sexta-feira, 24 de outubro de 2014

À TOUT À L'HEURE

Comprei só 11 discos nessa viagem. Quase 200% a menos do que no meu périplo por Turquia e Grécia no ano passado. Mesmo assim, podia ter adquirido quase tudo antes na iTunes Store. Mas, e o frisson de entrar numa loja e me deixar seduzir por esquisitices? Só que sobrou quase que só a FNAC e mais nada (a Virgin da Champs-Elysées, minha favorita, não está mais entre nós). Foi lá que fiz uma pequena festa, incluindo o novo da Yelle. "Complètement Fou" parece ter sido gravado nos anos 80, o que não é ruim, mas mostra que o pop francês está precisando de novidades. Depois eu conto o que mais estou trazendo na mala. Agora preciso fechá-la, porque meu táxi para o aeroporto chega daqui a pouco.

LA PROMENADE DES SOURIS

Eu sonhava em conhecer a Promenade Plantée desde que ela serviu de cenário para uma cena de "Antes do Por-do-Sol", a segunda parte da mais longa D.R. da história do cinema. Esse parque suspenso construído sobre uma antiga estrada de ferro é um antepassado direto da High Line de Nova York e - quem sabe - do Minhocão de SP daqui a alguns anos. Hoje finalmente realizei meu sonho, que quase virou pesadelo. Segui a Ópera da Bastilha pelo lado mais perto da margem do rio até encontrar a primeira escada de acesso. Mal subi, ouvi uns barulhos na folha. Um esquilinho? Um rato. E outro. E outros. Todos sem medo, andando com calma para lá e para cá. Logo adiante, um senhor sentado no banco examinando uma ferida na perna. Uma mordida. Au revoir, à beintôt, desci na primeira saída.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

GRAND ET PETIT

Até hoje de manhã, eu havia entrado uma única vez no Grand Palais, aquele magnífico pavilhão de ferro e vidro construído para a Exposição de 1900, bem no meio da Champs-Elysées. Foi numa mostra sobre Maria Antonieta em 2008, numa galeria lateral. Hoje finalmente consegui conhecer o imenso salão principal. Uma amiga brasileira que é marchande nos arranjou convites para a Fiac (Feira Internacional de Arte Contemporânea), um dos maiores encontros de galerias e colecionadores do mundo inteiro. Todas as fodonas estão lá: White Cube, Gagosian e até... House of Gaga. Já disse algumas vezes aqui no blog que tenho preferido este tipo de evento às bienais, porque neles o melhor da arte que se faz hoje vem meio sem filtro e quem faz a curadoria (mental) é o visitante. Fora que o público ultra-branché é uma atração à parte.

Depois atravessamos a rua rumo ao Petit Palais, uma novidade absoluta para ambos. E deixamos nossos queixos caírem com a époustouflante retrospectiva dos cristais Baccarat. São tantos copos, lustres e objetos expostos em fundo escuro e sob luz dramática que o efeito é o de uma grande instalação fantasmagórica. Fica em cartaz até o dia 4 de janeiro do ano que vem. Programa certeiro para quem vier com a mãe em Paris: nunca vi tantas senhoras juntas, mais assanhadas do que se estivessem numa liquidação das Galeries Lafayette.

DEZ TIPOS DE PRESUNTO COZIDO

Fazer compras de comida na França é um experiência fantástica e frustrante ao mesmo tempo. Fantástica porque a variedade dos produtos oferecidos supera a de qualquer hipermercado brasileiro. Numa biboca do banlieue, certa vez eu contei mais de dez tipos de presunto cozido (fora os crus, os temperados, os outros frios...). Achei que ia morrer quando entrei na Barthélemy, uma pequena loja de queijos na rue de Grenelle, cujo interior é dominado por uma poeira aromática capaz de perfurar as narinas mais sensíveis. E quase pirei o cabeção quando, por indicação de uma amiga, conheci a Grande Épicerie de Paris, nas esquinas das ruas de Sèvres e du Bac (na mesma quadra e lado que a famosa capela). Mas também saí frustrado, porque, apesar da nossa natureza exuberante, ainda estamos a alguns anos-luz dessa cultura gastronômica. Nem as boulangeries francesas que andam brotando no Rio e em SP conseguem fazer um pão tão bom quanto os daqui, e a explicação é simples: nossos ingredientes são medíocres. Farinha ruim, manteiga ruim, leite ruim e assim por diante. Sei que devo estar soando como um coxinha-imperial ao reclamar dos brioches num país onde ainda existe tanta desigualdade, mas o meu objetivo é mais alto. Quero brioches para todom mundo, e também champagne, caviar e dez tipos de presunto cozido.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

MINHA CAABA

Hoje parti em peregrinação a uma espécie de Meca pessoal. Tomei um trem de Paris para Bruxelas e de lá peguei outro rumo a Louvain-la-Neuve, pequena cidade universitária a 25 quilômetros da capital belga. É lá que se ergue o santuário a um dos meus maiores ídolos: Hergé, o criador do Tintin. Um museu desenhado pelo arquiteto francês Christian de Portzamparc (o mesmo da Cidade das Artes no Rio de Janeiro), com janelões nas laterais que parecem quadrinhos num página. Ou melhor, bande dessinée, a insuperável expressão francófona para a chamada "nona arte". E arte é o que não falta: a mostra inclui pranchas originais, influências, rascunhos, filmes, revistas, objetos reais e imaginários (o fetiche arumbaia!) e até parte da coleção de pinturas modernas que Hergé possuía, inclusive seu retrato pintado por Andy Warhol. Para mim foi um mergulho na minha própria formação. Porque Tintin é isto: uma maneira maravilhosa de se descobrir o mundo. Eternamente curioso, corajoso e assexuado, o jovem "repórter" (que só nas primeiras aventuras foi visto escrevendo reportagem alguma) quase não tem personalidade, permitindo que qualquer leitor se projete nele. Eu conheço todos os álbuns de cor e salteado, então imagina os orgasmos mentais que eu tive ao vê-los materializados à minha volta neste pequeno museu. Claro que eu já sabia de muita coisa que estava sendo dita pelo audioguide e pelas legendas das vitrines. Sou tintinólogo há mais de 30 anos e devo ter lido uns 20 livros sobre o assunto. A visita se completou com um pulo na lojinha, a mais bem fornida de camisetas, chaveiros e bonecos que eu jamais sonhei. Estou muitos euros mais pobre na carteira, mas alguns milhões mais rico por dentro. Só há um Deus que é Tintin e Hergé é seu profeta.

PERDIDO NA TRADUÇÃO

E aí você acha que esmerilha no francês, até o momento em que é confrontado com uma comédia contemporânea sem legendas. Olha, eu entendi bem a história de "Un Dîner d'Adieu" ("Um Jantar de Despedida", em tradução livre), mas confesso que perdi boa parte das piadas que faziam a plateia se esborrachar de rir. A peça é o novo megasucesso de Alexandre de la Patellière e Matthieu Delaporte, os autores de "Qual É o Nome do Bebê" - que também nasceu no teatro antes de se tornar um filme de enorme sucesso na França. Aqui, a história gira em torno de um casal burguês que quer se livrar de um amigo mala; este descobre as artimanhas da dupla e fica mais mala ainda. Os atores são todos fenomenais e o texto é um tiroteio verbal. Eric Elmosnino, que fez Serge Gainsbourg no cinema, tem um "bife" de dez minutos onde fica gaguejando e procurando as palavras certas depois de ser pego no flagra, um autêntico tour de force. Mas o espetáculo foi um substituto pobrezinho para "Kinship", com Isabelle Adjani e Carmen Maura. Eu já havia comprado ingressos para este quando recebi o aviso de que a estreia havia sido adiada, hélàs, provavelmente por causa do nervosismo de mlle. Adjani. Enfim, é sempre uma experiência luxuosa ir ao teatro em Paris. Mas antes da próxima vez eu talvez deva dar uma passadinha na Aliança Francesa.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

MON CARNET D'EXPOSITIONS

O bom de passar tantos dias em Paris é que posso estar flanando e de repente entrar numa exposição que eu nem sabia que existia. As que eu vi até agora:

LES BORGIA ET LEUR TEMPS - 
até 15 de fevereiro de 2015 no Musée Maillol
A família proto-mafiosa não sai de moda. Depois de inspirar duas séries de TV, os Borgias agora ganham uma exposição no pequeno museu Maillol, pertinho da rue du Bac. Tem telas de Michelangelo e Leonardo da Vinci, muita arte sacra e boas explicações sobre o contexto político da época. Termina com cartazes de filmes sobre Lucrécia Borgia e figurinos para a televisão.

SAINT-LOUIS - até 11 de janeiro na Conciergerie
O rei-santo, uma das pedras fundamentais da França, ganha uma exposição didática na apavorante Conciergerie, a prisão de maria Antoineta.


INSIDE - até 11 de janeiro de 2015 no Palais de Tokyo
Ah, a falta que faz uma boa curadoria... Essa mostra temática deixa no chinelo quase toda a Bienal que está em cartaz em São Paulo. Inclusive tem a participação de brasileiros como Marcius Galan, que fez um incrível espelho falso.

MAROC MEDIÉVAL - UN EMPIRE DE L'AFRIQUE A L'ESPAGNE
até 19 de janeiro de 2015 no Musé du Louvre

Os subterrâneos do Louvre sempre têm alguma exibição temporária interessante. Dessa vez são centenas de objetos dignos das Mil e Uma Noites, como um sino espanhol capturado por um sheik marroquino e transformado em lustre. Uma mostra sobre a ilha grega de Rodes estreia em novembro e também segue até o começo do ano que vem.

MARCEL DUCHAMP - LA PEINTURE, MÊME
até 5 de janeiro de 2015 no Centre Pompidou

Um mergulho não só na obra como no entorno de um dos artistas mais influentes de todos os tempos. Além dos "praticáveis" e da inevitável Mona Lisa de bigode, há fotos de Man Ray, filmes de Meliés e toda uma ambiance da Paris de antes da 2a. Guerra, muito mais moderna do que hoje em vários sentidos. Uma cidade que realmente H. O. O. Q. (entendeu? entendeu?)

ROBERT DELAUNAY - RHYTHMES SANS FIN, 
até 12 de janeiro de 2015 no Centre Pompidou
Uma pequena retrospectiva desse pintor francês do começo do século passado, que tinha uma visão pra lá de otimista dos avanços tecnológicos. Os quadros de Delaunay "transbordam modernidade", segundo o próprio catálogo da mostra. E capturam o entusiasmo trazido por inovações como a luz elétrica, os automóveis e a aviação. Algumas telas parecem se movimentar sozinhas. Bônus: os posters e projetos da Exposição Universal de 1937.
GARRY WINOGRAND -
até 8 de fevereiro de 2015 no Jeu de Paume

Ao longo de sua carreira, este fotógrafo americano já falecido foi transformando suas imagens jornalísticas em verdadeiras obras de arte. Focando na vida cotidiana de Nova York e de alguns poucos outros lugares, sempre nos EUA, Winograd conseguia flagrantes tão surrealistas que pareciam posados. Uma retrospectiva completa de seu trabalho ocupa quase todo o pequeno Museu do Jeu de Paume, que anotgamente hospedava boa parte das obras do século 19 hoje à mostra no Musée d'Orsay. Que, por sua vez, está com uma exibição temporária inspirada no Marquês de Sade... Haja disposição.


Ainda tenho alguns dias pela frente, portanto esa lista pode aumentar.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

EGOÏÏÏÏÏSTE

Estou exausto & bêbado & exultante & etcétera depois de um dia intenso e de um inesquecível jantar de NOVE pratos num pequeno restaurante chamado Roseval. Não tenho a menor condição de escrever nenhum texto profundo, mas quero deixar registrada aqui minha eterna admirção por Jean-Paul Goude. Esse artista francês, responsável pelo visual de Grace Jones nos anos 80, está com algumas obras expostas no Beaubourg (prometo que depoi eus faço um post mais extenso sobre as muitas exposições que ando vendo aqui em Paris). Entre elas está este comercial incrível de mais de 20 anos atrás, inteiramente rodado no Brasil. E agora bonne nuit, porque meus pés estão me matando. Amanhã tem mais.

O SERRALHO A QUATRO

Tantos anos vindo a Paris, e eu jamais tinha posto os pés na Ópera - hoje mais chamada de Palais Garnier, por causa da nova ópera da Bastilha. Mas eu não queria pegar uma dessas esxcursões de turistas que visitam o auditório vazio. Queria ver um espeáaculo, de preferência uma ópera mesmo, de preferência uma que eu nunca tivesse visto. E consegui: depois de muito penar na internet, acabei comprando diretamente da bilheteria dois ingressos para o quarto andar, quase na torrinha. Com visão parcial do palco e ainda por cima uma lésbica masculina na minha frente, debruçada sobre o espaldar. Mas a ópera em si foi boa, se bem que não sensacional. A atriz Zabou Breitman deu um ar de filme mudo a "O Rapto do Serralho" de Mozart, ajudada por dançarinas do ventre, cantores jovens e magros que realmente tinham o physique de seus papéis e um "mar" que parecia se mexer de verdade. A música contém alguns quartetos dificílimos mas nenhuma ária famosa, e é sempre engraçado ver personagens turcos cantando em alemão. Uma montagem eficiente porém convencional, que não conseguiu ofuscar a opulência do próprio Palais. Matriz inspiracional dos Municipais do Rio e SP, a Ópera de Paris é a nave-mãe. Toda bicha fina precisa tê-la no currículo.

domingo, 19 de outubro de 2014

ELECTRIZANTE

Eu nunca tinha visto uma peça do teatro grego clássico. Claro que conheço as histórias de Édipo, Medéia e sua turma, mas assistir a uma montagem? No Brasil elas são raríssimas. Talvez porque a gente imagine o teatro grego como aquela chatice sem tamanho onde atores de máscara falam sozinhos ou com os deuses, e um coro também mascarado faz comentários sem enxo até que todo mundo morre no final. Mas, como qualquer clássico, um texto de Sófocles pode ser adaptado – até “modernizado” – sem perder a sua essência. É o que acontece com a versão de “Electra” que eu tive o privilégio de ver no lendário teatro Old Vic, um dos mais tradicionais de Londres. E, no papel-título, ninguém menos que uma das minhas atrizes favoritas EVAH, a divina Kristin Scott-Thomas. Que não decepciona. Com cinquenta anos e uns trocados, ela consegue se transformar numa adolescente raivosa (Electra tem uns quinze) que quer matar a própria mãe, porque esta matou o pai, porque este matou a outra filha. Sim, a Grécia antiga era barra pesadíssima, e tragédias em série como estas podem nos parecer distantes no tempo. Mas a condição psicanalítica de Electra é tão comum que se transformou, graças a Jung, na contrapartida feminina do complexo de Édipo. Voltando à peça: com um cenário simples porém impactante, figurinos despojados e música de P. J. Harvey, essa “Electra” é uma pedrada. O elenco inteiro está perfeito, mas Kristin – que se descabela, se espoja no chão, grita feito uma desesperada e ainda faz a plateia rir – entrou para o panteão das deusas que eu já vi no palco, como Vanessa Redgrave, Maggie Smith e Isabelle Huppert. Obrigado, papai do céu, por reconhecer que eu tenho sido um bom menino.

sábado, 18 de outubro de 2014

MÁS-VINDAS

Bem que o papa Francisco tentou. Mas a bispaiada reunida no Sínodo do Vaticano parece que não leva a sério o dogma da infalibilidade papal. Os parágrafos que davam boas-vindas aos gays foram retirados do documento final do encontro, pois não alcançaram os dois terços dos votos necessários. É o que dá tentar transformar a Igreja numa democracia... Mas Francisco faz questão de que a versão original, a sua, também seja publicada, como que para deixar bem claro de que lado ele está. Tem toda a razão: enquanto a Igreja não receber os homossexuais de braços abertos, sem restrições, não dá nem para passar perto.

FILIPINO LINE DANCING!


Quatro anos atrás, David Byrne e Fatboy Slim lançaram a trilha sonora de "Here Lies Love", uma ópera-disco sobre a vida da ex-primeira dama filipina Imelda Marcos. Na época amei o disco, mas achei que jamais teria chance de ver o espetáculo montado. Tive: fiquei sabendo que ele estrearia em Londres, e incluí um rasante na capital inglesa nesta minha viagenzinha só para poder vê-lo. Não me decepcionei. O libreto não é grande coisa dramaturgicamente - a história é contada em linha reta, sem nenhum artifício - mas a direção de Alex Timbers é excepcional. Uma das salas do complexo do National Theatre foi reformada para se parecer com uma boate, e eu fiz questão de estar na plateia em pé, na "pista", bem no meio do fuzuê. Tive que me incorporar à peça e aprender o filipino line dancing, uma versão asiática do antigo hustle. É fácil: left, right, left right, up, down, up, down... Mesmo assim, algumas velhinhas sacudidas dançavam muito melhor do que eu. Tudo isto enquanto plataformas se formam e se desmancham à nossa volta, com os atores rodopiando bem na frente dos nossos narizes. O elenco, todinho de ascendência oriental, é nada menos que fantástico. A protagonista Natalie Mendoza consegue a proeza de cantar e dançar maravilhosamente e ser ainda mais bonita que a Imelda original quando jovem (a atriz que aparece no vídeo acima não é ela, é a da montagem de Nova York). "Here Lies Love" foi uma das experiências teatrais mais incríveis que eu tive na vida. Valeu a pena ter esticado até Londres.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

POR QUE VOCÊ NÃO GOSTA DE MING?

O nome Ming virou sinônimo de vaso precioso no Ocidente, e portanto de desastre. É só aparecer um vaso da dinastia Ming num filme que - pode apostar - dali a alguns segundos ele irá se espatifar no chão. Mas os Ming eram muito mais que isso. Reinaram sobre a China durante 300 anos, logo após o domínio mongol, e transformaram o país no maior e mais poderoso do planeta. Seus navegadores chegaram até a África e talvez à América; seus artistas atingiram um nível de refinamento jamais igualado. O British Museum está exibindo uma mostra que cobre apenas 50 anos desse período glorioso, e eu, que vim a Londres para ver duas peças de teatro, aproveitei a manhã para visitá-la. Claro que é deslumbrante e instrutiva. Serviu até para aliviar um pouco da birra que eu tenho hoje em dia da China. Depois fui dar um alô aos "Elgin Marbles", aqueles pedaços do Partenon que os ingleses roubaram no século 19 e que a Grécia quer de volta. Como estive no Museu da Acrópole no ano passado, agora a visita se completou. Ainda visitei uma exposição chamada "Ancient Lives, New Revelations" sobre múmias egípcias, e mais nada. Há mais de trinta anos, quando vim a Londres pela primeira vez, passei um dia inteiro no British e não vi tudo. Talvez precisasse de uma semana toda para explorá-lo, mas quem tem tempo?

A MÃE DE TODAS AS BATALHAS


Xavier Dolan chegou lá. Esse diretor canadense de apenas 25 anos causou celeuma com sua estreia cinco anos atrás, o emocionalmente violentíssimo “Eu Matei Minha Mãe”. Seus filmes seguintes não repetiram o mesmo impacto, mas agora ele retoma o tema do primeiro: “Mommy” também trata da conturbada relação entre mãe e filho. Só que dessa vez o garoto não é gay, ou pelo menos ainda não – há uma cena rapidíssima que sugere que ele se interessa por outros rapazes, mas é só. Seu problema na verdade é um DDA ao extremo, que lhe confere um comportamento agressivo e sucessivas temporadas em reformatórios. Dolan filma quase tudo em tela quadrada, o que dá sensação de claustrofobia ao espectador. Mas de vez em quando o quadro se abre e respira, e o efeito dramático é poderoso. Se estivesse falando inglês, a atriz Anne Dorval já seria barbada para o Oscar. Mas ela fala aquele incompreensível francês do Canadá, e eu só entendi o filme porque havia legendas em francês “normal”. “Mommy” ganhou um prêmio em Cannes, é o representante de seu país no Oscar de filme estrangeiro e acabou de passar no Festival do Rio, mas ainda não tem estreia anunciada no Brasil. Tomara que entre logo em cartaz: acho que é o melhor filme que eu vi este ano até agora.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Ô MARIE CONÇUE SANS PECHÉ

Quatro anos atrás, quando estive com minha mãe em Paris, tive que levá-la à famosa Capela da Medalha Milagrosa ns rue du Bac. Mamãe comprou uma baciada de medalhinhas para distribuir no Brasil. Agora volto à cidade, e adivinha o que mamãe encomendou? Mais medalhas. Na outra vez fiquei esperando no táxi; nessa, tive que entrar na igrejinha, que é bastante sem graça. Foi lá que, em meados do século 19, uma freira chamada Catarina Labouré recebeu a visita da Virgem Maria. Acho fabuloso acreditarem na palavra de uma única pessoa sem nenhuma outra testemunha, mas o fato é que a história colou. E acabou ajudando na promulgação do dogma da Imaculada Conceição, aquele que prega que Maria também foi concebida sem pecado. A capela da rue du Bac tem uma espécie de megastore de medalhas, em várias cores e tamanhos. Comprei um sortimento de três modelos diferentes, para mami fazer sucesso no cabeleireiro. E aproveitei para pedir uma graça. Vai que, né?

P.S: Além de Catarina, que foi canonizada, há uma outra santa enterrada na capela. Ela se chama... Luisa Marillac. Será a padroeira dos bons drink?

DISCURSO SALGADINHO

Em 2002, Lula conseguiu se eleger presidente graças a uma das campanhas mais fofas de todos os tempos. Era o famoso "Lulinha Paz e Amor" criado por Duda Mendonça: um candidato sem ressentimentos e cheio de otimismo, que seduziu o Brasil com suas promessas de um futuro risonho. Doze anos depois, o discurso do PT mudou - ou voltou ao que era antes de chegar ao poder. Para atiçar a militância, tornaram-se cada vez mais comuns expressões como "elite branca" e a famigerada "coxinha". Acontece que isto só prega aos convertidos. Não consegue um único votinho a mais para o partido. Ao contrário: aliena boa parte do eleitorado, que já não se sentia representado e agora se vê ofendido. E isto num momento em que cada voto pode ser fundamental. Mas enfim, bem feito. O PT só está colhendo o que plantou.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

O GABINETE DAS CURIOSIDADES

Não dormimos quase nada no avião, mas isto não nos impediu de andar por Paris das onze da manhã às seis da tarde. A cidade é plana e cheia de segredos a céu aberto. Hoje mesmo descobrimos as que talvez sejam as mais antigas casas parisienses, dtando do século 13: ficam na rua François Miron, pertinho da igreja de Saint-Paul-le-Marais. Nossa promenade teve muitas outras paradas, mas a mais bizarra foi na Deyrolle. Trata-se de uma loja de taxidermia que funicina no mesmo endereço desde 1831. Eu estava esperando um lugar escuro e empoeirado, mas encontrei quease que um centro cultural. Desde que um incêndio quase a destruiu no começo do século passado, a Deyrolle costuma fazer parcerias com artistas plásticos para levantar fundos para si mesma e para organizações de caridade. O astro especialmente convidado dessa vez é o enfant terrible britânico Damien Hirst - uma escolha natural, já que ele assina algumas dezenas de obras que usam animais empalhados. Ele criou uma obra com o singelo nome de "Significação (Esperança, Imortalidade e Morte em Paris, Ontem e Hoje)" que na verdade retoma a antiga tradição dos gabinetes de curiosidades. Misturando bichos do acervo da loja com produtos de limpeza, Hirst causa estranheza, horror e fascinação ao mesmo tempo. Exatamente como o cenário ao redor. O gabinete está sendo leiloado pelo site Paddle8 até dia 28 deste mês. Se você tiver gosto pelo mórbido e for muito rico, esta é a sua chance de aumentar sua coleção.

AM I HERE? IS IT REAL?

Vi "Cinderela em Paris" pela primeira vez em 1978, na "Sessão da Tarde". Alguns meses depois, calhou de eu ir a Paris também pela primeira vez. Com o filme na cabeça, toquei pra Torre Eiffel crente que eu iria cantar e sapatear no elevador como Audrey Hepburn e seus amigos. Qual o quê: já naquela época o troço vivia abarrotado, e eu só consegui mentalizar um "Bonjour Paris". Sem nenhum passinho sequer da coreografia que eu havia ensaiado. Hoje aterrissei na cidade com a mesma trepidação de 36 anos atrás, porque Paris não se esgota nunca. Tem sempre coisas novas para ver e antigas para rever. Uma mistura delas é o novo piso transparente do primeiro andar da Torre Eiffel. Terei saco, tempo e coragem para enfrentar as hordas mal-lavadas, só para tirar um selfie lá?

terça-feira, 14 de outubro de 2014

TU T'CROIS DANS DU CHAMPAGNE

Pode começar a me odiar (mais). Estou embarcando daqui a pouco para Paris, para comemorar 24 anos de casado e 54 de vida. Serão dez dias longe das brigas sobre o segundo turno, ou talvez não - parece que o Facebook já pega por lá. Mas isto não impede que eu esteja borbulhando por dentro, como a vedete do filme "Retratos da Vida". T'es dans ta bulle, tu t'crois dans du champagne...

DESENHO EM CARNE E OSSO


O primeiro longa-metragem em "live action" de Sylvain Chomet é tudo aquilo que se espera de um diretor que fez carreira na animação: "Attila Marcel" parece um desenho animado com atores de carne e osso. As cores fortes, as atuações um tom acima, o uso da música e até a presença de um cachorro gigantesco fazem lembrar "As Bicicletas de Belleville" e "O Ilusionista", duas obras-primas que foram indicadas ao Oscar. Aqui o resultado não atinge esse mesmo patamar, mas o filme é agradável. E cheio de boas ideias, como uma luta-livre num ringue entre marido e mulher. O protagonista é um pianista mudo criado pelas tias solteironas, que não se lembre da morte dos pais (o título do filme é o nome do pai, um famoso lutador). Com a ajuda de uma vizinha excêntrica, o rapaz consegue reconstituir o que de fato aconteceu. Mas tudo isso em meio a números musicais bizarros e um clima de alegre ironia no ar, apesar de alguns momentos mais sombrios. "Attila Marcel" ficaria ainda melhor se perdesse uns vinte minutos, mas tem muitos encantos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O MÉDICO E OS MONSTROS


O erro começou nos anos 80, quando o best-seller internacional de Noah Gordon, "The Physician", foi traduzido no Brasil como "O Físico". Quase 30 anos depois a história chega ao cinema, e o tradutor manteve o mesmo erro, talvez para atrair os fãs do livro. "Physician" quer dizer "médico" em inglês, e o saber praticado pelo protagonista da história tem de fato muito pouco a ver com a física. Ele é um órfão inglês da Idade Média que primeiro se torna assistente de um curandeiro viajante, e depois vai para a Pérsia estudar com o lendário Ibn Sina (Avicena no Ocidente), evidentemente interpretado por Ben Kingsley, o exótico de plantão de Hollywood. Cenários e figurinos são suntuosos, graças à ajuda dos efeitos digitais, e o roteiro se afasta da trama original ao fazer dos vilões uma seita muçulmana fundamentalista precursora do ISIS. "O Físico" foi um enorme sucesso de bilheteria na Europa, mas está passando sem muito alarde por aqui. Não chega a ser empolgante, mas tem lá seu interesse como reconstituição de uma época remota. Além da mensagem de tolerância religiosa, cada vez mais atual.

O ESTADO DE GRAÇA

Tem muita bobagem sendo dita nas redes sociais a respeito dos dois candidatos à presidência. Uma das mais persistentes é a de que Dilma teria "rompido" com a bancada evangélica, e portanto estaria livre para propor leis simpáticas aos LGBT. É verdade que figuras bastante visíveis como o Feliciano ou o Malafaia (que nunca ocupou cargo público) aderiram ao Aécio. Mas o líder neopentecostal mais poderoso politicamente do Brasil, Edir Macedo, continua fechadíssimo com o PT. Ele praticamente tem um partido, o PRB, cujo candidato ao governo do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, faz questão de dizer que é mais pró-Dilma do que Pezão (formalmente, ambos são). E a IURD tem seus membros infiltrados em quase todos os partidos. Aliás, essa é uma tática evangélica: nem o PSOL escapou de ter um pastor afiliado. Então, devemos resistir à tentação de achar que o mundo rachou ao meio, com os bons de um lado e os maus do outro. Os teocratas são oportunistas, e vão aderir em massa ao próximo presidente, seja lá quem for. Mas não por ideologia. Essa turma só quer criar dificuldades para vender facilidades, e bem caro.

domingo, 12 de outubro de 2014

QUADRINHOS QUE SE MOVEM

A crítica especializada está baixando o pau em "Sin City: a Dama Fatal", a segunda transposição dos quadrinhos de Frank Miller para o cinema. Co-dirigido pelo autor e por Robert Rodriguez, o filme é ainda mais violento e exagerado que o original, de 2005. Sin City é um lugar onde todo homem é um bandido sanguinário e toda mulher uma piranha gostosa: uma fantasia adolescente que consegue ser engraçada até para um senhor de meia-idade como eu. O segredo é o tratamento das imagens, em preto-e-branco com alguns flashes de cor, além da decupagem frenética que segue a diagramação dos gibis e o elenco salpicado de estrelas. Lady Gaga faz uma ponta rapidíssima, mas quem rouba a cena é a francesa Eva Green, a dama do título e protagonista do poster acima, que foi proibido nos Estados Unidos porque mostra peitinho demais. Claro que esse "Sin City 2" é uma bobagem colossal, mas é muito divertido. E sua chegada às telas brasileiras compensa o fato de "Machete Mata", o trabalho anterior de Rodriguez, ter saído por aqui apenas em DVD.

sábado, 11 de outubro de 2014

DOIDONA O TEMPO TODO


Depois dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, a Suécia é o país que mais lançou estrelas do pop internacional - muito mais do que França ou Itália, talvez porque lá ninguém tem prurido de cantar em inglês. Desde que surgiu o ABBA, o país virou um celeiro de compositores de melodias agradáveis. Hoje eles alugam seus serviços para gente como Britney Spears ou os concorrentes do Eurovision, seja lá de que país forem. E também fornecem material para revelações locais como Tove Lo, que está subindo nas paradas com "Habits (Stay High)". A novidade dessa música é que a droga não é usada como metáfora, tipo "estou viciada em amor"; aqui são drogas mesmo. Mais ousado ainda é o clipe, acho que o melhor do ano até agora. "Queen of the Clouds", o disco recém-lançado, parece uma coleção de grandes sucessos; quase todas as faixas poderiam tocar no rádio. Estamos longe dos experimentalismos de novatas como Banks ou Jhené Aiko, mas pelo menos Tove Lo não segue a linha cachorra-no-cio da maoria das americanas. Ela agora vai abrir os shows de Katy Perry na Austrália. Em breve a veremos por aqui, aposto.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O ÚLTIMO FAVELA MOVIE


"Cidade de Deus" foi um sucesso estrondoso no mundo inteiro e influenciou o cinema brasileiro por mais de uma década. Foram tantos os filmes que seguiram o caminho aberto pelo de Fernando Meirelles que se cunhou até um termo para defini-los: favela movie. A onda arrefeceu quando o público, cansado de ver tanta miséria e violência na telona, migrou para as comédias de costumes. Esgotado no Brasil, o gênero tem talvez seu último suspiro com "Trash", uma co-produção internacional dirigida pelo britânico Stephen Daldry. A história não tem nada de intrinsicamente brasileira, tanto que cogitaram rodá-la na Índia. Mas aí talvez ficasse parecido demais com "Quem Quer Ficar Milionário?", que levou uma penca de Oscars em 2009. Do jeito que está, "Trash" parece uma versão pré-adolescente de "Cidade de Deus", misturando crítica social com um plot de caça ao tesouro digno das aventuras de Tintim. Três crianças que vivem num lixão descobrem uma carteira jogada fora com números misteriosos; aos poucos juntam as peças do quebra-cabeças e chegam a uma grande fortuna, roubada por um funcionário de um político também ladrão. Os atores mirins são excepcionais como esperávamos que fossem, mas o filme patina quando eles têm que falar inglês com os personagens de Rooney Mara e Martin Sheen. Estes, por sua vez, falam um português decorado, que não soa nada como falariam estrangeiros que morassem aqui há algum tempo. Mas a maior falha do roteiro é uma aparição fantasmagórica perto do final, que se torna ainda menos plausível quando entendemos que não se trata de um fantasma. Ainda assim, "Trash" é muito bem feito e interessante. Mas dificilmente será indicado aos Oscars de melhor filme e/ou melhor diretor, como todos os quatro filmes anteriores de Stephen Daldry.