terça-feira, 2 de setembro de 2014

RAFUCKO ME REPRESENTA

Não tenho como não compartilhar aqui no blog o vídeo sensacional que o Rafucko lançou ontem. Utilizando a linguagem típica do Salafraia, ele lacra Marina, Dilma e os evanjas em geral. Essa agressividade é mais do que bem-vinda. Temos mesmo que subir a voz, para mostrar aos candidatos que não topamos mais sermos rifados. O Brasil mudou, gente: nem todas as guei só pensam em balada, e agora os políticos vão ter que lidar conosco.

RESUMO DO CAPÍTULO ANTERIOR

Eu estava exausto, mas fiquei acordadinho até bem tarde para assistir à entrevista de Marina Silva ao "Jornal da Globo". Antes de mais nada, que tesão que são a Cristina Pelajio e o William Waack, hein? Já começaram mordendo a jugular da candidata, sem perder tempo com perfumarias como as palestras que ela tem dado por aí. E fizeram com que Marina dissesse com todas as letras que é favor da união estável (a "civil" não existe a lei brasileira) para os gays, com todos os direitos idênticos aos do casamento, mas que é contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Não faz o menorrrr sentido, e ela será cobrada por essa sandice pelo resto da vida, bem feito. É uma tentativa óbvia de não desagradar a ninguém, só que não está funcionando. Marina está perdendo credibilidade e, mais importante, a aura de arauta dos novos tempos. Por outro lado, já fez água a tentativa canhestra de Dilma reivindicar para si o título de paladina LGBT. O PT está tentando atrair os neopentecostais para sua seara usando a melhor isca para essa corja - o dinheiro - mas duvido que esse súbito apoio à lei que beneficia as "igrejas" surta algum resultado eleitoral. Quem se beneficia dela são os "bispos", não a crentaiada. Enfim: mais um capítulo emocionante de "Degeneração Brasil".

NA PAUTA DO DIA

Pela primeira vez na vida, corri para chegar em casa a tempo de assistir a um debate político na TV. O esforço valeu pouco. Achei esse segundo confronto mais morno que o primeiro. O pior desempenho veio dos jornalistas: como é que nenhum deles chamou Marina na chincha? Fernando Rodrigues, de cujo blog eu gosto muito, desperdiçou sua pergunta à candidata ao inquirir sobre as palestras que ela profere para empresas - algo perfeitamente dentro da lei, também feito por Lula e FHC, e com pouquísismo potencial de combustão. O fato mais notável acabou acontecendo depois do final do programa, quando Dilma declarou ser favorável à criminalização da homofobia. É realmente admirável que o PT tenha finalmente percebido esse flanco vulnerável na candidata do PSB. Aposto que o Aécio também dirá algo a respeito nos próximo dias: ele não é o Serra, que nos vendeu por um prato de lentilhas que não pôde comer. Isso deixará o Everaldo como o único candidato declaradamente contra os gays, o que é ótimo.

Muita gente está comemorando essa fala da presidenta, mas eu não. Sou gato escaldado. Ainda estou traumatizado com o que ela disse três anos atrás, ao vetar o kit anti-homofobia: que seu governo não iria fazer "propaganda de opção sexual". Além do horror de termos sido usados mais uma vez como moeda de troca, o uso do equivocado termo "opção" demonstra um total descolamento da causa LGBT. Claro que todo mundo muda, ainda mais político em véspera de eleição. Mas Dilma me soou inócua. Ela parece cair na armadilha do Infeliciano e quetais, que pretende definir homofobia única e exclusivamente como a violência física contra os gays. Ora, para isto já existem leis. Teria sido mais contundente se Dilma tivesse declarado apoio ao PLC 122, com todas as letras e números. Também falta saber o que ela acha do casamento entre pessoas do mesmo sexo, por mais que este já esteja garantido pelo STF. Fikdik para o próximo debate.

Enquanto isto, no Ceará, o candidato a governador pelo PSOL está divulgando este comercial corajosíssimo (que, ao contrário da minha impressão inicial, foi exibido também pela TV, e não só pela internet). Eu relutaria em votar no PSOL para o Executivo, mas é inegável que o partido não tem papas na língua e faz um trabalho absolutamente indispensável no Legislativo. E é simplesmente sensacional que a luta pelos direitos igualitários, sempre relegada à margem por não ser "urgente" ou "importante", finalmente entrou na pauta política do Brasil.

(Obrigado ao Mailson Maia, que me deu a dica, e ao Emerson Maranhão, que me corrigiu)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

PANELAS EM CONFLITO

"A 100 Passos de um Sonho" é o terceiro filme focado em culinária a estrear no Brasil em menos de um mês, e é de longe o melhor dos três. O que não quer dizer que seja grande coisa: o roteiro, baseado num best-seller internacional, é piegas e previsível a mais não poder. Também tem uns cinco finais em sequência, o que dá a sensação de que o filme não acaba nunca. Como se não bastasse, o ponto de partida é inverossímil. A proprietária de um sofisticado restaurante francês jamais reagiria com horror à chegada de um concorrente indiano bem na porta de seu estabelecimento. Gente que entende mesmo de alta gastronomia está sempre interessada em conhecer técnicas e sabores novos, venham de onde vierem. Dito isto, "A 100 Passos de um Sonho" é bastante simpático. Helen Mirren até convence que nasceu do outro lado do canal da Mancha, uma vez superada a irritação dos atores estarem falando um inglês absurdo com sotaque francês. As cenas de comida são realmente de dar água na boca, e a trilha sonora de A. R. Rahman é uma das melhores que ouvi este ano. O diretor sueco Lasse Hallstrøm se especializou em filminhos inofensivos, desses para agradar do vovô ao netinho. Conseguiu, mas agora estou a fim de algo mais substancioso.

CÊ TEM BROCHOVE?

Não estou dando conta. A sucessão presidencial está com mais reviravoltas do que uma novela do Walcyr Carrasco, onde quem era vilão de repente vira bonzinho e vice-versa. Hoje saiu na "Folha" uma matéria que está me fazendo repensar Marina pela enésima vez. Olha só quem é o pastor mais ligado a ela: o Caio Fábio, aquele que não tem pruridos em defender os gays nem em atacar o Malafaia. Ele garante que a candidata não tem nada de fanática, e que um eventual governo dela passaria longe do tal "Taleban evangélico" que muitos temem. Também diz que Marina não cede à pressão dos reacionários. Este dado é importante, porque a impressão que está no ar é a de que ela abriu as pernas depois que o apóstolo do ódio ladrou quatro tuítes raivosos (e ele está tentando capitalizar em cima, para sugerir um poder que talvez nem tenha). É verdade que os fundamentalistas querem que todo mundo acredite que eles são invencíveis e que o Brasil está a apenas alguns anos de descambar numa teocracia. Vamos ver como se desenrola o debate de logo mais. Minha opinião ainda não está cristalizada, e eu preciso de mais informações. Setembro está começando com chuvas e trovoadas (finalmente!), mas o panorama político parece ainda mais instável do que a meteorologia. Quero me molhar.

domingo, 31 de agosto de 2014

EI, MARINA, SABIA QUE...

Marina Silva me fez ver vermelho. Nunca, em toda minha vida, fiquei tão furioso com um político brasileiro - e olha que eu passei por Maluf, Collor, Renan e Sarney. A meia-volta que a candidata do PSB deu em relação ao seu programa de governo, divulgado menos de 24 horas antes, me fez subir nas tamancas.

Será possível que ela sequer tenha lido o documento? Se foi isto mesmo o que aconteceu, das duas, uma: ou Marina é relapsa, ou não tem autoridade sobre gente que deveria estar sob seu comando. Qualquer uma das hipóteses é fatal para um eventual governo seu. Pessoas relapsas e/ou sem autoridade simplesmente não servem para ser presidente da república.

Agora, digamos que ela tenha lido sim. Então é pior ainda: Marina se curvou à pressão do Malafaia, que pertence à mesma facção religiosa radical que ela, a Assembleia de Deus. Se basta ao "pastor" latir impropérios no Twitter para que a candidata altere imediatamente seu programa de governo, então é melhor que este seja mesmo escrito a lápis, como sugere o site Sensacionalista.

Perdi boa parte do dia de ontem discutindo com estranhos no Facebook e mandando mensagens malcriadas para o perfil de Marina. Sobrou até para a Dilma: não me contive quando vi que o PT soltou nota criticando a "incoerência" da rival quanto ao segmento LGBT, quando a presidenta rifou os gays na primeira oportunidade para agradar à bancada evanja, ao tentar salvar o Palocci (sacrifício inútil, aliás).

Pessoas razoáveis vieram me perguntar por que eu estava com tanta raiva, já que a união civil (ou estável) seria parecidíssima com o casamento civil (sim, mas não é igual). Além do mais, pouco importaria o que Marina pensa ou deixa de pensar: o casamento gay já é uma realidade no Brasil graças ao STF, apesar da ausência de legislação. E mesmo com as alterações, o capítulo LGBT do programa do PSB ainda está muitas léguas na frente do que dizem PT ou PSDB sobre o assunto.

Mas este não é o ponto. O que provocou minha ira foi, como disse o Jean Wyllys, a crueldade de Marina Silva ao encher de esperança o coração das guei só para depois tomá-la de volta. Além do mais, parecia que Marina tinha afinado seu discurso e se tornado realmente moderna. Só que não: ela continua a mesma política inconsistente de antes, tentando agradar a todo mundo ao mesmo tempo e disfarçando sua índole conservadora com bijus feitos pelos povos da floresta.

Claro que eu sei que não existe líder impoluto, e que toda e qualquer política é feita de concessões. Marina sabe muitíssimo bem que não pode perder o voto evangélico. Mas sua tomada de posição obrigaria os grandes partidos a fazer o mesmo. O PT não poderia se proclamar contra o avanço dos direitos LGBT. E o PSDB teria que incorporar às diretrizes do partido o que Aécio já disse ser sua posição pessoal, favorável ao casamento igualitário (sim, ele é o único candidato importante que declarou este apoio com todas letras - lidem com isto). Duvido que algo do gênero aconteça agora.

Mas alguma coisa mudou. A gritaria nas redes sociais provou que a bicharada não pensa mais só em jogação e que o nível de politização está crescendo. Até o Everaldo já disse que respeitaria direitos conquistados. A homofobia só é expressada em toda sua fúria por boçais anônimos na internet.

De qualquer forma, o episódio de ontem foi uma escorregada considerável. Uma demonstração assombrosa de inabilidade política e um desgaste desnecessário. Malafaia diz que quer mais, e muitos gays e lésbicas estão decepcionados com Marina Silva. Ela de fato ainda não percebeu que só tem bicha nessa cidade.

sábado, 30 de agosto de 2014

HORROR AOS PEDAÇOS

"A Pedra de Paciência" é um dos bons filmes do ano, mas isto não quer dizer que seja agradável de ver. Muito ao contrário: além do ritmo lento e dos longos silêncios, a violência à que a protagonista é submetida é inacreditável até para os padrões brasileiros. A história se passa no Afeganistão, apesar de ninguém jamais dizer o nome do país ou da cidade. Os personagens tampouco têm nome, e não sabemos de que lado estão os guerrilheiros que tocam o terror num bairro já em ruínas. Numa dessas casas uma mulher jovem cuida do marido inerte, que parece estar em coma por causa de um ferimento a bala. Aos poucos, ele se transforma na "pedra da paciência" dela: segundo uma antiga tradição persa, a maneira de se livrar das desgraças é contá-las a uma pedra, para depois parti-la em pedacinhos. E as desgraças de uma mulher que usa burca são maiores até do que se imagina. "A Pedra da Paciência" chega num momento em que o avanço do Estado Islâmico começa a despertar horror no Ocidente. Serve para lembrar que, além da Faixa de Gaza, acontecem tragédias muito maiores.

BELISCARAM-ME

Não durou nem 24 horas. A farra que a bicharada está fazendo nas redes sociais (e que rendeu matéria comemorativa no "Globo" de hoje) acaba de aceitar o desafio do balde de gelo. Marina Silva soltou nota oficial explicando que não é bem assim, corrigindo alguns pontos do programa divulgado ontem pelo PSB. Desapareceram do texto palavrinhas como "casamento" e "adoção", e o tom agora está mais próximo do seboso programa do PT. A candidata provavelmente se apavorou com a perspectiva de perder o voto dos fundamentalistas, que estavam aderindo em massa à sua campanha. É uma pena: o posicionamento claro do partido ia provocar uma tomada de posição pelos demais. Agora nem Dilma nem Aécio precisam mudar o discurso vago. Perde o Brasil, perdem os gays, perde Marina. E o meu braço está doendo.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

BELISQUEM-ME

A primeira reação é de descrédito. Precisei conferir o link. Mas tá mesmo lá: o programa do governo de Marina Silva apoia o casamento gay com todas as letras, além da adoção por casais do mesmo sexo e o combate à homofobia. Não sei se ela mudou suas convicções pessoais (ou "evoluiu", como disse o Obama) ou se é só estratégia eleitoral. O fato é que está no programa. E agora, Dilma? Vai deixar por isto mesmo? E você, Aécio, que já declarou apoio pessoal à causa igualitária? Como dizia a propaganda de um banco durante a Copa, isto muda o jogo.

(Ah, e em tempo: o Malafaia declarou hoje que não vota mais em Marina. Disse que ela é "muito em cima do muro". Pelo jeito , acabou de descer.)

A INVASÃO DOS EXTRA-TERRESTRES

Não sei vocês, mas eu estou me divertindo muito com a campanha eleitoral deste ano. Claro que para dar risada a gente precisa esquecer da tragédia de duas semanas atrás, mas foi ela que embaralhou tudo. Já estava previsto um embate pesado, com a popularidade da presidenta caindo junto com os indicadores econômicos; agora virou vale-tudo de MMA no gel. Nas redes sociais, amigos petistas desconstróem Marina como se ela fosse o demônio fantasiado de banqueiro. E ainda tentam taxá-la de "inexperiente" - ora, tendo sido deputada, senadora e ministra, ela já tem um currículo mais parrudo do que Lula ou Dilma quando foram eleitos. Enquanto isto, os aecistas não anotaram a placa do avião que os atropelou, e muita gente boa defende o voto em Luciana Genro (sim, porque a extrema esquerda deu suuuper certo em todos os países onde chegou ao poder). O curioso é que, entre meus mais de dois mil amigos no Feice, não vejo um só pedindo votos para Marina. Será que os marinistas existem mesmo, ou são só mais uma invenção do PIG? Você conhece algum em carne e osso?

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

CARTOLA SEM COELHO

"Magia ao Luar" é um dos filmes mais estranhos da carreira de Woody Allen. O assunto não é inédito para o diretor: será que existe algum tipo de deus, ou algo que dê transcendência à vida? Mas este tema profundo é tratado em tom de comédia ligeira, à luz de uma fotografia esplendorosa e com figurinos de dar inveja a "O Grande Gatsby". Tudo seria lindo se o roteiro não parecesse meio cru. Tive a sensação de que Woody sequer releu o primeiro tratamento, tantas são as soluções fáceis e as situações esquisitas. Por acaso alguém já viu um observatório astronômico que não tem chave na porta? Além disso, a história do mágico disposto a desmascarar a médium que está encantando uma família rica não rende as piadas que poderia, e algumas barrigas deixam "Magia ao Luar" parecer mais longo do que de fato é. Não sei o que faz Woody Allen se sentir obrigado a lançar um título por ano. Sua filmografia ficaria ainda mais sólida se ele dedicasse mais tempo a cada trabalho.

O MÉDICO É O MONSTRO


Chegamos ao ponto em que a estreia de uma nova série da TV paga é mais aguardada do que a de um filme indicado ao Oscar. E como não esperar muito de "The Knick"? A direção é do Steven Sodebergh, o protagonista é feito pelo Clive Owen e a direção de arte esmerada reconstrói a Nova York de 1900 nos mínimos detalhes. Mas os dois primeiros episódios dessa superprodução do canal Cinemax não me fisgaram. Há um excesso de sangue, tripas expostas e corpos sendo retalhados por bisturis - muito mais do que em "E.R.", que já era meio barra pesada. Isto até dava para relevar, mas o que realmente compromete o interesse do espectador é o personagem principal. Os roteiristas não devem ter lido direito o livro "Homens Difíceis", tanto que só deram defeitos para o cirurgião-estrela do hospital Knickerbocker. O doutor John Thackery é grosseiro, arrogante, racista e viciado em qualquer droga que lhe passar pela frente. Por causa deste sujeito desagradável, a perspectiva de assistir ao terceiro capítulo do seriado me parece tão atraente quanto ser operado de uma hérnia sem tomar anestesia.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

DEBATENDO O DEBATE

Debate é o tal negócio: a gente sempre acha que o nosso candidato deu um show e lacrou o cu das inimigas. Nunca vi nenhum eleitor mudar de opinião nesses confrontos antes do primeiro turno, graças ao excesso de candidatos e às regras paralisantes. Além do mais, ninguém foi especialmente mal ontem à noite. Até a Dilma falou bem, muito mais segura e focada do que na entrevista ao "Jornal Nacional" da semana passada. Já Marina soou menos "sonhática" e mais pragmática, enquanto que Aécio parecia querer transmitir entusiasmo quando a gente sabe que ele deve estar se roendo por dentro, por causa de sua queda nas pesquisas. Mas os melhores momentos vieram dos nanicos da esquerda. Adorei quando Luciana Genro pediu para tratar o candidato do PSC apenas por Everaldo, ignorando o pastor, alegando não gostar da mistura de religião com política. E meu querido Eduardo Jorge bombou nas redes sociais com sua defesa intransigente da liberação das drogas, do aborto e do casamento gay. Mas meu voto no PV balançou quando ele defendeu que o Banco Central não pode ser independente. Agora não estou mais tão convicto. Que venham outros debates.

CONGESTIONAMENTO CABOCLO

Ainda não sabemos fazer uma cerimônia de entrega de prêmios decente. Claro que o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro seria diferente se houvesse mais patrocínio e interesse das TVs abertas - há anos que a festa é transmitida apenas pelo Canal Brasil. Sem muito orçamento, a produção é inevitavelmente modesta. Mas nada disso justifica o erro crasso cometido pelos organizadores ontem à noite. De quem foi a ideia de jerico de anunciar várias categorias de uma só vez? Os nomes dos indicados saem todos embolados, e o pobre espectador é obrigado a assistir a vários discursos de agradecimento de enfiada, sem saber quem é quem e o que ganhou. Um simples gerador de caracteres já ajudaria, mas nem isso tinha. O casal Caio Blat e Maria Ribeiro até que se esforçou para recriar cenas do clássico "Todas as Mulheres do Mundo" e homenagear o grande Domingos de Oliveira. Pelo menos o melhor filme, na minha opinião, foi o grande vencedor da noite: "Faroeste Caboclo" levou sete troféus, derrotando o superestimado "O Som ao Redor". Agora, por que a premiação só acontece em agosto, oito meses depois do final do ano pelo qual os filmes estão concorrendo? Desse jeito não se influencia sequer as vendas em DVD. Vou mudar tudo isto quando eu for o presidente da Academia.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

EMMY DE MESMICE

Se eu fosse o responsável pelos Emmys, baixaria uma norma rígida para o ano que vem: proibido votar em quem já ganhou. É ruim para a própria premiação um ator vencer quatro vezes seguidas pelo mesmo papel, como aconteceu com Jim Parsons de "The Big Bang Theory", e injustíssimo com a tão falada terceira "Era de Ouro" da TV americana. Além dos resultados decepcionantes, a cerimônia em si foi a mais chocha dos últimos anos. Seth Meyers simplesmente não tem borogodó para segurar um show desse tmamanho. Tanto que, em seu melhor momento, ele não passou de coadjuvante: foi no esquete ao lado de Billy Eichner, um apresentador gay que vem fazendo muito sucesso na internet com suas corridas pelas ruas de Nova York. Ano que vem deve ser melhor: por causa do rodízio entre as grandes redes abertas dos EUA, o show será transmitido pela CBS, que provavelmente colocará Stephen Colbert, o substituto de David Letterman, como mestre-de-cerimônias. Se bem que ontem ele também foi mal...

(O Emmy também foi o tema da minha coluna no F5 desta semana)

IF I ONLY COULD I'D MAKE A DEAL WITH GOD

E aí eu descobri só hoje que a maior cantora pop britânica de todos os tempos vai fazer seus primeiros shows em mais de 35 anos, e que todos os ingressos estão esgotados desde março. Kate Bush sobe esta noite ao palco do Eventim's Apollo, em Londres, para a primeira performance de seu espetáculo inédito "Before the Dawn". Ela não está lançando disco novo nem remixando sucessos antigos: só resolveu por o nariz para fora de casa, o que já é um milagre considerável por si só. Vou ter que me contentar com o excelente documentário da BBC aí em cima, que reúne depoimentos de artistas que trabalharam com a moça ou que por ela foram influenciados (a própria nem se deu ao trabalho de falar para as câmeras - todas as suas cenas são do começo da carreira). Também vou rezar para que este show histórico saia algum dia em DVD. Talvez daqui a uns sete anos, dada a velocidade alucinante com que a reclusiva ms. Bush costuma trabalhar.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

AMADA AMÃ


Todo mundo adora filmes sobre casamentos. Todo mundo se identifica com a alegre confusão, os parentes amalucados, os preparativos que dão errado mas no fim dão certo. Foi por isto que os exibidores brasileiros traduziram "May in the Summer" como "O Casamento de May". Acontece que o filme não é bem sobre um casamento. Verdade que a protagonista está de casamento marcado na Jordânia, a terra de sua mãe e também a de seu noivo, e é para lá que ela vai com as irmãs, todas nascidas nos EUA. Só que a mãe é cristã fervorosa e avisa que não quer saber de genro muçulmano; enquanto isto, todos os membros da família entram em crises de diferentes tamanhos. Há bonitas imagens turísticas, apesar de Amã ser uma cidade feiosa. Mas o choque cultural que se anuncia nunca acontece, pois todos os personagens já são ocidentalizados demais. "O Casamento de May" acaba sendo só mais um exemplo semi-interessante dentro da safra atual de filmes pequenos e desimportantes que assola os cinemas de arte, enquanto que o circuitão continua entupido portartarugas ninjas e guardiães da galáxia.

A GALA DOS ILLUMINATTI

Nem lembrei de assistir aos VMAs ontem à noite. O seletor da minha cabeça estava virado para "True Blood". Mas não vai ter post aqui no blog sobre o episódio final da série: quem quiser saber o que eu achei vai ter que ler na "Folha" de amanhã. Então me resta falar da premiação da MTV americana, da qual só estou vendo uns pedaços online. Parece que não perdi grande coisa, nem houve um momento histórico como o beijo entre Madonna há Britney há mais de dez anos. O ponto alto foi o show de Beyoncé: ao longo de mais de 16 minutos, a diva cantou um trechinho de cada faixa de seu último álbum. A emissora só deu tamanha canja a Justin Timberlake no ano passado, o que comprova a força da sra. Carter. Também notável foi a ausência de Lady Gaga, tanto no palco como nas indicações. Duvido que seu disco de duetos com Tony Bennett lhe devolva a relevância perdida. No mais, a chatinha da Miley Cyrus ganhou o prêmio principal (ainda não entendi o que viram nessa guria) e Nicki Minaj mostrou quem é a popozuda de verdade. Agora, divertidos mesmo são os vídeos que "provam" que a cerimônia toda não passou de um grande ritual dos Illuminatti. Pelo menos existem uns gatos pingados que acham que a MTV ainda apita alguma coisa.

domingo, 24 de agosto de 2014

TUDO É MISTÉRIO NESSE TEU VOAR

Foi uma delícia devorar "Pavões Misteriosos", o livro que o jornalista André Barcinski dedicou a um período negligenciado da nossa música: 1974 a 1983, entre a era dos festivais e da Tropicália e a explosão do rock brasileiro. Foram também os anos da minha adolescência e faculdade, e, portanto, da formação do meu gosto musical. Os primeiros discos nacionais que eu comprei na vida foram justamente a estreia dos Secos & Molhados e "Atrás do Porto Tem uma Cidade", da Rita Lee - dois trabalhos que o autor considera fundamentais para o estabelecimento do pop tupiniquim, e que soam modernos até hoje. Aliás, é justamente a consolidação deste evasivo pop de que trata o livro, dando valor a figuras desprezadas pela crítica como Guilherme Arantes ou a dupla de compositores Sullivan e Massadas. Nossos anos 70 tiveram gringos fake como Morris Albert ("Feelings") e cafonices como Benito di Paula, mas também ousadias como Ney Matogrosso ou Raul Seixas, que parecem impossíveis nos dias caretas que correm. Talvez por causa da ditadura, talvez por causa da influência do exterior, o começo daquela década foi riquíssimo em álbuns importantes - o final, nem tanto. A música brasileira se pasteurizou aos poucos, e hoje raramente o sucesso e a qualidade andam juntos. "Pavões Misteriosos" ficaria ainda melhor se, a exemplo do "Noites Tropicais" de Nélson Motta, também tivesse um CD complementar. Mas quem é que ainda tem CD player? Só gente como eu, que nasceu há 10 mil anos atrás.

sábado, 23 de agosto de 2014

PRATO FRIO

"Bistrô Romantique" é o segundo filme "gastronômico" a estrear no Brasil este mês (o primeiro foi "Chef", e ainda vem mais um por aí). É uma comédia belga que parte não de uma receita, mas de uma fórmula: várias histórias de amor que se cruzam na mesma noite, num restaurante elegante de Antuérpia. A noite é da do Dia dos Namorados e o cardápio é especial. Só tem pratos que incitam a paixão, com ingredientes como ostras, aspargos e licor de rosas. Mas paixão é justamente o que falta no roteiro e na direção, mais frios do que um bife congelado. Várias situações que renderiam piadas são simplesmente desperdiçadas, e os atores sem carisma não deixam que a gente se interesse pelos personagens. Talvez seja um dado cultural - afinal, os flamengos não são exatamente conhecidos por seu humor contagiante, e vai ver que o que é considerado hilário por lá se perde na tradução. Para piorar, o final é o menos romântico possível. Pelo menos as tomadas de comida são de dar água na boca, mas para isto existem revistas.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

A CLEYCIANNE DA ESQUERDA

É época de eleições e as redes sociais se inflamam. Tenho amigos de todas as tendências, que é para ver se eu não me fecho em meu mundo e nada mais. Mas juro que muitas vezes eu tenho ganas de revidar as sandices que alguns proferem, tanto à esquerda quanto à direita. Melhor segurar a onda e me aliviar no blog da Zambininha, uma fictícia militante comunista de 78 anos de idade. Zambininha também é vegana, feminista, ciclista, ateia e engraçadíssima. Sua análise do rótulo da Catuaba Selvagem ou seu relato sobre a amizade que fez com um bandido já estão entre os melhores textos do ano. Vou visitá-la regularmente, assim como à Cleycianne original. A diva do Senhor voltou a postar, depois de um longo período sabático. Aleluia!

(Obrigado, João, pela graça alcançada)

O FIM DO FESTIM

Ufa. Levei mais de dois meses, mas finalmente consegui atravessar as quase mil páginas da versão de bolso de " A Feast for Crows" (em português, "O Festim dos Corvos"), o quarto volume da série que inspirou "Game of Thrones". O livro começa exatamente onde terminou a quarta temporada da TV, o que saciou por enquanto meu desespero em saber o que acontece com alguns dos personagens. Não todos: o quinto livro, "A Dança dos Dragões", não é propriamente uma continuação, mas um volume paralelo com histórias que se desenrolam simultaneamente às do quarto. A leitura também serviu para aumentar ainda mais minha admiração pelo trabalho dos roteiristas do programa da HBO. Cada um dos 45 capítulos do calhamaço renderia apenas uma ou duas cenas na telinha: fica claro o esforço de síntese da turma do "writer's room". Por outro lado, a prosa de George R. R. Martin é deliciosa. Já desisti de livros populares como os do Harry Potter porque achei-os mal escritos para dedéu. Ainda bem que este não é o caso aqui, apesar do uso de palavras como "maidenhead" - um termo para virgindade que soa medieval, mas que eu desconfio que seja inventado pelo autor. Agora vou descansar dos Sete Reinos e ler outras coisas, mas no começo do ano que vem pretendo enfrentar a "Dança", que é ainda mais longa. A próxima temporada é baseada nesses dois livros, e eu quero estar preparado como se o inverno estivesse se aproximando.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

FASILITANDO O PORTUGÊS

Sou totalmente a favor do projeto de simplificasão da ortografia elaborado pelo profesor Ernani Pimentel e aprezentado no Senado por Cyro Miranda (PSDB-GO). Sempre axei que o portugês deveria ser escrito com um mínimo de regras - uma letra por fonema e olhe lá. A nova proposta acaba com o "ç", o "ss", o "ch" e o "h" mudo, mas na verdade axo até que é tímida. Apesar de eliminar o "u" depois de "q", ela mantém esa letra no alfabeto - eu sumiria com ela e pasaria a escrever "ceijo". Mas as xanses de aprovasão são peqenas. Os paízes de língua portugeza acabaram de aprovar uma reforma que ainda nem foi de todo asimilada, e as rezistênsias ao novo projeto são grandes - vindas de jente velha que não qer reaprender, é claro. Bastaria uma jerasão para a mudansa se consolidar, e a alfabetizasão das criansas seria muito mais fásil.

PERDENDO A GRAÇA

Eu gostava da Graça Foster. Achava que sua feiúra insuperável combinava perfeitamente com sua fama de durona e competente, a "Dilma da Dilma". Mas, assim como a presidenta da república está mostrando que não é essa coca-cola toda, parece que a presidenta da Petrobrás tampouco faz jus à sua reputação. O fato dela ter transferido imóveis para os filhos ao mesmo tempo que o Cerveró, o quadro de Picasso em carne e osso, só faz levantar a suspeita de que a operacão Pasadena foi mesmo uma lambança. Claro que não é crime fazer o que ela fez, mas "não basta a mulher de César ser honesta - ela também precisa parecer honesta". Tsk, tsk.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

IL VENAIT D'AVOIR 18 ANS

Ontem aconteceu em São Paulo o desfile comemorativo dos 18 anos de carreira do meu amigo Rodrigo Rosner, e dos 6 anos de sua marca R. Rosner. Livre das amarras de uma estação específica, Rodrigo conseguiu desenhar sua melhor coleção até hoje, introduzindo materiais inusitados como o neoprene em seus suntuosos vestidos de festa. Com ele não tem essa de prêt-à-porter ou sportwear: é luxo só, do começo ao fim. Ainda não sei qual é o meu look favorito: se a dramática noiva e sua capa bordada, que parecia ter saído de um episóido de "Game of Thrones", ou se as calças douradas com blusa turquesa vinda de um futuro imaginado por Fellini. Mas claro que vou ter que emagrecer muito para entrar em qualquer um deles.

O cenário foi o Museu de Arte Sacra, que está sob nova direção e, pela primeira vez em sua longa história, abrindo as portas para eventos mundanos. Quem não deve estar gostando nada são as freiras enclausuradas do convento que ainda existe no andar superior do prédio. A noite de ontem correu sobre carretéis, mas ouvi dizer que, algumas festas atrás, uma delas se irritou tanto com o barulho vindo do jardim que não teve dúvidas: abriu a janela e atirou um penico sobre os convidados. Só não sei se cheio.

PREVIAMENTE CONHECIDA COMO

Cansado das divas do pop atual? Experimente FKA twigs: apesar de ser bonita e gostosa, essa cantora britânica não sacode a bunda nem finge fazer sexo com ursinhos de pelúcia. Até seu nome tem uma história curiosa. Nascida Tahliah Debrett Barnett, que já soa como um pseudônimo, ela preferiu adotar o apelido de twigs (em caixa baixa mesmo) por causa dos movimentos bruscos de dança que têm esse mesmo nome. Acontece que já existia uma outra twigs; ao invés de buscar um nome novo, ela preferiu acrescentar ao antigo a sigla FKA (Formerly Known As - previamente conhecida como...) FKA twigs faz uma música esquisita à primeira audição, mas que aos poucos vai se transformando em mantras. Não há refrões contagiantes nem remix para as pistas - algumas faixas do recém-lançado álbum "LP1" nem podem ser chamadas propriamente de canções. Desnecessário dizer que a crítica está babando de quatro pela moça. Eu? Ainda estou me aclimatando.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

O BUDA DO ANTÚRIO

Fiz viagens de trabalho à Cidade do México durante mais de dez anos, quando eu trabalhava com propaganda. Sempre que tinha horas vagas, eu escapava para o gigantesco Museu de Antropologia. Além de ver as exposições temporárias, eu gostava de visitar minha peça favorita do acervo: a pequena estatueta maia de um deus ancião "nascendo" de uma flor. Foi uma alegria enorme revê-la em São Paulo, dentro da mostra "Mayas: Revelação de um Tempo Sem Fim". Aliás, a coleção inteira é fenomenal. Pela primeira vez, o governo mexicano juntou algumas das peças mais significativas dessa antiga cultura mesoamericana, que estavam espalhadas por vários museus. Vê-las todas juntas de uma só vez é de entortar a cabeça. A variedade de estilos é imensa, porque os maias passaram por vários períodos ao longo de mais de dois mil anos de civilização. Há objetos que parecem egípcios, africanos ou orientais (como o meu "buda do antúrio"), além de muitos outros que não poderiam ter sido feitos em nenhum outro lugar. A mostra fica na Oca do Parque Ibirapuera só até domingo, 24 de agosto, e depois segue para Paris. Como a entrada é franca, quem não viu deve se apressar.

OLHO MAIOR QUE A BARRIGA


Eu me deixei enganar. O trailer simpático e o elenco de estrelas me levaram a crer que "Chef" era uma comédia sofisticada, só que o filme não passa de fast food requentado. O roteiro é previsível e preguiçoso: o fiapo de conflito se resolve fácil demais, e inúmeras oportunidades de piada são perdidas. O protagonista feito por Jon Favreau comete erros muito básicos para serem críveis, o que não seria grave nas mãos de um ator mais competente. Há uma boa razão para Favreau ter praticamente deixado de atuar e voltado sua carreira para a direção (além deste filme, ele também é o responsável pela trilogia "Homem de Ferro"): o cara não tem carisma. Mas tem muitos amigos e alguma influência, o que lhe deu carta branca para cometer essa bobagem. "Chef" tem lá seus momentos memoráveis de food porn (impossível sair do cinema sem vontade de experimentar um sanduíche cubano), mas nem chega a ser indigesto. É só insosso mesmo.