segunda-feira, 4 de maio de 2015

LISTA DE ENCOMENDAS


Finalmente aconteceu. Diminuí drasticamente a minha aquisição de álbuns, físicos ou não. Passei até mais de umês sem comprar nada, um recorde absoluto. Agora saí do jejum: uma amiga que mora nos EUA veio nos visitar e aproveitei para encomendar umas coisinhas na Amazon (para entregar na casa dela lá, porque aqui leva uns dois anos para chegar). Entre elas está "A Quien Quiera Escuchar", o novo do Ricky Martin. É verdade que o galã boricua nunca gravou um disco inteiro bom na vida, mas este último me pareceu bem mais tímido que o anterior, "Música + Amor + Sexo". Talvez ele não queira correr maiores riscos, agora que é gay assumido. Ricky, mais uma vez, ignora o mercado americano e grava apenas em espanhol - a exceção é "Adiós", com versos em inglês e francês. Nada muito bom, nada muito ruim, a não ser a ótima "Náufrago". Ele continua melhor ao vivo.

Tampouco caí de amores pela dupla canadense Purity Ring, muito badalada no momento. "Another Eternity" é curto e agradável, mas as faixas soam parecidas entre si e demoram a se destacar umas das outras. Levei um tempo para escolher minha favorita: "Bodyache", que não tem bem um vídeo, tem um GIF. É eletrônica light com vocais femininos bem finiiinhos. Se ouvir demais, enjoa. Fora que, nessa categoria etérea, ninguém ainda superou The Xx.

Mas uma das encomendas que minha amiga me trouxe entrou direto na lista dos melhores do ano. "Homage" é o disco que Jimmy Somerville sempre sonhou em gravar, e parece ter sido feito em 1978. Como o título diz, é uma homenagem à música disco, e todas as faixas têm refrões contagiosos, desses que a gente sai cantando logo de cara. O ex-vocalista do lendário Bronksi Beat passou a vida cantando em falsete, e, a essa altura do campeonato, sua voz não está mais cristalina como no tempo de "Smalltown Boy". É até penoso ouvir o esforço que ele faz para atingir as notas mais agudas de "Some Wonder". Mas talvez minha favorita seja a animadérrima "Travesty", onde ele parece mais à vontade. Pena que esta maravilha não tenha vídeo.

domingo, 3 de maio de 2015

SHINE BRIGHT LIKE A DIAMOND


Filmes com protagonistas negros não costumam ir bem de bilheteria no Brasil. Sobre negros na periferia de Paris, então, já viu: uma sala só em São Paulo e olhe lá. Mas a realidade mostrada por "Garotas" não é distante do que se passa nas nossas periferias. Marieme é filha de imigrantes africanos e, apesar de má aluna, é bastante ajuizada. Ajuda a mãe, que está sempre ausente no trabalho, a criar as irmãs menores, servindo de escudo entre elas e o irmão mais velho. Mas, quando repete o mesmo ano na escola pela segunda vez, se vê tão sem perspectivas que acaba entrando para uma turma (para não dizer gangue) de meninas da pesada. Lindas, agressivas, descoladas, elas cometem pequenos furtos para arranjar grana e fazer seu programa predileto: alugar um quarto de hotel para beber e dançar sem serem incomodadas. É numa dessas festinhas que acontece a cena mais icônica do filme, uma coreô de "Diamonds" que deve ter deixado Rihanna orgulhosíssima (confira o clipe aí em cima). Marieme muda o nome para Vic e se torna uma bully, mas seus problemas só estão começando. O roteiro de Céline Sciamma é melhor que sua direção, e "Garotas" seria melhor se fosse mais compacto. Mas é um pequeno diamante que merece ser visto por mais gente.

sábado, 2 de maio de 2015

A EMBAIXADA DE MARTE


Dois anos atrás, comprei ingressos para "Bandália", o espetáculo que marca a volta dos Dzi Croquettes, então em cartaz no Rio. Chegou a hora de ir para o teatro, e onde foi que eu meti os bilhetes? Sumiram. Evaporaram. Passaram para o universo paralelo. Nem tive ânimo de conseguir outros, pois a lotação estava esgotada. E me conformei: perdi os Dzi Croquettes nos anos 70, vou perder de novo. Para sempre. Mas o mundo dá voltas, e eis que ontem um amigo me ofereceu dois convites para vê-los aqui em São Paulo. Lá fomos nós, evitando a imensa fila na porta do João Caetano e mesmo assim pegando lugar só no fundo da plateia, já lotada por convidados.

Só dois dos Croquettes originais participam: Ciro Barcelos, que era o mais novinho da trupe e se mantém espetacular aos 62 anos, e Bayard Tonnelli. Cláudio Tovar fez os figurinos, mas não entra em cena. Os demais são todos jovens, um mais gostoso que o outro. Também são todos exímios bailarinos, o que faz com que "Bandália" seja basicamente um show de dança. Meu marido, que viu a primeira encarnação do grupo, sentiu falta de mais humor e contestação. De fato, lá pelas tantas achei que o objetivo era mostrar um pouquinho de cada estilo coreográfico do planeta: rock, samba, tango, flamenco, funk... Também não ajudou um dos primeiros números, onde eles aparecem "apenas" como homens: parecia show de boys numa buatchy qualquer. Para mim, o cara só vira Dzi Croquette quando é dúbio, misturando purpurina e peito peludo, bigode e cílios postiços. Afinal, eles já faziam isso 40 anos antes de Conchita Wurst. Ainda bem que a maior parte do espetáculo respeita esse cânone. E por isto aos poucos eu fui me rendendo à mistura de revival, novas ideias e história. Ciro, o idealizador, conta muito da trajetória do grupo, e lembra que a casa onde todos moravam em Santa Teresa era conhecida como "embaixada de Marte", onde de certa forma ele habita até hoje ("subi a ladeira e nunca mais desci"). Faz parte do programa o clássico "As Borboletas Também Sangram", ao som de "Assim Falou Zaratustra" - sim, ficou datado, mas é um monumento. Mas meu ponto alto pessoal foi o número do candomblé, onde Iemanjá, Ogum, Oxóssi, Oxum e Iansã encarnam no palco. Saí do teatro contente, porque agora tenho os Croquettes no meu currículo.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

UMA NOITE NAS ÓPERAS

Que tal assistir a duas óperas de uma vez? Calma, ninguém está falando em encarar todo o ciclo do "Anel dos Nibelungos" de uma só vez. Mss o programa duplo - já fui até num triplo - é uma contante no Theatro Municipal de São Paulo. Juntam-se duas óperas de um único ato, geralmente obscuras, e faz-se um espetáculo grandioso. Aliás, grandioso é pouco para descrever a dobradinha "Um Homem Só / Ainadamar". A primeira é brasileira, com música de Camargo Guarnieri e libreto de Ginafrancesco Guarnieri (curiosamente, os dois não eram parentes). Foi encenada apenas uma vez antes dessa remontagem, em 1963, e recebida com vaias. É um mergulho na angústia de um homem que perdeu tudo - mulher, filho, cachorro, papagaio - e tem uma partitura sem melodias assobiáveis. Mas a concepção cênica de Caetano Vilela faz com que sempre esteja acontecendo algo lindo e interessante no palo, com imagens de alto impacto e cantores sublimes.

Depois do intervalo é a vez da argentina "Ainadamar", uma evocação da Guerra Civil Espanhola e do fuzilamento do escritor Federico García Lorca. É uma ópera-flamenco, com muito pasodoble e Jarbas Homem de Mello dançando lindamente. Foi uma noite digna do Metropolitan de Nova York ou da Opéra Garnier de Paris, e não duvido nada que daqui a pouco Caetano Vilela vai estar dirigindo nesses templos. Ficou curioso? Corre que hoje é a última récita.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

NÃO PARA NÃO PARA NÃO PARA

Um ano depois de ter vencido o Eurovision, Conchita Wurst finalmente lança seu primeiro álbum. "Conchita" sai no dai 18 de maio, puxado pelo single "You Are Unstoppable" - o terceiro baladão consecutivo da mulher barbada. Quem mais que acha que tá passando da hora dela gravar um hino para as peeshtas?

MATANDO AULA

O Brasil já gasta com educação um porcentual do PIB maior que o de muitos países avançados. No entanto, or problemas crônicos persistem: escolas públicas em estado precário, currículo falho e, principalmente, professores pessimamente remunerados. Já foi um escândalo a Assembleia do Paraná avançar sobre o fundo de pensão dos professores para equilibrar as contas do estado. Pior ainda foi a brutal repressão pela PM que, além dos 170 feridos, também fez uma vítima fatal: a carreira do governador Beto Richa, que está fazendo um dos piores começos de mandato de todos os tempos. Ele deve ter matado aula demais, pois não segue nem o básico. Este era o momento ideal para um governo da oposição dar um belo exemplo, e no entanto, eis aí a cagada. Episódios como este me fazem desconfiar que o problema não é com este ou aquele partido, mas com o Brasil como um todo. Com a nossa mentalidade pré-moderna, que elege as pessoas erradas e aceita que elas nos prejudiquem.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

VALAR MORGHULIS

UBER NICHTS

Nunca usei o Uber. Não sinto a menor vontade de pagar mais quando a maioria dos táxis de SP já é me é confortável o suficiente. Mas uma amiga minha viciou, e não quer saber de outra coisa. Na verdade, acho ótimo que o serviço exista: concorrência é sempre bom, e viva a liberdade de escolha. Mas o Uber arruma encrenca em quase todos os lugares onde se instala. Existem vários relatos de assaltos e até estupros pelos motoristas, e o aplicativo foi banido em países como Espanha e Alemanha. Ontem foi a vez do Brasil. Os taxistas (muitos deles também aglomerados em empresas) fizeram pressão, e os juízes se comoveram. O Uber está proibido por aqui, vamos ver por quanto tempo. Porque uma medida dessas me cheira um pouco à proibição da luz elétrica pelos fabricantes de velas. O Uber já está valendo mais que a Petrobras (o que talvez não queira dizer nada, já que hoje em dia quase tudo vale mais que a Petrobras), e é para a frente que o mundo anda. Se for em bancos de couro, com ar condicionado, revistas importadas e suco de caixinha, melhor ainda.

terça-feira, 28 de abril de 2015

INDONÉSIA DE MAL A PIOR

Para os que ainda insistem que a Indonésia não pode ser criticada poque se trata de uma nação soberana, recomendo a leitura do artigo de Carlos Eduardo Vasconcelos publicado hoje no UOL. Para quem acha que a pena de morte resolve o problema do tráfico, também. A Indonésia é um país brutal, nominalmente uma democracia, mais ainda longe de poder ser chamado de civilizado (nós também não podemos, mas estamos um pouco mais à frente). Hoje foi executada mais uma leva de estrangeiros, e de nada adiantaram não só os apelos do Brasil como também os de Holanda, Austrália e muitos outros países. Some-se a esta barbaridade o fato de que Rodrigo Gularte era, comprovadamente, doente mental: que merda de lugar é esse, que fuzila esquizofrênico? E não é só o Brasil que acha. O presidente recém-presidente Widodo, que não livrou a cara de ninguém, conseguiu se indispor com inúmeros países amigos, além de piorar muito a imagem de seu próprio país.

TRANSIRÃ

Já pensou, ter que fazer uma operação de mudança de sexo sem ser transexual? Isto é comum no Irã. A interpretação local da sharia é surpreendentemente simpática aos trans, inclusive porque eles não estavam previstos no Alcorão. E consta que o aiatolá Khomeini, o fundador da república islâmica, conheceu pessoalmente uma mulher trans e se compadeceu da história dela (o que prova, mais uma vez, que a ignorância é a raiz de todos os males). Então, quem nasce no "corpo errado" por lá tem todo o apoio da sociedade e do estado para se corrigir. Mas ai daqueles que não o quiserem: gays ou lésbicas que preferirem continuar com o corpo original de fábrica são chicoteados e, em última instância, enforcados. Isto tem feito com que muitos cis tenham encarado a faca, para não terem que encarar a forca. Uma situação bizarra que foi tema de um ótimo documentário da série "Vice", exibida pela HBO nas segundas à noite e depois disponível no Now. Dê uma olhada, e agradeça a Alá por ter nascido no Brasil.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

A TRANSIÇÃO DE TODOS NÓS

A entrevista da jornalista Diane Sawyer com o campeão olímpico Bruce Jenner vai entrar para a história. Exibida pela rede americana ABC na noite de sexta passada, ela foi vista por 17 milhões de pessoas (o que é muito para a audiência de lá) e está repercutindo até agora. Com quase duas horas de duração, é uma mistura de documentário sobre os transgêneros com programa de fofoca - parecido com os reality shows do canal E! estrelados pelas irmãs Kardashian, de quem Jenner é pai e padrasto. Hoje separado da mãe das moças, sua terceira mulher, ele finalmente tomou coragem para assumir o gênero feminino, do qual sempre sentiu fazer parte. Desde pequenininho, o cara sempre curtiu se vestir com as roupas da mãe e da irmã. Ao crescer, percebeu que era bem mais do que um crossdresser: era mulher mesmo, aprisionada num dos corpos masculinos mais belos dos anos 1970. Suas compreensivas esposas sempre souberam dessa peculiaridade, e, da segunda em diante, aceitaram que ele começasse a tomar hormônios femininos. O mais curioso é que Jenner nunca sentiu desejo por homens: ele jura para Diane Sawyer que sempre foi atraído por mulheres, e que continua sendo. Então, para quê mudar?, pergunta ela e a torcida do Flamengo. Porque orientação é uma coisa; identidade sexual é outra, e nem sempre elas coincidem. Jenner agora se prepara para fazer a operação de realinhamento genital, mas antes tem que viver pelo menos um ano dentro do gênero ao qual sente pertencer. Vai mudar de nome e começar a aparecer em público usando modelitos, coisa que ainda não faz (no vídeo ele só aparece mostrando um negligé pretinho para Diane). O especial é extraordinariamente instrutivo, e vai se tornar um marco no avanço da compreensão do que é transexualidade. Agora que uma celebridade se revelou trans, o caminho ficou um tiquinho mais fácil para as anônimas. E para todos nós, que seguimos aprendendo a lidar com essa realidade que ainda é tão desconhecida. Estamos todos transicionando.

(Quer ver a entrevista? Tem aqui, bloco a bloco, em inglês sem legendas).

VOCÊ VIU O CABEÇÃO POR AÍ?

Quem assistiu a "Gainsbourg (Vie Heroïque)" vai se lembrar de "La Gueule", o alter ego do famoso compositor francês, que se escondia debaixo de uma enorme cabeça de papel maché. O filme inglês "Frank" amplifica esta ideia bizarra: o personagem-título é o vocalista de uma banda beyond alternativa, e não tira o cabeção nem para tomar banho. Mas o verdadeiro protagonista da história é Jon, tecladista e aspirante a estrela do pop, que se junta por acaso a um grupo de músicos desequilibrados e tenta deixá-los um pouquinho mais comerciais. Sempre em vão, numa trajetória engraçada mas também trágica. Porque, no fundo, "Frank" fala sobre doença mental e a incapacidade crônica de se ajustar ao mundo. Mas é quase sempre uma comédia, e quase sempre de humor negro. Fazia tempo que não estreava um filme tão original e divertido.

domingo, 26 de abril de 2015

A GLOBO E EU

Hoje, 26 de abril, a TV Globo completa exatos 50 anos de idade. Sexta-feira passada eu escrevi uma coluna no F5 comentando a estranha relação de amor e ódio que os brasileiros têm com a emissora. Hoje vou falar da minha relação pessoal com ela, quase sempre de amor. Se bem que um pouco menos do que quando eu era adolescente, é verdade. Naquela época eu torcia pela Globo como outros meninos torciam por seus times de futebol. Cheguei a ficar triste quando Renée de Vielmond, então uma estrela em ascensão, trocou a Globo pela Tupi. Porque a emissora dos Marinho, que consolidou sua liderança por volta de 1970 graças à novela "Irmãos Coragem", realmente fazia uma televisão muito melhor que a da concorrência. A Tupi não tinha um comando claro; a Record não conseguia recuperar o brilho da era dos festivais; e a Excelsior, talvez a única que poderia fazer frente, havia sucumbido com um empurrãozinho do regime militar. Enquanto isto, a Globo se livrava de suas atrações mais popularescas (Dercy, Chacrinha), mesmo com elas dando muita audiência, e apostava numa sofisticação jamais vista em nossas telas. Deu certo: atraiu anunciantes e logo se firmou em primeiríssimo lugar, deixando as outras na poeira. Mas ao longo dos anos eu também fui me afastando do canal. Até "Avenida Brasil", a última novela que eu realmente tinha acompanhado havia sido "Vale Tudo", em 1988. Quase nada da dramaturgia feita lá nos anos 90 me interessou. Mas a esta altura eu já tinha alguns amigos "globais", e comecei a ter notícias dos bastidores. Até que, no final de 2013, fui chamado para trabalhar lá. Passei quase um ano e meio no "Vídeo Show". O novo formato não foi o sucesso que nós esperávamos, mas a experiência foi inesquecível. Aprendi muito, me diverti muito, conheci muita gente boa e vi a máquina funcionando por dentro. Descobri que ela é tão incrível quanto a gente imagina, mas que também tem restrições - como qualquer empresa, aliás. E, como empregador, é simplesmente o mais generoso para quem já trabalhei. Plano de saúde top, dois bônus por ano, cesta de Natal farta e, o melhor de tudo, dezenas de cursos inteiramente grátis sobre roteiros, tendências, o escambau. Aproveitei o máximo que pude, porque sabia que podia durar pouco. E durou: meu contrato venceu no final de 2014 e não foi renovado, assim como o de muita gente. Hoje estou na Fremantle, a maior produtora de TV do mundo, ganhando mais e fazendo o que eu gosto. Mas não guardo a menor mágoa da Globo: acho uma puta casa, e tenho a sensação de que algum dia os nossos caminhos irão se cruzar de novo. Plim plim.

sábado, 25 de abril de 2015

O ARMÁRIO E O ESCRITÓRIO

Nunca sofri com homofobia no trabalho. Não fui alvo de piadinhas, não perdi promoções, não precisei mentir. Todo mundo sempre soube que eu sou gay, em todas as agências e emissoras por onde passei. Essa transparência também ajudou alguns dos executivos que estão na capa da "Exame" desta semana. A matéria da revista está imperdível, mostrando como muitas empresas (a maioria multinacionais, é verdade) já oferecem planos de saúde aos cônjuges de seus funcionários homossecuais e muitos outros benefícios. Um panorama muito diferente do que acontecia há apenas dez anos. Mas ainda tem muita gente no armário, e não só no Brasil. Por isto eu queria saber: se você é gay, como é que é? Seu patrão e colegas sabem de você? Responde aí nos comentários.

MEL CRISTALIZADO


Não sei porque eu insisto. Eu já sabia que "As Maravilhas" ia ser meio chato por causa do trailer. Mas fui assim mesmo: o Grand Prix em Cannes no ano passado e a vontade de ver um filme italiano me convenceram. Só que eu simplesmente não consegui embarcar na história meio estranha de uma família de apicultores que se inscreve num bizarro reality show apresentado por Monica Bellucci fantasiada de etrusca. As quase duas horas escorreram feito aquele mel antigo que endureceu no pote. Havia títulos muito mais fortes competindo no festival de 2014, e eu nunca vou entender como esse aqui saiu premiado e o muito melhor "Relatos Selvagens", de mãos abanando.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

NÃO ACHO AGRADÁVEL

Bibi Ferreira nasceu numa família de artistas, e passou a vida inteira dentro do teatro. Ou seja, sempre conviveu com gays. Por isto mesmo que é um pouco chocante sua resposta ao jornal "O Globo", quando lhe fizeram a inevitável pergunta sobre as lésbicas idosas de "Babilônia": "Essas coisas assim... não acho agradáveis nem modernas. Não acho bom." Muita gente já está atacando a veneranda atriz, outras tantas assinam embaixo de seu suposto preconceito. Não vou fazer nem uma coisa nem outra. Bibi tem 92 anos, e, por mais liberal que tenha sido sua criação, ela ainda cresceu numa época em que a homossexualidade era tabu. Ou seja: ela é fruto de seu tempo - aliás, como cada um de nós. Por isto não acho agradável condená-la, e ainda menos endossá-la. A esta altura, Bibi já está acima do bem e do mal.

A MORAL E O MALA

Alguém aí conseguiu ficar acordado até a uma da manhã para ver o "Na Moral" especial dos 50 anos da Globo? Eu não, porque ando desmaiando por volta das onze. Mas assisti hoje de manhã, pela internet. Achei ótima a ideia de colocar uma família mediana no sofá do "BBB", para deixar implícito que eles estão sendo observados. E alguns comentários foram reveladores, como o da moça que não tem nada contra os parentes gays, contanto que eles não "afrontem" os demais. Mas claro que quem roubou os holofotes foi Silas Malafaia. Sempre aos berros, sua marca registrada, o pastor proferiu inverdades, outra de suas marcas. Disse que em nenhum país do mundo a TV aberta exibe cenas de sexo "explícito" (que ele parece não saber direito o que é) como no Brasil. Foi imediatamente rebatido por Silvio de Abreu, que lembrou que as soap operas americanas, que passam à tarde, trazem temáticas bem mais ousadas que as das nossas novelas. Beijo gay por lá é notícia velha... O pastor-mala também citou um estudo americano que fala sobre o "mal" que casais do mesmo sexo estariam fazendo a seus filhos adotados - estudo este que já foi desacreditado por toda a comunidade científica séria. Mas num ponto ele teve razão. Foi quando lembrou que todos esses episódios fazem parte de um embate maior, entre a cultura judaico-cristã e a humanista-ateísta. Só que quando ele dá um nome religioso para seu lado nesta batalha, na verdade está escondendo que se trata do mau e velho patriarcado, o alicerce das três religiões abrâmicas. As versões fundamentalistas do judaísmo, do cristianismo e do islamismo nada mais são do que instrumentos para o homem oprimir a mulher. Por isto que essa turma vê a homossexualidade como subversão: as bibas não estão interessadas em oprimir nenhuma mulher, nem as lésbicas em serem oprimidas por nenhum homem. Todo o edifício patriarcal cai por terra. No mais, o programa foi divertido e instrutivo como de costume, apesar de sempre se ressentir de sua curta duração. Mas se fosse mais longo não caberia na TV aberta, onde aliás já foi confinado para a madrugada. Tomara que venha mais uma temporada completa por aí, e não só esta edição especial.

(Para variar, não consigo embedar nenhum vídeo do Gshow aqui no blog: quem quiser ver trechos do programa tem que visitar o site)

quinta-feira, 23 de abril de 2015

CANALHA VS. CANALHA

O PMDB consegue ser um partido escroto até consigo mesmo. Agora Renan ameaça não colocar a lei da terceirização em votação no Senado, e Cunha, em retaliação, diz que vai barrar na Câmara todos os projetos oriundos do Senado. Super legal para o país, não é mesmo? O mais sensacional é que os presidentes das duas casas do Congresso são ambos do mesmo partido, ou seja lá que gaiola de urubus que é essa merda de PMDB. Não querem só foder com a Dilma: também querem se foder uns aos outros, e se o Brasil for no rolo, então foda-se o Brasil.

O SEXO FRÁGIL

Fui à missa de sétimo dia da mãe de um amigo meu. Ela teve talvez a sorte de morrer de repente, de um infarto fulminante - não ficou meses a fio numa cama de hospital, em lenta agonia. Apesar da surpresa, a família estava relativamente bem. Menos o pai: aos 88 anos de idade, ele se debulhava em lágrimas e repetia que queria "ir embora". Essa cena de cortar o coração me fez pensar em como os homens estão despreparados para a viuvez. É até raro que a esposa morra antes do marido, mas acontece. E aí eles ficam numa posição de extrema fragilidade, sem aquela presença feminina que os amparava. Isto raramente se passa com as mulheres. Viúvas dão a volta por cima bastante rápido, mesmo que nunca mais se casem. Essa dependência masculina pode ser observada também nas separações. É pra lá de comum que os homens arrumem outra já no dia seguinte, o que deixa furiosas suas ex-mulheres ou namoradas. Mal sabem elas que, para além da putaria, isto também é um sinal de fraqueza. Elas podem até viver muito bem sem eles, mas a recíproca não é verdadeira.

quarta-feira, 22 de abril de 2015

IT'S RAINING WHATEVER

Chaka Khan foi ao programa do David Letterman cantar "It's Raining Men", mas nem com a ajuda de um papel no chão ela conseguiu lembrar a elaboradíssima letra. Não importa: negonas de cabelo gigante podem fazer o que quiserem, está na constituição. E quem aí sabia que um dos autores da música é o Paul Shaffer?

PANORAMA DA HISTÓRIA

Os elevadores do recém-inaugurado 1 World Trade Center, em Nova York, não correm por fora do edifício. E ainda assim são panorâmicos: uma projeção em 3D ocupa três das quatro paredes de cada carro durante a subida, mostrando a evolução da paisagem ao redor desde 1500. Começa embaixo da terra, porque a jornada começa no subsolo. E logo sai da água, porque toda essa pontinha da ilha de Manhattan é um aterro. Logo vemos a aldeia indígena se transformar no povoado holandês de nova Amsterdam, e de repente as construções explodem. Incrível pensar que os primeiros arranha-céus datam de 1823. Mas o momento mais pungente é quando a antiga Torre Norte do WTC surge do lado esquerdo, só para desaparecer alguns segundos depois. Houve um debate interno se ela deveria ser incluída ou não, para não chatear as famílias das vítimas. Mas no final o bom senso venceu. Afinal, a história tem que ser contada direito.

terça-feira, 21 de abril de 2015

O PAPA E O PÉDÉ

Conheço muitos gays que, assim comoeu, se afastaram da Igreja pela mais óbvia das razões: para quê que eu quero entrar prum clube que não me aceita como sócio? Daqui a uma geração este fenômeno vai se espalhar entre as famílias e os amigos dos gays, i.e., quase todo mundo. Prevendo esta evasão de fiéis no futuro, o papa Francisco vem acenando aqui e ali para os homossexuais. Mas, apesar de ser um monarca absoluto, ele não pode tudo. Não pode, por exemplo, aceitar o embaixador que a França indicou para o Vaticano. Laurent Stefanini é tão pédé quanto católico, mas tem nego na Curia que acha que essa combinação é letal - apesar dos inúmeros exemplos lá dentro mesmo. Hoje saiu a notícia de que o papa recebeu o diplomata para uma discreta audiência, onde disse que veja bem, não é você, sou eu, podemos continuar amigos, mas não dá. O governo François Hollande, por outro lado, bateu o pé e disse que não vai indicar outro para o cargo, como não houvesse mais ninguém qualificado. Acho admirável, mas será que teriam culhão para fazer o mesmo com a Arábia Saudita?

NÃO É FÁCIO SER AÉCIO

Tadim do Aecim. Preparou-se durante anos a fio para ser o presidente, resguardou-se em 2010 quando viu que as chances eram poucas, deu uma virada sensacional em sua campanha do ano passado e ainda assim bateu na trave. Agora ele se divide entre o oportunismo e a sabedoria: deve ou não apoiar o impeachment? Acossado a se posicionar pelas multidões que invadiram as ruas, o ex-governador mineiro está cada vez mais tendendo ao "sim". Dá até para entender: se continuar em cima do muro como costumam fazer os tucanos, Aécio se arrisca a perder o bonde da história e a avalanche da oposição. Mas, quando manifesta este apoio, também soa como esses imbecis desinformados que acham que é ele quem assume assim que Dilma for apeada do poder. Também corre o risco de ser visto como um aventureiro irresponsável - imagem, aliás, da qual já desfruta entre seus inúmeros detratores. Muito mais confortável é a posição de FHC e José Serra. Sem nenhuma pretensão à presidência neste momento, os decanos do PSDB podem se dar ao luxo de dizer a verdade: falar em impeachment é uma irresponsabilidade, pois (ainda) não há provas concretas que o justifiquem. E agora, a quem que o Aecim deve ouvir?

segunda-feira, 20 de abril de 2015

E LA NAVE AFFONDA

Pressionada por políticos de direita, a União Europeia eliminou seu programa de resgate das vítimas de naufrágios no Mediterrâneo. Deu "certo": nunca morreu tanta gente como neste ano. Já são 15 vezes mais do que no ano passado. E isto por acaso vai deter as ondas de imigrantes que vêm dos países mais conturbados da África? Claro que não. Melhor se arriscar num barco precário do que enfrentar a guerra, a miséria e a fome. Mas a combalida Europa tem condições de abosrver tanta gente? E se no meio dessa gente vierem radicais islâmicos, como os que atiraram 12 cristãos ao mar na semana passada? Não há respostas fáceis, nem soluções instantâneas. Mas há o esforço surpreendente da Itália, uma nação que sempre me pareceu meio mesquinha.