segunda-feira, 3 de agosto de 2015

CABEÇADA NA PAREDE

Logo depois de lançar com pompa o número comemorando seu 20o. aniversário, a revista gay francesa "Têtu" (que quer dizer "teimoso" ou, hmm, "cabeçudo") anunciou seu fechamento. Como presente de despedida, a edição derradeira pode ser baixada inteiramente grátis do site. Que talvez continue: a "Têtu" está procurando um novo dono, que lhe garanta sobrevida online. Tomara, porque, ao lado da americana "Out" e da britânica "Attitude", a "Têtu" era uma das três grandes publicações voltadas para o público homossexual masculino. Mas não chega a ser surpresa que ela tenha terminado. Os tempos estão bicudíssimos para qualquer coisa que se venda em bancas de jornais. Aqui no Brasil já perdi a conta de quantas já fecharam, de todos os gêneros. E pensar que há alguns anos tivemos um boom de revistas gays: de uma hora para a outra, surgiram a "Junior", a "Dom" e a "Aimé". Só a primeira sobrevive, e mesmo assim eu não tenho lhe dedicado muita atenção. Talvez porque eu não seja junior: me encaixava muito mais numa outra revista da mesma turma, a "H", com a qual eu tive o prazer de colaborar e que infelizmente durou pouco mais de um ano. Um dos problemas crônicos foi a falta de propaganda, que raramente furava o cerco de produtos e serviços dirigidos ao "mundinho". E ainda teve a épica "G Magazine", que em sua última fase diminuiu os paus duros e tentou ser fina como a concorrência, mas não adiantou. Putaria hoje em dia a gente vê na internet, e as notícias circulam nas redes sociais. Quase nem existem mais blogs... Mas eu vou continuar escrevendo, vou continuar dando cabeçada, nem que meu último leitor seja a Monotemática.

domingo, 2 de agosto de 2015

A SELVA DELES


Se me falam "Paraná", eu penso em araucárias, muito frio e descendentes de poloneses. Os argentinos pensam em coisas diferentes: o rio Paraná é o Amazonas deles, e a província de Misiones, que faz fronteira com o Brasil, é a selva. Em mais de um sentido, pelo que se vê no filme "O Ardor", em exibição no Festival de Cinema Latino-Americano em São Paulo. A história já começa com tiros por causa de um conflito de terra que nunca é explicitado. Não importa: o que interessa é a violência. Mas o roteiro peca ao deixar bem claro que um lado é totalmente bom e o outro totalmente mau. E a direção (também de Pablo Fendrik) é sutil feito um golpe de peixeira na jugular. A trilha sonora bombástica funciona com um spoiler para quase todas as cenas de tensão - taraaaaaaaaam... POU! Pelo menos os atores estão intensos e lindos. Gael García Bernal continua com ar de moleque e Alice Braga, com quem eu impliquei outro dia, dessa vez tem poucas falas e muitos olhares significativos. Apesar de ser uma co-produção com o Brasil, "El Ardor" ainda não tem data de estreia por aqui. Na boa: não vai fazer falta.

sábado, 1 de agosto de 2015

ASSUMINDO-SE HÉTERO


A fluidez sexual está na moda. De certa forma, é o oposto do conceito "born this way": um dia você pode gostar de uma coisa, no outro dia de outra, e ninguém tem nada a ver com isto. Quer dizer, alguém tem: aqueles a quem machucamos quando mudamos de ideia. O filme francês "Beijei uma Garota" parte dessa premissa interessante, e tenta ser uma comédia. Mas, não sei se por pudor ou por falta de talento mesmo, os roteiristas não exploraram direito o potencial cômico de um gay que transa com uma mulher pela primeira vez. O protagonista é lindo e mora há 10 anos com outro cara mais lindo ainda; no entanto, bastará uma noite com uma desconhecida bêbada para ele questionar toda sua vida. Aí o filme se propõe um desafio, pois tem que encontrar uma maneira de sair dessa situação sem resvalar na caretice. Se o cara larga do namorado para ficar com a mulher, estará celebrando a heteronormatividade. Se ficar com o namorado, estará reforçando a rigidez sexual. Sinto dizer que a solução encontrada não resolve bem este dilema. Mas o pior é mesmo o caráter do nosso herói, que conta mentiras a torto e a direito que seriam imperdoáveis para um hétero. "Beijei uma Garota" é uma bobagem.

sexta-feira, 31 de julho de 2015

HAVAS NAGILA HAVAS


Voltei a me encantar com uma voz feminina depois de um bom tempo só ouvindo marmanjos. A responsável pela minha cura gay auditiva é a britânica Lianne La Havas, filha de pai grego com mãe jamaicana. O som dela não traz novidades, mas é perfeito para se ouvir rolando entre lençóis. E o mais legal é que, apesar de possuir um vozeirão, a moça não é adepta da escola "The Voice". Não precisa urrar para mostrar que canta bem, o que já é um alívio.

TOCHAS E ANCINHOS VIRTUAIS

"So You've Been Publicly Shamed" é um dos livros mais importantes do ano, porque fala de um fenômeno típico da nossa era: o "tribunal da internet", um assunto recorrente na minha coluna no F5. O jornalista britânico Jon Ronson descreve com humor e leveza alguns casos que quase terminaram em tragédia. Como o de Justine Sacco, que tuitou uma piada que podia ser lida como racista antes de embarcar num voo para a África do Sul. Quando ela desembarcou 14 horas depois, seu nome era o "trending topic" no. 1 do planeta, e ela já havia perdido o emprego. Há também o cara que contou uma piada machista para um amigo e foi ouvido e fotografado por uma mulher. Ela postou a gracinha no Twitter; seguiu-se um furor sacrossanto e o tal do cara também foi demitido. Mas aí os amigos dele partiram para o ataque à mulher, e seguiu-se um novo furor e uma nova demissão. Ronson analisa os antecedentes dessa sanha moralista  e volta aos pelourinhos, usados até o século 19. Também entrevista gente que deu a volta por cima e profissionais de empresas especializadas em limpar reputações, um negócio que está bombando. Mas ele não chega a formular uma hipótese sobre esse comportamento de manada, que faz com que de repente todos nós nos sintamos autorizados a avancar com tochas e ancinhos virtuais sobre uma pessoa que nem conhecemos (o exemplo da semana é o dentista que matou o leão Cecil: pelo menos neste episódio há uma vítima concreta). Por outro lado, há uma informação interessante e que merece ser lembrada. Pessoas que alimentam fantasias assassinas (e quem não alimenta?) geralmente têm por suas vítimas imaginárias não ladrões ou estupradores, mas os malvados que as humilharam no passado - patrões, professores e "bulliers" em geral. De vez em quando alguém concretiza esses delírios, como o maluco que abriu fogo alguns anos atrás na escola carioca onde estudou. Então, cuidado na próxima vez que você for zoar alguém nas redes sociais. O recalque é a mamadeira dos "serial killers".

quinta-feira, 30 de julho de 2015

OS PALESTINOS DA TURQUIA

E do Iraque, do Irã e da Síria. Uma carta na "Folha" de hoje, assinada por um leitor de nome curdo, dizia isto. É verdade: o Curdistão é a maior nação sem estado próprio do mundo. Enquanto os árabes se dividem entre fronteiras inventadas como as de Jordânia ou Kuwait, sem o menor embasamento histórico, os curdos se espalham por quatro países que, em diferentes graus, são hostis a eles. A Turquia, por exemplo, está usando a desculpa do Estado Islâmico para bombardear os curdos que têm em seu sudeste. E quase ninguém reclama no Ocidente. Nenhum Roger Waters conclama boicote, nenhuma ONG moderninha fala em apartheid. Aliás, essa colher de chá é dada a quase todos os países muçulmanos, que têm carta branca para oprimir à vontade suas minorias. O Irã persegue curdos e azeris, o Qatar e a Arábia Saudita tratam mal seus xiitas, o Egito reprime os cristãos coptas, o Sudão mata seus negros animistas e assim por diante. Mas são causas sem o glamour de Israel versus Palestina. Ninguém está nem aí para elas. E é mais divertido encher o saco do Gil e do Caetano.

MANDA JEANS

A Calvin Klein chegou ao Brasil no final dos anos 80 com uma série de comerciais estilosíssimos, todos em preto-e-branco. Um deles foi tirado do ar porque o modelo dizia que, quando crescesse, queria ser vagabundo. Queria ver os censores terem um enfarte com essa nova campanha da marca. A verdade é que a Calvin Klein honra seu DNA: sua propaganda sempre desafiou os limites de cada época. E o próprio Calvin (que hoje não tem mais ligações com o império que fundou) sempre encarou a homossexualidade de frente, inclusive a própria. Fora que é bárbaro alguém celebrar o sexo casual e imediato, sem ter que lembrar que o amor é belo etc. etc.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

OS PRÓXIMOS FUMANTES

A morte do leão Cecil no Zimbabwe pode servir para alguma coisa: a estigmatização defintiva dos caçadores. Está mais do que na hora deles serem tratados com desprezo pelo resto da sociedade, mesmo aqueles que seguem a lei rigorosamente. Fumar também não é ilegal, e no entanto há décadas que os fumantes se tornaram uma espécie de párias. O resultado é que o fumo caiu drasticamente em todo o mundo ocidental, e hoje ninguém mais discute se ele é realmente tão nocivo assim. A caça é um bicho diferente. Acontece longe dos centros urbanos, é praticada por um número muito pequeno de pessoas e geralmente não "incomoda" ninguém. Só quando morre um animal carismático como Cecil. O simples fato dele ter um nome já muda tudo de figura: não é mais um leão qualquer, é um personagem, com história e personalidade. É um Simba, um Mufasa, alguém que a gente conhece desde que éramos pequenos, apesar de só termos ouvido falar dele esta semana. Para piorar, o dentista Walter Palmer caça grandes animais há muitos anos, e já gastou fortunas para liquisar leopardos e rioncerontes. O cara se tornou o novo inimigo no. 1 da humanidade e está sofrendo o diabo na internet, mas dessa vez acho bem feito. Não entendo o prazer da caçada e não acho que seja esporte. Creio que devia simplesmente ser proibida no mundo inteiro, ponto. Ah, e antes que me apontem o dedo: não, não sou vegetariano. Como carne e gosto. Mas matar um bicho para comer é totalmente diferente do que matar por prazer.  Já vai longe o tempo em que até meu adorado Tintin cometia barbaridades contra os animais, mas ainda falta muito a se fazer. Tomara que este episódio trágico marque uma mudança na opinião pública e que a caça, qualquer tipo de caça, seja vista com maus olhos.

ESTE ANO EU VOU SAIR DE BUDA


As animações e quadrinhos japoneses chegaram um pouco tarde na minha vida para que eu virasse fanático por eles. Mesmo assim, procuro ver todos os filmes importantes do gênero que estream por aqui, principalmente os do lendário Studio Ghibli. Agora está em cartaz "O Conto da Princesa Kaguya", que foi indicado ao Oscar da categoria. Não é um conto de fadas à moda ocidental, com curva dramática e final feliz. Mas é uma linda meditação sobre vida, morte e renascimento. Um filme profundo e religioso, mas sem proselitismo - o próprio Buda faz uma aparição deslumbrante, mas em nenhum momento os personagens se dizem budistas. Com duas horas e quinze minutos, "Princesa Kaguya" é longuíssimo para um desenho animado. Mas o ritmo não é lento: está sempre acontecendo alguma coisa. E as imagens, produzidas quase inteiramente a lápis e só com um tiquinho de computação, são de cair o queixo. Há uma cena de perseguição digna de entrar para a história. Analógico e delicado, o filme é um antídoto à maré de bichinhos histéricos e robotizados vindos de Hollywood. Encare como se fosse uma cerimônia do chá.

terça-feira, 28 de julho de 2015

PHYSIQUE DU RÔLE

Digamos que você seja o diretor de casting de um filme sobre um grande escândalo político e financeiro. Sua tarefa agora é encontrar o melhor ator para um dos papéis principais: o megaempresário poderoso e corruptor, um dos vilões da trama. Quem você escolheria? Reginaldo Faria, Hérson Capri, José de Abreu... Jamais que um personagem desses iria para alguém como Marcelo Odebrecht. O presidente de uma das maiores empreiteiras do mundo simplesmente não convence nessa função, porque não tem o physique du rôle. Ele tem é cara de professor de escola pública, de contínuo de repartição, até de militante sindical que sujaria a toalha de linho de sua mulher e pediria Marmitex. Em português claro: Marcelo Odebrecht tem cara de pobre.

DOIS CARINHAS

Tem gente que se irrita quando alguém recomenda uma música que descobriu online. Então eu vou seguir o exemplo da Preta Gil e fazer exatamente o que esse povo não gosta. Meu achado da semana é a dupla americana Ratatat, que faz pop instrumental com largas doses de eletrônica e guitarras que lembram o Queen. O álbum "Magnifique" faz jus ao nome. O clipe abaixo tem pouco mais de um minuto, mas você não é obrigado. Volta pro Candy Crush e desculpaê, foi mal.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

GOOGLE-

Os boatos sobre o fim do Google+ vem circulando desde o começo do ano. Hoje saiu a notícia de que o Google irá "migrar" todo o conteúdo de sua mal-sucedida rede social para outros produtos, o que significa que o Google+ já caiu do telhado. Por um lado, é uma pena. Quem usa costuma dizer que o Google+ é muito mais clean, prático, inteligente e melhor frequentado que o Facebook. Por outro, quem usa? Não conheço uma única alma que visite assiduamente essa mídia natimorta. Eu mesmo tenho perfil lá, mas até hoje só entrei para aceitar pedidos de amizade (não devo ter nem 100 amigos lá, enquanto que no Face já passam de três mil). O Google tentou de tudo para deslanchar sua rede. Obrigou os usuários de outros produtos a abrir conta lá e até matou o Orkut, na esperança de que seus órfãos buscassem guarida. Não rolou. Apesar do marketing maciço, o Google+ sempre pareceu uma festa onde os convidados não foram, mais flopada que a do Joe Jackson. Não vai fazer falta.

A GENTILEZA DE ESTRANHOS

Eu tinha uma lacuna no meu currículo de pessoa culta e cosmopolita. Nunca havia assistido a uma montagem de "Um Bonde Chamado Desejo", uma das peças mais importantes do século 20 - nem mesmo uma adaptação para o cinema. Este vácuo se fechou ontem, quando eu vi a incrível montagem em cartaz em São Paulo. O diretor Rafael Gomes (que também assinou uma nova tradução) fez um espetáculo intenso, cujas duas horas sem intervalo passam feito um bólido. O cenário engenhoso e o elenco competente também ajudam bastante (apesar de Du Moscovis não exalar a sexualidade brutal que Stanely Kowalski requer - imaginei Juliano Cazarré no papel). Mas quem brilha mais que tudo é Maria Luísa Mendonça, que nasceu para fazer Blanche Dubois. Agora que ela está na idade certa, é uma explosão. Loucura, tesão, fragilidade, esnobismo, todas as camadas da personagem estão lá. E a famosa frase que encerra o texto de Tennessee Williams - "eu sempre dependi da gentileza de estranhos" - é rebatida com um final angustiante e cheio de energia, que faz a plateia urrar. Quem quiser ver tem que correr: a temporada acaba no domingo que vem. É uma porrada.

domingo, 26 de julho de 2015

MULHERES SEM EIRA NEM BEIRA


O mais impressionante do filme francês "O que Querem as Mulheres" é o fato dele ter sido escrito e dirigido por uma mulher, Audrey Dana (que também faz parte do elenco). Se fosse por um homem, abririam-se as portas do inferno. Porque todas as personagens são histéricas, caricatas ou simplesmente mal-construídas. Talvez seja um pouco a lógica que diz que só judeu pode contar piada de judeu. Mas aqui as piadas não são boas, apesar da pretensão de ser uma comédia. E as historinhas, parbleu! Uma moça larga o marido, que é um santo, por uma aventura lésbica, só para ser perdoada quando leva um pé na bunda. Uma outra, gaga e cheia de tiques, vira um vulcão sexual ao dar com a cara num poste e - suprema fantasia feminina - "converte" um gay. Pelo menos não há tempos mortos, e o elenco de estrelas do cinema francês garante o interesse de "atrizsexuais" como eu. A mais vistosa é a diva Isabelle Adjani, que continua firme em seu propósito de se congelar em vida. Aos 60 anos de idade, ela mal aparenta ter 40. Mas o cabelo sempre cobre a orelha, provavelmente para esconder as cicatrizes, e ela praticamente não mexe mais o rosto. Completam o time nomes como Vanessa Paradis, Sylvie Testud, Laetitia Casta e Marina Hands, todas pouco conhecidas por aqui mas muito famosas lá na França. Essa bobajada culmina num flash mob digno de comercial de absorvente, com todas elas celebrando o prazer de se mexer, dançar e andar a cavalo mesmo naqueles dias.

sábado, 25 de julho de 2015

ÚTIL PAISAGEM

Lembro da primeira vez que eu vi uma tela de William Turner. Minha primeira reação foi, quem é esse cara? A arte inglesa sempre foi ofuscada pela francesa, e eu nunca tinha ouvido falar dele. Minha segunda reação: uau. A última fase de Turner anuncia os impressionistas e chega quase aos abstratos, com quadros que são só neblina e raios de sol. E passei a gostar dele ainda mais depois de ter assistido ao filme "Mr. Turner", que criminosamente ainda não estreou no Brasil. Por isto fiquei um teco decepcionado de ver que só vieram duas telas dele para a exposição "A Paisagem na Arte", em cartaz na Pinacoteca de São Paulo até 18/10. Ainda bem que o resto compensa: a mostra inclui obras desde o final do século 17, quando os pintores britânicos começaram a pintar paisagens como objeto e não apenas como fundo. Tem coisas de cair o queixo, como esse retrato de três meninas nobres que parece uma foto, tão espetacular que é a técnica, e algumas modernidades do século 20 que causam estranheza. Mas é tudo lindo.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

BOI DA CATTA PRETA

Não sei vocês, mas eu achei gravíssima essa história da advogada Beatriz Catta Preta abandonar de uma hora para a outra todos os clientes dela que estão envolvidos com a Operação Lava-Jato. Quem é o boi da Catta Preta? Quem foi que a assustou ao ponto de fazê-la jogar para o alto tantos clientes lucrativos, e que lhe abririam as portas para muitos outros? Dá para desconfiar que aí tem o dedinho de Eduardo Cunha, o cara mais interessado em frear as delações premiadas neste momento. Mas consta que a moça não é especialmente bem-quista no meio jurídico. Será que foi ameaçada? Ou chantageada? O que vocês acham?

SEM PRETOS DISPONÍVEIS

Alguém precisa contratar uma assessoria de marketing para os taxistas do mundo inteiro. O que estão fazendo contra o Uber só depõe contra a categoria. Em Paris, partiram para as agressões físicas no meio da rua. Em São Paulo, conseguiram aprovar medidas contra o aplicativo na Câmara Municipal. E hoje, no Rio, simplesmente estão tentando parar a cidade inteira com uma greve idiota. O Uber, mais do que rapidamente, contra-atacou oferecendo DUAS corridas grátis para seus usuários (e, mais rápido ainda, todos os carros do serviço carioca ficaram ocupados). Mas o mais interessante é ver a opinião pública se voltando contra os táxis. Que no Rio sempre foram um horror: desconfortáveis, barulhentos, com motoristas folgados e, muitas vezes, desonestos. Qual forasteiro nunca viveu uma história de horror ao sair do Santos Dumont? O Uber veio para chacoalhar essa turma, que vive uma relação simbiótica com o estado. Recebem bondades como isenções e incentivos, e em troca falam bem dos políticos de plantão (em SP até hoje tem taxista que defende o Maluf, que distribuiu carros de graça entre eles quando foi prefeito). Mas, com tantas ações impensadas, estão cavando um inimigo muito mais temível que o Uber: os próprios consumidores. Cuidado.

(Este texto de Gustavo Almeida é bastante esclarecedor, leia)

quinta-feira, 23 de julho de 2015

DRAGS VERSUS TRANS

Como qualquer cidade civilizada, Glasgow, na Escócia, tem sua parada gay há anos. Como ela é ainda mais civilizada que a maioria, por lá também existe uma programação paralela, o Free Pride, cheia de eventos gratuitos e alternativos. Mas não é que foi justamente essa turma odara que se meteu numa escaramuça de nível planetário? Talvez por excesso de odarice, veja só: para não agredir a delicada sensibilidade de algumas pessoas transgênero, a organização do Free Pride achou por bem proibir todo e qualquer show com drag queens. As drags em si não estavam proibidas de circular, só de fazer seus números. E muita gente veio defender a decisão, alegando que as malvadas fazem muitas trans se sentirem desconfortáveis ou ridicularizadas. Isto é só mais um exemplo da epidemia de mimimi que vem se espalhando pelo planeta. Principalmente entre os mais jovens que acham que o mundo nasceu com (e para) eles. A gritaria contra essa medida absurda foi tamanha que o Free Pride primeiro liberou o show das drags, contanto que elas fossem trans - nada de drags cis, que chegam em casa, se vestem de homem e desfrutam de tooodos os privilégios do sexo masculino. Mas como é que você diferencia uma drag trans de uma drag cis? Hoje em dia, nem apalpando as partes pudendas. Esse remendo também caiu, e o Free Pride finalmente liberou o show de todas as drags queens, sem mais. Fizeram muito bem. Se hoje elas parecem caricaturas para as trans mais radicais, as drags foram, desde sempre a linha de frente do movimento gay. Quando a imensa maioria das bibas morria de medo de ser flagrada, controlando trejeitos e até se casando com mulheres, lá estavam elas, dando a cara a tapa. Foram as primeiras a apanhar na revolta de Stonewall, as pioneiras das paradas gays do mundo inteiro, as mais corajosas entre todos nós. Discriminá-las agora, a essa altura do campeonato, quando tantos direitos estão sendo conquistados, é um despautério colossal. Ainda mais num EVENTO GAY!!! E justo as trans, que esquecem que muitas delas começaram a transição como drags. Esse conflito faz parte de um debate maior que vem acontecendo dentro do próprio movimento - que o Free Pride chega ao requinte de batizar de LGBTQIA+ (tô falando sério). Menos siglas, gente, e mais inclusão para valer. E menos mimimi, porfa.

PÔ MEU, ME AJUDA AÍ

Porque eu acho que tô tendo um treco. Datena, prefeito de São Paulo?? O pior é que este cenário é totalmente plausível. O PSDB não tem nenhum candidato forte para as eleições municipais do ano que vem (José Serra está se guardando para as presidenciais, hahaha). É mais do que natural que os tucanos, que estão perdendo credibilidade ao se deixarem penetrar pela extrema direita, apelem para este golpe baixo. Porque eu aposto que o Datena ganha. Talvez ocorra um duelo de titãs entre ele e o Russomano, e aí eu vou ficar bem na dúvida: me mudo para onde? O fato é que a candidatura do apresentador do "Brasil Urgente" pode reduzir a pó de traque qualquer pretensão mais à esquerda. Haddad vai ser atropelado feito um ciclista na Marginal. Marta, coitadinha, não está garantida nem pelo PSB (e se for para o PMDB eu nunca mais quero saber dela). Tá pintando que mais uma vez eu vou votar no candidato do PV ou coisa parecida, só para ter que anular. Por outro lado, é bem feito. Muita gente merece o Datena.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

AS KARDASHIANS EM DOWNTON ABBEY

"Os Flintstones" era engraçado porque mostrava uma família da pré-história vivendo com gadgets contemporâneos: carro, TV, batedeira de bolo. Uma ideia parecida está por trás de "Another Period", protagonizada por duas socialites desmioladas agindo como se já existissem selfies em 1902. Essa nova série do Comedy Central ainda não estreou no Brasil, mas muita coisa já está disponível no YouTube - aí acima, por exemplo, podem ser vistos em sequência 16 promos, trailers e até cenas completas. O melhor de todos? "Going Viral", evidentemente.

terça-feira, 21 de julho de 2015

BONDDAD OU MALDDAD?

Tenho amigos que são tietes do prefeito Fernando Haddad. Ovulam a cada ciclovia que ele tasca em São Paulo, que estaria em vias de se transmutar em Amsterdam. Outros lhe têm ojeriza e não veem a hora de defenestrá-lo. Eu confesso que tenho mixed feelings. Haddad me parece um sujeito decente, distante da ladrocracia que domina o PT. Também não duvido de suas boas intenções. Mas questiono bastante suas qualidades como administrador - posto, aliás, para o qual sua carreira de educador jamais o preparou. As famosas ciclovias me sugerem uma maneira rápida e relativamente barata de deixar uma marca na cidade, mais do que uma solução bem pensada para um problema urgente. A pichação que ele permitu nos "Arcos do Jânio" só emporcalhou um patrimônio histórico (e aquele não é Hugo Chávez tanto quanto o crucifxo que Evo Morales deu ao papa não é um símbolo comunista). Para completar, uma de suas políticas desastradas tem me atingido diretamente. Meu novo endereço é quase ideal: de um lado tenho a av. Paulista, os cinemas, o metrô, o agito todo. Do outro, ruas sinuosas quase sem movimento. Por isto mesmo, uma das esquinas da quadra onde eu moro (felizmente, do lado oposto ao meu prédio) costuma ser infestada por "noias" durante a noite. Nunca tive problemas com eles, mas sei de histórias de gente que foi assaltada e até agredida sem nenhum propósito. Isto é reflexo da (não) ação na Cracolândia, que espalhou os viciados por diversos pontos de SP. Entendo que eles são seres humanos, que merecem respeito, etc. etc. Por outro lado, tenho pensado em levar um tacape quando levo meu cachorro para passear depois que escurece.

RUMO À ESTAÇÃO FINLÂNDIA


Há um mês, quando estive em Genebra, comprei a revista "Les Inrockuptibles" - uma espécie de variante francesa da "Rolling Stone", sobre música, cultura e um pouco de política. A seção de crítica de discos estava de chorar de tão esnobe: só figuras das quais eu nunca tinha ouvido falar. Mas é para uma hora dessas que existe o Apple Music, n'est-ce pas? Encontrei lá todos os títulos que me interessaram, de Damily, um guitarrista cult de Madagascar, a Delia Gonzalez, uma pianista minimalista que só usa collant. Mas o melhor achado foi mesmo o finlandês Jaako Eino Kalevi, que tem cara de poste, canta em inglês e soa meio como David Bowie (ou melhor, como aquelas bandas dos anos 80 que soavam como David Bowie). Seu álbum homônimo, melodioso e relaxante, é difícil de classificar. Não é rock, não é eletrônico, não é dance. Acho que é pop para adultos. Só sei que eu não paro mais de ouvir.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

JOGA AS CASCAS PRA LÁ

O Brasil está sem nenhum problema sério, então boa parte da nossa energia para debates na internet foi gasta na semana passada com o tema transcendental da mexerica em gomos. A discussão logo descambou para o nome certo da fruta (como carioca, eu acho que é tangerina), mas a reação inicial de todo mundo foi a mesma: a que ponto chegamos! Olhaí o raio gourmetizador em ação! Surgiu até campanha da prefeitura de Curitiba em prol das frutas com casca, essa nova minoria discriminada. Mas hoje saiu na Folha uma matéria altamente educativa: comprar fruta descascada não só pode sair mais barato, como até ser socialmente melhor. Sim, há o custo da embalagem. Mas acontece que, se a loja descascar fruta a priori, estará aproveitando-as mais. Porque a clientela rejeita as frutas que vêm com machucados na casca, mesmo que o interior esteja ótimo (ou quase todo ótimo). Assim, as partes boas são postas à venda, ao invés da fruta ir inteira para o lixo. Em Portugal já existe até o movimento Fruta Feia, que estimula o consumo de frutas, legumes e verduras que não estejam deslumbrantes. É uma ideia sensacional, porque o desperdício de alimentos é um dos maiores absurdos da vida moderna. Fora que dá uma preguiça descascar...