho (cujo ex-secretário de segurança era cúmplice da bandidagem) e o Crivella ("bispo" da "Igreja" Universal). A campanha mal começou e nenhum deles apresenta uma clara vantagem sobre os outros. Como os cariocas costumam ser do contra, não é impossível uma reviravolta até outubro. Mas por enquanto o cenário não poderia ser mais desolador. Cadê o Fernando Gabeira quando a gente mais precisa dele?

quinta-feira, 17 de julho de 2014

IMAGINA NA COPA (DE 2018)

Semana passada o maior telejornal da Rússia noticiou que tropas ucranianas haviam crucificado um garoto de três anos em praça pública, e em seguida arrastado a mãe dele amarrada a um tanque. Tudo balela. Agora este mesmo programa está dizendo que o verdadeiro alvo do míssil que derrubou o voo MH17 da Malaysian Airlines era o avião que trazia Putin do Brasil. Ahã. Ainda não há provas, mas, tirando os russos, o mundo inteiro suspeita que os culpados pelo atentado sejam os rebeldes separatistas da Ucrânia. Mas talvez essas provas não surjam nunca - há relatos de que a caixa-preta do Boeing 777 já foi despachada para Moscou. Essa tragédia pode se tornar um desastre de relações públicas para o expansionismo russo. A imagem de Putin está tão ficando tão suja que nem mesmo uma Copa das Copas daqui a quatro anos será capaz de limpar. Mas aguardemos o desenrolar dos acontecimentos. Por enquanto, só uma coisa é certa: jamais, em hipótese alguma, embarcar num avião da Malaysian Airlines.

REBULIÇO

E aí, vocês estão gostando do remake de "O Rebu"? Eu estou, mas preciso confessar uma coisa: vai ser difícil superar as lembranças que eu tenho do original. Eu tinha acabado de completar 14 anos quando estreou a primeira versão, e decidi que já estava grandinho para acompanhar uma novela das 10 (antes eu só via os capítulos de sexta-feira, porque não tinha aula no sábado - e adorava!). Como eu ainda não tinha vida social naquela época, "O Rebu" foi a primeira e única novela da qual eu vi absolutamente todos os capítulos. E foi uma porrada, porque a trama de Braulio Pedroso era moderna a mais não poder. Além da revolucionária narrativa em três tempos diferentes (antes, durante e depois da festa), deve ter sido a primeira novela brasileira onde a homossexualidade pôs um pezinho para fora do armário. Apesar da censura vigente, para mim ficou claríssimo que o anfitrião Conrad Mahler (hoje transformado em Ângela) matou a convidada Sílvia (feita por uma Bete Mendes ainda magérrima) porque ela ousou se engraçar com seu "sobrinho" Cauê. Ao contrário da versão atual, a identidade do morto só foi revelada no meio da história. Antes só víamos um corpo de terno na piscina. Para surpresa geral, era uma mulher - em dado momento da festa, a piração foi tão grande que todas as mulheres se travestiram de homens (ai, que saudades dos anos 70). E ainda teve lesbianismo: no final, a personagem de Isabel Ribeiro largava do marido para ficar com outra mulher. Tudo muito sutil, claro. Mas ao alcance de um adolescente que ainda nem sonhava em ser viado.

(além de algumas cenas avulsas, só sobraram dois capítulos completos da versão original: o primeiro e o de no. 92, que podem ser vistos no YouTube.)

quarta-feira, 16 de julho de 2014

CALADA NOITE PRETA

Alguns leitores me cobraram um post sobre a Vange Leonel. Eu não me sinto autorizado a fazê-lo, porque não conheço direito o trabalho dela. Claro que eu sei cantar seu maior sucesso, "Noite Preta", o tema de abertura da novela "Vamp". E lia sempre sua coluna sobre assuntos GLS na extinta "Revista da Folha" (ela alternava com o André Fischer). Mas fazia algum tempo que Vange havia saído do meu radar - será que por ser uma militante lésbica? A possível muralha entre homossexuais masculinos e femininos é um assunto recorrente. Rendeu até um ótimo artigo no site da revista Out. Mas será que essa noite preta existe mesmo? Eu não me sinto afetado por ela - afinal, uma das melhores amigas é lésbica (se bem que ela está mais para bicha honorária, já que é fã de Julie Andrews). Mas também não visito sites de meninas, não frequento as baladas delas e não sei muito o que está na moda naquele mundinho. Isto é defeito?

AS VOZES DA VEZ


Não tenho a menor paciência para bicha que choraminga suas dores em canções lentíssimas, à la Anthony (and the Johnsons) Heggarty. Achei que o inglês Sam Smith se encaixava nessa categoria sofrida quando o ouvi pela primeira vez. Mas "In the Lonely Hour", seu CD de estreia, até que traz faixas animadas - apesar do título deprê e da lentidão predominante. O rapaz está vendendo bem dos dois lados do Atlântico e tem realmente uma voz excepcional. Como também compõe, periga até engatar uma carreira longa e se tornar uma versão masculina de Adele.

Sabe "Titanium", aquela música do David Guetta que toca há dois anos sem parar? Claro que sabe: "I'm bulletproof, fire away, fire away...". Pois bem: foi Sia quem compôs. Sabe o hino da Copa, "We Are One (Ole Ola)", massacrado por Pibtull, J. Lo e Claudjeenha? Foi Sia quem compôs. Sabe "Diamonds", da Rihanna? Sim, foi Sia. Aliás, este sucesso tem bastante parentesco com "Chandelier", a faixa que abre o novo CD da moça. O que vem a seguir são mais "power ballads", em graus diferentes de animação. Mas o que me chamou mais a atenção foi o fato de Sia deliberadamente se esconder. Não aparece na capa, nem no encarte, nem no clipe. Talvez porque não seja exatamente uma beldade... Mas claro que é refrescante termos pelo menos uma cantora no pop atual que não use a própria bunda imagem para se vender.