quinta-feira, 24 de julho de 2014

MEU BRASIL NÃO-BRASILEIRO


O músico francês Sébastien Tellier acaba de lançar um disco sobre sua infância no Brasil. As músicas falam de suas lembranças do verde das florestas, da brisa marinha e dos pássaros coloridos. Só que não: Tellier cresceu mesmo na França, e só veio ao nosso país para gravar algumas faixas de "L'Aventura" e rodar o clipe acima. Até mesmo os ritmos supostamente brasileiros são imaginários. O cara não é nenhum grande conhecedor da MPB, pela qual diz ter se apaixonado dentro de um táxi. Portanto, há duas maneiras de lidar com este CD. Uma é desprezar o trabalho como um todo, tão autêntico como macumba para turista. A outra é embarcar na brincadeira e mergulhar nesse Brasil onírico, cheio de fontes murmurantes onde a lua vem brincar. Eu escolhi a segunda.

ROMEU E HASAN

Será que estamos assistindo a mais uma guerra inútil entre Israel e o Hamas? Nas duas últimas vezes, apesar do elevado número de mortos (mais ainda do lado palestino),  o placar fechou em 0 a 0. Israel não conseguirá reduzir drasticamente o poder de fogo do Hamas, e o Hamas não conseguirá eliminar Israel da face da Terra. Tudo vai continuar mais ou menos igual, só com menos gente dos dois lados (menos ainda do lado palestino). Essa matança serve apenas aos objetivos políticos de quem a comanda: a direita israelense que quer se manter no poder, e o Hamas quer se firmar como defensor incontestável de uma população oprimida. Mas alguns fatos novos me dão um raiozinho de esperança. Para começar, a opinião pública do mundo inteiro se voltou contra Israel - inclusive dentro dos Estados Unidos, cujo governo insiste em defender o estado judeu a qualquer custo. Além disso, a proibição das companhias aéreas ocidentais de seus voos pousarem em Tel-Aviv está funcionando como uma pesada sanção diplomática. Também é inusitado o pouco apoio que o Hamas vem recebendo do mundo árabe. O Egito, que voltou para as mãos dos militares, não quer mais saber desses aliados da Irmandade Muçulmana. E o Hizbollah, que atua na Cisjordânia e no sul do Líbano, é xiita. Não vai socorrer um grupo sunita que tem muito em comum com o estado islâmico instalado por uma franquia da al-Qaeda entre a Síria e o Iraque. No meio desse imbroglio todo, é consolador encontrar um Tumbl'r como o PalesTinder, que exibe paqueras virtuais entre palestinos e israelenses de todas as orientações. Façam amor, não façam guerra!

quarta-feira, 23 de julho de 2014

MANIA DE PERSEGUIÇÃO

A moda já chegou por aqui, com fundamentalistas de diversos matizes se dizendo tolhidos em seus direitos à liberdade de expressão e de religião. Mas, num país onde se constróem Templos de Salomão e se distribuem folhetos pregando a "jesuscracia", ainda não dá para essa turma reclamar muito. Nos Estados Unidos dá: as igrejas evangélicas de lá vêm perdendo a passos largos o poder que tinham dez anos atrás, e claro que estão se fazendo de coitadas. Um dos sintomas mais agudos dessa paranoia é o filme "Persecuted" ("Perseguido"), que conta a história de um pastor acusado de um crime que não cometeu - só porque não endossou uma lei liberal que ia contra algum de seus credos (o teor da tal lei não é revelado, mas pelo jeito devia tornar obrigatórias aulas de evolucionismo por professores gays em pleno dia de Natal). O cara então vira um fugitivo, mas felizmente, como qualquer pastor que se preza, sabe lidar bem com armas de fogo. "Persecuted" é uma produção independente visando um público-alvo bastante reduzido. Mas é desanimador pensar que este público existe.

DOWN DOWN DOWN NO HIGH SOCIETY

Na primeira versão de "O Rebu", Tereza Rachel interpretava Lupe Garcez, uma personagem descaradamente inspirada numa pessoa real: Beki Klabin, a primeira socialite a desfilar numa escola de samba. Lupe foi transformada em Vic na versão atual da novela e agora é feita por Vera Holtz. Mas qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas será mera coincidência. Meu ponto: foi-se o tempo em que havia socialites famosas o suficiente para serem retratadas na TV. Porque não existe mais a alta sociedade, pelo menos como existiu até os anos 80. Claro que ainda tem gente rica que dá festas. Mas, como num remake, mudaram roteiro e elenco.

O que eu chamo de "alta sociedade" era um grupo de pessoas que tinha mais do que dinheiro: tinha "berço". Achavam-se "bem-nascidas" (até este termo sumiu de circulação). Iam aos mesmos colégios, namoravam entre si, casavam-se e reproduziam-se em cativeiro. Quase sempre de distante origem portuguesa ("quatrocentões", como se dizia em São Paulo), com um sobrenome francês ou inglês aqui e ali. Apesar deste encastelamento, foram mudando de perfil ao longo do século 20 à medida que algumas famílias de imigrantes iam enriquecendo: primeiro os italianos, depois os árabes e os judeus. Curiosamente, os japoneses nunca foram admitidos no clube - não sei se porque a própria comunidade se isolou até a terceira geração, não sei se por racismo dos demais. Os negros, então, nem passaram perto, por causa do apartheid social que perdura até hoje no Brasil.

O "high society" era um produto cultural influente. Um Olimpo jamais criticado e por todos almejado.  Sambas populares falavam em Teresa (Sousa Campos) e Dolores (Guinle). As colunas sociais eram lidas por todas as classes. Nos anos 40 surgiu a revista "Sombra", antepassada do que hoje é a "Caras" - mas com um design gráfico tão avançado que sua descendente mais parece um catálogo de supemercado. Em SP havia o caretérrimo Tavares de Miranda, que escrevia coisas como "a noite transcorreu sobre carretéis". No Rio, firmaram-se o elegante Zózimo Barroso do Amaral - tão influente que ganhou até estátua no Leblon - e o folclórico Ibrahim Sued, que, mesmo cometendo erros atrozes de português, conseguia emplacar expressões como "geração pão com cocada".

A única jornalista que ainda segue este estilo antigo é Hildegard Angel, que saiu do que sobrou online do "Jornal do Brasil" e hoje tem seu próprio site. Nos grandes jornais do Rio e São Paulo, o que era o colunismo social hoje fala mais em política e economia, ou simplesmente desapareceu. As razões são inúmeras. Antes de mais nada, o dinheiro mudou de mãos. Muitos dos ricaços de antanho hoje são "nouveaux pauvres", enquanto que cantores sertanejos, jogadores de futebol e empresários de áreas inusitadas são os novos grã-finos (outra palavra que saiu de moda). A indústria das celebridades explodiu, e hoje qualquer um se acha no direito à fama instantânea.

Mas também mudou a cultura. Hoje somos um país mais democrático, e pega mal ostentar privilégios. Ainda assim, o colunismo social persiste nas capitais das províncias e pelo interior adentro, onde figuras como Lucas Celebridade cobrem a mais finíssima maionese ainda servida nos convescotes locais. Causam impacto regional, mas viram motivo de chacota nos grandes centros. Enquanto isto, proliferam as blogueiras de moda, os eventos corporativos e os shoppings de griffes. Estes são alguns vetores da elite atual. Porque o que era a alta sociedade, com suas senhas secretas ("cântri", não "cáuntri"), evaporou feito o gás de uma champagne esquecida aberta. Tim-tim.

terça-feira, 22 de julho de 2014

PIRLIMPIMPIM

Podem me chamar de direitista, mas não estou especialmente triste com a prisão preventiva da Sininho e seus amiguinhos. Só de saber que esses pestinhas usam apelidos como "Punk" ou "Game Over" me dá vontade de encher a mamadeira deles com coquetel molotov. Podem me chamar de velhinha de Taubaté, mas tenho cá comigo que o governo realmente descobriu algo gravíssimo que os black blocs estariam tramando para o final da Copa. Mas por que não conta o que é? Para não causar pânico na população? Para não revelar a identidade dos agentes infiltrados? Ou para não revelar que quem está por trás desses vândalos, que diminuíram com sua violência a legitimidade das manifestações por todo o país, na verdade é o próprio governo? O ministro José Eduardo Cardozo, um homem respeiteavel, deu a entender que sabe mais do que diz. Mas o mistério continua suspenso no ar. Feito pó de pirlimpimpim.

BELAS DA TARDE

Aproveitei a tarde de folga para conhecer o novo Belas Artes. Logo de cara, uma surpresa: o saguão do cinema continua idêntico ao que era na época do fechamento, três anos atrás. A bombonière continua no mesmo lugar, a lojinha também e até as placas com os nomes das salas permanecem iguais. Superado este pequeno choque, me bateu uma espécie de alívio. A geografia familiar me deu a sensação de que o tempo não havia passado. E também a de que só esfregaram um pano úmido nas instalações que já existiam. O que não é totalmente verdade: nem todas as salas já foram reabertas, e as poltronas da que eu fui estão tinindo de novas (mas podiam ser melhores - esta parece ser a maldição do Belas Artes, que nunca primou pelo conforto). Toda essa experiência foi mais intensa que o filme em si, o argentino "Filha Distante". Adoro o estilo minimalista do diretor Carlos Sorín, mas dessa vez acho que ele exagerou um pouco. Na tentativa de não soar piegas com uma história potencialmente melodramática (pai arrependido parte em busca da filha magoada), o roteiro acaba fazendo elipses demais e poupando o espectador de qualquer emoção mais forte. Mas o que importa mesmo é que um dos cinemas mais tradicionais de São Paulo está de volta, no que parece ser um movimento maior de recuperação das salas de rua. O cine Leblon do Rio de Janeiro, também ameaçado de cerrar as portas, foi salvo por uma aliança entre a prefeitura e os moradores do bairro. São notícias surpreendentes nesta época de downloads e streaming.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

MEU PRIMEIRO TURNO

Sou sempre "xingado" de tucano aqui no blog por petistas empedernidos, mas não me sinto ofendido porque ser peessedebista não é motivo de vergonha. Acontece que eu não sou. Sim, já votei várias vezes no PSDB, mas também no PT e no PV, além de ter anulado meu voto no 2o. turno de 1989. E não, não vou de Aécio no dia 5 de outubro. Primeiro turno é para a gente votar com o coração: naquele em quem realmente acreditamos, mesmo que ele não tenha a menor chance. E, em 2014, o candidato que preenche os meus requisitos é Eduardo Jorge, do Partido Verde. O cara é médico sanitarista, tem biografia ilibada e transita bem entre as ideologias: foi secretário da saúde de São Paulo quando Erundina e Marta foram prefeitas, e do Verde e Meio Mabiente quando Kassab. Também defende um programa que eu assino embaixo: pró- LGBT, pró-maconha, pró-aborto. Nenhum dos "três grandes" faz o mesmo, e os nanicos que o fazem são de extrema-esquerda demais para o meu gosto. Eduardo Jorge deverá chegar em quinto lugar, atrás do celerado pastor Everaldo, mas eu não estou nem aí. Para mim, isto é que é não desperdiçar o voto.

TOC DE CLASSE

Giuseppe Tornatore já ganhou um Oscar e seus filmes são realmente acima da média, mas eu não consigo colocá-lo na lista dos melhores diretores em atividade. E não mudei de ideia com "O Melhor Lance", totalmente rodado em inglês numa cidade europeia não identificada (desconfio que seja Viena, por causa de um ".at."que aparece numa vitrine). O protagonista, feito muito bem pelo competente Geoffrey Rush, é um leiloeiro que despreza a humanidade e tudo o que ela toca, tanto que usa luvas o tempo todo. Prefere a companhia de obras de arte, que avalia por preços irrisórios para ele mesmo comprá-las e mantê-las numa sala secreta de seu imenso apartamento. Um belo dia, o sujeito é procurado por uma herdeira que quer se desfazer da coleção de sua família. Detalhe: ela se recusa a aparecer pessoalmente, falando primeiro pelo telefone e depois atrás de portas, num jogo de esconde-esconde que deixa o pobre leiloeiro com a pulguíssima atrás da orelha. Claro que esses dois portadores de Transtorno Obsessivo-Compulsivo acabam se envolvendo, e lá pelas tantas eu achei que se tratava da clássica fantasia do velho gagá que seduz uma moça algumas gerações mais nova. Mas o final é surpreendente, e divide opiniões. "O Melhor Lance" é longo demais, mas pelo menos é lindo de se ver e a música é de Ennio Morricone. Sua mensagem final é a de que mesmo o olho mais treinado pode ser enganado por uma boa falsificação. Mas nem assim me convenceu de que Giuseppe Tornatore seja um verdadeiro mestre do cinema.

domingo, 20 de julho de 2014

DILMA BOLADA

A campanha eleitoral mal começou e já surgiu uma notícia explosiva: neste momento, Dilma está tecnicamente empatada tanto com Aécio quanto com Campos num eventual segundo turno. Isto significa que os marqueteiros da presidenta vão fazer de tudo para liquidar a fatura já na primeira rodada. Mas é improvável que consigam. O PT jamais elegeu um presidente num turno só (se bem que teria conseguido se Lula pudesse concorrer a um terceiro mandato em 2010, quando estava no auge da popularidade). Vem artilharia pesada por aí: preparem-se para ouvir boatos cada vez mais cabeludos sobre os vícios dos candidatos da oposição, a extinção do Bolsa-Família, a venda da Amazônia aos gringos... Isto se Dilma não tiver um mal súbito e Lula não for convocado no último segundo para concorrer no lugar dela. Os próximos meses prometem fortes emoções. Brace yourselves.

sábado, 19 de julho de 2014

A GUERRA DO BRIGADEIRO

Nem havíamos nos recuperado da derrota retumbante na Copa quando fomos submetidos a mais um insulto inenarrável ao orgulho nacional. O badalado chef Jamie Oliver não gostou do brigadeiro, nem do quindim e ainda menos do beijinho. A opinião foi emitida durante uma entrevista a Barbara Gancia para o programa "Saia Justa" onde ele precisou experimentar os doces em rápida sequência, além de caldo de cana e açaí. A grita foi tão grande que a própria Barbara teve que explicar no Feice que era de manhã muito cedo, a edição deixou muita coisa de fora e os doces brasileiros têm mesmo muitíssimo açúcar para o paladar europeu. Mas não adiantou. As redes sociais continuam em armas, pedindo a cabeça de Jamie. É isso aí, gente: vamos perder tempo com o que realmente tem importância, e não com bobaginhas como a queda do avião na Ucrânia.

(a entrevista de Jamie Oliver a Barbara Gancia pode ser vista aqui.)

sexta-feira, 18 de julho de 2014

FAMÍLIA REQUEIJÃO

Só hoje que eu fiquei sabendo que a Vigor postou anteontem este anúncio em sua página no Facebook. Claro que eu preferia que a direção de arte tivesse deixado mais claro que as mãos de cada lado da foto são do mesmo sexo, e ainda mais que o anúncio fosse publicado na "Veja" - fazer este tipo de ação na internet é mole. Também desconfio que a marca esteja moderando os comentários, porque todos os que aparecem na postagem são pra lá de positivos. Não tem nem aquele novo clássico que é "virou moda, só estão fazendo isto para vender mais". Sim, porque vender mais não deveria ser o objetivo de uma empresa capitalista, não é mesmo? Mas o que importa é que o anúncio existe e que muita gente está gostando. E, de repente, "família margarina" virou uma coisa do século passado.

RIO DEGENERADO

Tenho muito orgulho em ser carioca e penso em algum dia voltar para a minha cidade natal. Mas estou aliviado por não morar no Rio neste momento. Os quatro principais candidatos a governador são todos péssimos - principalmente o Garotinho (cujo ex-secretário de segurança era cúmplice da bandidagem) e o Crivella ("bispo" da "Igreja" Universal). A campanha mal começou e nenhum deles apresenta uma clara vantagem sobre os outros. Como os cariocas costumam ser do contra, não é impossível uma reviravolta até outubro. Mas por enquanto o cenário não poderia ser mais desolador. Cadê o Fernando Gabeira quando a gente mais precisa dele?

quinta-feira, 17 de julho de 2014

IMAGINA NA COPA (DE 2018)

Semana passada o maior telejornal da Rússia noticiou que tropas ucranianas haviam crucificado um garoto de três anos em praça pública, e em seguida arrastado a mãe dele amarrada a um tanque. Tudo balela. Agora este mesmo programa está dizendo que o verdadeiro alvo do míssil que derrubou o voo MH17 da Malaysian Airlines era o avião que trazia Putin do Brasil. Ahã. Ainda não há provas, mas, tirando os russos, o mundo inteiro suspeita que os culpados pelo atentado sejam os rebeldes separatistas da Ucrânia. Mas talvez essas provas não surjam nunca - há relatos de que a caixa-preta do Boeing 777 já foi despachada para Moscou. Essa tragédia pode se tornar um desastre de relações públicas para o expansionismo russo. A imagem de Putin está tão ficando tão suja que nem mesmo uma Copa das Copas daqui a quatro anos será capaz de limpar. Mas aguardemos o desenrolar dos acontecimentos. Por enquanto, só uma coisa é certa: jamais, em hipótese alguma, embarcar num avião da Malaysian Airlines.

REBULIÇO

E aí, vocês estão gostando do remake de "O Rebu"? Eu estou, mas preciso confessar uma coisa: vai ser difícil superar as lembranças que eu tenho do original. Eu tinha acabado de completar 14 anos quando estreou a primeira versão, e decidi que já estava grandinho para acompanhar uma novela das 10 (antes eu só via os capítulos de sexta-feira, porque não tinha aula no sábado - e adorava!). Como eu ainda não tinha vida social naquela época, "O Rebu" foi a primeira e única novela da qual eu vi absolutamente todos os capítulos. E foi uma porrada, porque a trama de Braulio Pedroso era moderna a mais não poder. Além da revolucionária narrativa em três tempos diferentes (antes, durante e depois da festa), deve ter sido a primeira novela brasileira onde a homossexualidade pôs um pezinho para fora do armário. Apesar da censura vigente, para mim ficou claríssimo que o anfitrião Conrad Mahler (hoje transformado em Ângela) matou a convidada Sílvia (feita por uma Bete Mendes ainda magérrima) porque ela ousou se engraçar com seu "sobrinho" Cauê. Ao contrário da versão atual, a identidade do morto só foi revelada no meio da história. Antes só víamos um corpo de terno na piscina. Para surpresa geral, era uma mulher - em dado momento da festa, a piração foi tão grande que todas as mulheres se travestiram de homens (ai, que saudades dos anos 70). E ainda teve lesbianismo: no final, a personagem de Isabel Ribeiro largava do marido para ficar com outra mulher. Tudo muito sutil, claro. Mas ao alcance de um adolescente que ainda nem sonhava em ser viado.

(além de algumas cenas avulsas, só sobraram dois capítulos completos da versão original: o primeiro e o de no. 92, que podem ser vistos no YouTube.)

quarta-feira, 16 de julho de 2014

CALADA NOITE PRETA

Alguns leitores me cobraram um post sobre a Vange Leonel. Eu não me sinto autorizado a fazê-lo, porque não conheço direito o trabalho dela. Claro que eu sei cantar seu maior sucesso, "Noite Preta", o tema de abertura da novela "Vamp". E lia sempre sua coluna sobre assuntos GLS na extinta "Revista da Folha" (ela alternava com o André Fischer). Mas fazia algum tempo que Vange havia saído do meu radar - será que por ser uma militante lésbica? A possível muralha entre homossexuais masculinos e femininos é um assunto recorrente. Rendeu até um ótimo artigo no site da revista Out. Mas será que essa noite preta existe mesmo? Eu não me sinto afetado por ela - afinal, uma das melhores amigas é lésbica (se bem que ela está mais para bicha honorária, já que é fã de Julie Andrews). Mas também não visito sites de meninas, não frequento as baladas delas e não sei muito o que está na moda naquele mundinho. Isto é defeito?

AS VOZES DA VEZ


Não tenho a menor paciência para bicha que choraminga suas dores em canções lentíssimas, à la Anthony (and the Johnsons) Heggarty. Achei que o inglês Sam Smith se encaixava nessa categoria sofrida quando o ouvi pela primeira vez. Mas "In the Lonely Hour", seu CD de estreia, até que traz faixas animadas - apesar do título deprê e da lentidão predominante. O rapaz está vendendo bem dos dois lados do Atlântico e tem realmente uma voz excepcional. Como também compõe, periga até engatar uma carreira longa e se tornar uma versão masculina de Adele.

Sabe "Titanium", aquela música do David Guetta que toca há dois anos sem parar? Claro que sabe: "I'm bulletproof, fire away, fire away...". Pois bem: foi Sia quem compôs. Sabe o hino da Copa, "We Are One (Ole Ola)", massacrado por Pibtull, J. Lo e Claudjeenha? Foi Sia quem compôs. Sabe "Diamonds", da Rihanna? Sim, foi Sia. Aliás, este sucesso tem bastante parentesco com "Chandelier", a faixa que abre o novo CD da moça. O que vem a seguir são mais "power ballads", em graus diferentes de animação. Mas o que me chamou mais a atenção foi o fato de Sia deliberadamente se esconder. Não aparece na capa, nem no encarte, nem no clipe. Talvez porque não seja exatamente uma beldade... Mas claro que é refrescante termos pelo menos uma cantora no pop atual que não use a própria bunda imagem para se vender.

terça-feira, 15 de julho de 2014

DOENTES DE AMOR

Levei mais de um mês para conseguir arrastar meu marido para ver "A Culpa É das Estrelas". Eu queria ir porque me interesso por artefatos culturais de grande impacto; ele se recusava porque não gosta de histórias de garotos com câncer. No final fomos juntos e tivemos a mesmíssima opinião: o filme começa muito bem, depois desanda. Sim, os garotos têm câncer, mas a atitude realista e bem-humorada com que eles encaram a doença é quase que divertida. Está certo que o rapaz é um pouco sensacional demais para ser verdade, mas pelo menos é um só - se o livro original tivesse sido escrito por uma mulher (como o foram outros fenômenos, como "Crepúsculo", "Jogos Vorazes" e "True Blood") - o coração da mocinha estaria dividido entre pelo menos dois rapazes fantásticos. Bom, depois de uma introdução bastante razoável, o casal de pombinhos parte para Amsterdam em busca do escritor recluso que ela venera. E aí a coisa degringola ladeira abaixo, com uma cena mais ridícula que a anterior. Depois de um encontro bastante desagradável com o tal autor, eles vão passear adivinha onde? Na casa de Anne Frank! Nada como distrair uma menina que está morrendo do que levá-la na casa de uma menina que já morreu, não é mesmo? Pelamordedeus, vão numa coffee shop fumar maconha, pois vocês já estão desenganados de qualquer jeito! E depois desse escorregão, "A Culpa É das Estrelas" nunca mais se recupera. Pior: se arrasta por mais de duas horas, a ponto de fazer o espectador torcer para todo mundo morrer logo. Ou ele mesmo morrer, o que vier primeiro.

BRÓCOLIS E CHOCOLATE

Depois do lado B que foi o vídeo "Afinal, o Que Há Dentro do Armário?", o Põe na Roda agora toca do lado A: "E Fora do Armário?" traz o depoimento de quatro rapazes lindos, leves e soltos, em paz com a vida e com a própria sexualidade. Faltou um pouquinho de diversidade às histórias, todas meio parecidas, e claro que não chega aos pés daquele magnum opus que é "Não Gosto dos Meninos" (inclusive no quesito elenco, hahaha). Mas é maravilhoso saber que existem pais tão cabeça aberta quanto os desses garotos, e que o mundo já está bem diferente do que na época em que eu me assumi. E ainda há uma pertinente comparação entre brócolis e chocolate digna de entrar para os, hmmm, anais da história.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

TEVE COPA

E foi boa. Não importa o vexame dos dois últimos jogos da nossa seleção: o saldo do campeonato foi mais do que positivo para o Brasil. Claro que houve superfaturamento, exploração política, atrasos imperdoáveis, mortes inúteis e um sem número de problemas pontuais. Mas também houve festa, empolgação, contato com o mundo exterior e quase nenhuma falha grave na infraestrutura – a mancha negra foi a queda do viaduto em BH.

A marca Brasil sai da Copa mais forte do que nunca. O país consolidou sua imagem de caloroso e animado, e ainda provou que é capaz de organizar um evento de porte planetário. Turistas e jornalistas estão voltando para casa maravilhados com nossas praias, nossos sorrisos e nossa vontade de agradar, apesar de praticamente não falarmos nenhuma outra língua. Os brasileiros ficaram mais cosmopolitas e menos caipiras. Duvido que a Rússia faça melhor.

Já a FIFA sai chamuscada. Virou sinônimo de roubalheira e intromissão. Mas não está mais de todo impune: a Operação Jules Rimet deflagrada pela Polícia Civil do RJ revelou um esquema asqueroso de câmbio negro que chega aos mais altos escalões da organização. A gangue do Blatter merecia ser esvaziada. Bastavam uns quatro países importantes se retirarem e organizarem seu próprio torneio para muitos outros virem atrás. Mas cadê patrocínio e vontade política?

Outro saldo no azul é a consciência da necessidade de reformulação de todo o futebol brasileiro. Seria ótima a contratação de um técnico estrangeiro, ou de alguém mais jovem que os brontossauros que ainda se arrastam por aí – tipo o Leonardo, por exemplo. Uma faxina na cúpula da CBF é ainda mais urgente.

Mas o melhor de tudo foi essa imensa DR que a Copa nos proporcionou. Graças às redes sociais, o Brasil discutiu consigo mesmo o país que gostaria de ser. Foram elas que nos salvaram da chorumela que as televisões tentaram impor depois do “Mineiratzen”, explodindo em piadas e reflexões.

Queremos continuar emotivos, mas não à toa. Que não se repitam as patriotadas gratuitas, nem as lágrimas de crocodilo. Poucas coisas me irritam mais do que a imagem do Thiago Silva berrando o hino com os olhinhos fechados, ou ele tendo que ser amparado pelo Felipão porque teve um chilique em campo. Seja homem, moleque. Pare de nos lembrar a todo instante que você sobreviveu a uma tuberculose, e honre a sua camisa. Chega de pensamento mágico, como bem disse a Eliane Brum num ótimo artigo que assinou para a Folha.

Também queremos ser mais eficientes e produtivos, e já temos o exemplo da Alemanha para copiar. Os tetracampeões ainda deram um show de simpatia ao doar para uma ONG o centro de treinamento que construíram em Porto Seguro, ou ao dançar com os pataxós. Quem dera que os barra bravas argentinos tivessem um décimo dessa educação.

Como será que a Copa vai influenciar as eleições? Difícil dizer. A derrota acachapante sem dúvida que contribui para o mau humor generalizado, e isto nunca é bom para quem busca a reeleição. Mas é inegável dizer que o governo fez bem quase tudo que se dispôs a fazer. Aeroportos e estádios funcionaram direitinho. Não é culpa da Dilma o escrete canarinho ter jogado tão mal.

Agora a vida volta ao normal. Ou quase. Acho que o Brasil está como aquele adolescente que foi fazer intercâmbio no estrangeiro e voltou para casa mais maduro, mais safo. Vai questionar mais e exigir mais, de si mesmo e dos outros. Se isto acontecer mesmo, será uma vitória maior que um mero hexa.

TENDE A ZERO

O Monty Python voltou a se reunir justamente no momento em que sai o novo filme de Terry Gilliam, o membro do grupo que se tornou um diretor renomado. Renome injustificado por este trabalho: "O Teorema Zero" se pretende moderninho, mas já nasce velho. Apesar da trama envolver hackers e sexo virtual, tanto a direção de arte à la "Blade Runner" como a mensagem central - "o mundo é controlado pelas corporações" - tem cheiro de anos 80. Isto nem seria tão grave se o roteiro não andasse em círculos, ou se Christoph Waltz, com os cabelos e as sobrancelhas raspadas, não doesse tanto nos olhos. A única coisa de que eu realmente gostei foi a pequena participação de Tilda Swinton, irreconhecível e engraçadíssima. O resto é quase um zero à esquerda.

domingo, 13 de julho de 2014

BRASIL, DECIME QUÉ SE SIENTE

Diga-me como você está se sentindo. Despesperado, por causa de mais uma derrota da seleção? Aliviado, porque essa porra de Copa tá acabando? Ou meio apático, como eu, porque esse timeco que está aí não merece choro nem vela? Minha preocupação agora é outra: por quem torcer na final de hoje?

Minhas razões para torcer pela Argentina:

1) Adoro o país. Já estive em Buenos Aires umas 25 vezes e me mudaria para lá amanhã se fosse preciso. Amo a comida, a música, o idioma, a Mafalda, a mentalidade tragicômica.

2) Bairrismo. A Europa jamais venceu uma Copa nas Américas, e não haveria de ser agora. Prefiro ver felizes meus hermanos amigos do que um bando de comedores de chucrute.

3) As chances da Dilma se reeleger diminuiriam!

4) Fernando Gago.

Minhas razões para torcer pela Alemanha:

1) O time deles realmente é melhor. Melhor preparado, mais entrosado, menos dependentes de estrelas individuais.

2) Ia ser bom para a alma ver os hermanos levarem uma goleada também, né não? Ainda mais depois deles nos insultarem com o hino "Brasil, Decime Qué Se Siente".

3) Sami Khedira.

E você, para que lado pende seu coração?

EMERGINDO DAS ÁGUAS

Minha primeira reação ao saber que o nadador australiano Ian Thorpe tinha saído do armário foi quase que de raiva. O cara chegou a processar jornalistas e artistas que, segundo ele, o "difamavam". Também jurou de pés juntos que era hétero em sua autobiografia, lançada há apenas dois anos. Mas claro que Thorpe merece aplausos por finalmente ter encontrado a coragem de ser quem é. Aposto como agora suas crises depressivas irão diminuir, e que seu caso sirva como exemplo inspirador para quem ainda sofre no escuro.

Em tempo: não, o Neuer não é gay. O lindo goleiro da seleção alemã anda dizendo por aí que os atletas gays devem se assumir. Mas, segundo consta, ele ainda joga no time dos HTs. Ou então vai ver que só está precisando de mais um tempo, como o Ian Thorpe. Tomara...

sábado, 12 de julho de 2014

PELO RESTO DA VIDA

"Ou Você Poderia me Beijar" conta uma história banal: um casal se conhece, se apaixona e passa o resto da vida junto. O que os torna ligeiramente diferentes é o fato de serem dois homens, e por isto não contarem com o apoio legal que a sociedade oferece aos héteros. A romântica peça do sul-africano Neil Bartlett fez muito sucesso em São Paulo no começo deste ano, e agora voltou ao cartaz graças ao sistema de crowdfunding. A encenação no minúsculo Núcleo Experimental de Teatro dá ao espectador a sensação de estar mesmo no apartamento do tal casal, interpretado por três duplas de atores em três idades diferentes. Há um pouco de narração demais, e quem mais aparece em cena é a própria narradora - pelo menos a atriz Clara Carvalho é fantástica. Também há muita cantoria, tanta que a certa altura achei que o espetáculo tinha se transformado num tributo a Barbra Streisand. Mas não é ruim sair do teatro cantarolando "What Are You Doing the Rest of Your Life?".

sexta-feira, 11 de julho de 2014

TRABALHO DE HERCULES

Esta semana eu cismei com "I Try to Talk to You", a primeira música realmente boa do projeto Hercules & Love Affair desde o megahit "Blind" de 2008. A faixa nem é tão nova assim: já vem sendo tocada ao vivo faz dois anos, e o vídeo acima saiu há quase três meses. Não postei antes porque não achei os caras gatos o suficiente, mas só hoje fiquei sabendo que a letra foi escrita pelo vocalista John Grant quando ele se descobriu soropositivo. Isso muda o jogo.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

REAGE, CERSEI

Saíram hoje as indicações ao Emmy. Como sempre, a Academia de Televisão foi extremamente conservadora e continuou nomeando séries e atores que não mereciam. A quarta temporada de "Downton Abbey" foi um ligeiro desastre, mas mesmo assim foi lembrada. E cadê Michael Sheen, por "Masters of Sex"? Cadê, ó Senhor, Tatiana Maslany, por seus trocentos personagens em "Orphan Black"? Pelo menos "Orange is the New Black" dominou a categoria "atriz convidada". E meu amado "Game of Thrones" recebeu nada menos que 19 indicações, mais que qualquer outro programa. Mesmo assim, o glorioso Charles Dance foi ignorado - e era sua última chance de concorrer como Tywin Lannister. Pelo menos seus filhos Tyrion (Peter Dinklage) e Cersei (Lena Headey) estarão lá, no dia 25 de agosto, quando os vencedores forem anunciados. Amei a reação dela...

O CRISTO É NOSSO

A arquidiocese do Rio de Janeiro acha que o Cristo Redentor é dela, mas não é. O Cristo é do Rio, do Brasil e do mundo. É inadmissível a censura ao segmento "Inútil Paisagem", um dos dez que compõem o filme "Rio Eu Te Amo". Dirigido por José Padilha, o curta mostra Wagner Moura voando de asa delta e dialogando com a estátua. Mas a Igreja achou-o "ofensivo", e a produtora Conspiração, com medo de um processo, deixou-o de fora do corte final do longa, que precisa estrear em setembro. Faltou-lhe o culhão da Bel-Ami, que rodou a abertura de um de seus pornôs gays em pleno Vaticano. Está mais do que na hora da prefeitura desapropriar o símbolo máximo dos cariocas. Fica a dica para o próximo alcaide.