sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Ó VIDA, Ó DOR


Quando eu era adolescente, a maioria dos meninos da minha idade ouvia dois tipos de som: pauleira e progressivo. Só as bibas incubadas como eu apreciavam a disco music, ainda hoje a mais refinada expressão musical de toda a história da humanidade. Na virada dos anos 70 para os 80 chegaram o punk e a new wave, e o mundo virou de pernas pro ar. O heavy metal sobreviveu, ainda que por vezes distante do mainstream. Mas o clima viajandão de bandas como Yes ou Pink Floyd sumiu por completo, tido como o suprassumo da cafonice. Só que o público a que ele se destinava, não: os meninos héteros porém sensíveis, trancados em seus quartos nas tardes sem aula. Era só questão de tempo que esse gênero retornasse, aperfeiçoado pelas novas tecnologias. E retornou mesmo, numa onda da qual os ingleses do alt-J são o maior expoente. O segundo álbum dos caras, "This is All Yours", não tem refrões pegajosos nem canções que se destaquem sozinhas. Foi feito para ser escutado de uma tacada só, com fones de ouvido. É uma tapeçaria rica em texturas e com vocais esparsos, e as letras falam basicamente de solidão. O clipe de "Hunger of the Pine" aí em cima parece uma cena da trilogia "Jogos Vorazes", e confirma de maneira claríssima a minha tese: é música para garoto sofredor. Mas é um disco interessante, que merece o sucesso que está fazendo.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

A MAÇÃ NO CLARO

Uai, era segredo? Desde que Steve Jobs morreu, eu sabia que seu sucessor Tim Cook era gay. Ninguém me contou, eu li por aí. Mas hoje o CEO da Apple assinou um editorial no site Bloomberg Businessweek saindo do armário de uma vez por todas. Ele agardece a Deus por ser homossexual (porque isto lhe deu a oportunidade de entender como sofre uma minoria) e meio que pede desculpas por não ter se assumido antes, pois hoje se beneficia do sacrifício de muitos ativistas. De qualquer maneira, é sensacional que o homem mais poderoso de uma das empresas mais admiradas do planeta seja um exemplo para milhões de jovens que estão crescendo assustados com sua própria sexualidade. Claro que já tem nego reclamando: um político russo quer banir a entrada de Cook em seu país para sempre, pois os gays são a causa do ebola (sério). Deviam era reclamar das verdadeiras atrocidades cometidas por Cook. Já reparou que, desde que ele pegou o lugar de Jobs, cada aparelho da Apple tem seu próprio carregador, que não funciona com nenhum outro aparelho?

NÃO TOMA LÁ, NÃO DÁ CÁ

A Itália deu o troco. Só que deu errado: furiosa com a recusa do Brasil em devolver Cesare Battisti, ela retribuiu o golpe deixando que Henrique Pizzolato também ficasse por lá. Mas a verdadeira vingança seria extraditar Pizzolato, porque o ex-diretor de marketing do Banco do Brasil faz parte do mesmo grupo político que permitiu que o companheiro Battisti, condenado pelos tribunais italianos por crimes de sangue, se instalasse por aqui como se nada. Verdade que as condições de Pizzolato na Itália nem se comparam ao dolce far niente que o ex-terrorista desfruta no Brasil. Ele está em liberdade vigiada por lá e não pode fazer muita coisa. Mas se os italianos estivessem mesmo magoados, iriam à forra se o despachassem para a Papuda. Vai ver que não estão. Ou vai ver que por lá se cumpre a letra fria da lei.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

MOSTRA À TROIS

Já fui rato da Mostra de Cinema de São Paulo. Mas este ano passei quase que toda sua duração fora do Brasil; só tive tempo para ver três títulos (além de "Relatos Selvagens", que entrou em cartaz). Nenhum dos três me empolgou...

"Azul y No Tan Rosa" ganhou o Goya (o Oscar espanhol) de melhor filme ibero-americano do ano passado. É um dos primeiros longas de temática gay rodados na Venezuela, e eu estava louco para vê-lo desde que falei dele no blog no começo deste ano. Confesso que me desapontei. O roteiro junta duas tramas que mal se tocam, um violento ataque homofóbico e a chegada do filho hétero de um fotógrafo (agora) homossexual. A produção também não é das mais requintadas e o final, quase que feliz em excesso, parece não chegar nunca. Mas o filme até que funciona como manifesto pró-LGBT num país que ainda está bem atrasado nesse quesito.

"Vivir Es Fácil con los Ojos Cerrados" tem seu título tirado da letra de "Strawberry Fields Forever", e no centro de sua trama está um professor de meia-idade que quer conhecer John Lennon pessoalmente (a ação se passa em 1966, em plena ditadura franquista). Ele parte para Almería, onde o Beatle está filmando, na companhia de uma moça fugida de um reformatório e um garoto fugido de casa. Aos poucos esses três solitários se tornam uma família improvisada, e o resultado é simpático porém algo inofensivo. Não entendi porque o filme ganhou uma pá de Goyas e ainda foi o escolhido pela Espanha para representá-la no próximo Oscar.

"Queen & Country" (as duas coisas pelas quais um soldado britânico tem que lutar, nesta ordem) ainda nem estreou lá fora nem tem poster oficial. É uma continuação tardia de "Esperança e Glória", o maravilhoso filme sobre Londres durante a 2a. Guerra que o diretor John Boorman lançou em 1987. Aqui ele pega um dos personagens, o garotinho Bill, e o mostra com 18 anos em 1952, servindo o Exército e prestes a embarcar para a Guerra da Coréia. Apesar dos ótimos atores e de algumas boas piadas, este novo filme não chega aos pés de seu ilustre antepassado, um mosaico emocionante e cômico sobre a vida debaixo de bombas.

SUZANE IS THE NEW BLACK

Eu ia soltar um post comentando as semelhanças da história de Suzane Richthofen com a da protagonista da série "Orange is the New Black", mas a crítica Luciana Coelho, da "Folha", foi mais rápida. Na verdade, o caso da brasileira é ainda mais rocambolesco - e bem mais violento - que o de Piper Kerman, a americana que inspirou o programa. Suzane sempre evitou entrevistas depois que foi em cana, mas isto está mudando. Agora, graças à revista "Marie Claire", o Brasil todo está sabendo que ela se afastou da pregação evangélica para viver com sua "marida" (que antes havia o sido de Elise Matsunaga, o que seria delicioso se não fosse mórbido). Pois é, cadeia não tem jeito: ou a presa vira crente, ou lésbica, ou ambas. Não vejo a hora desse filme entrar em cartaz.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

JUVENTUDE REPRESENTADA

Há alguns aspectos engraçados nesse episódio do #JeanWyllysMeRepresenta que sacudiu o Twitter no dia de hoje. O primeiro deles é o próprio boato espalhado pela mídia gospel de que Jean seria o "representante da juventude" no segundo governo Dilma. Então ela divulgaria esse cargo importantíssimo antes mesmo de anunciar os próximos ministros da Fazenda ou da Casa Civil? E o Jean está bem conservado para quem já tem 40 anos, mas daí a representar a juventude?? Rysos. O outro aspecto que me faz rir é essa mania brasileira de declarar guerra pelo Twitter. Ganha quem subir mais nos trending topics! E, para variar, os fundamentalistas perderam. Foram eles que deflagraram o tuitaço #JeanWyllysNãoMeRepresenta, só para serem abatidos em pleno voo pelo hashtag oposto. O que isto prova? Que há mais tuiteiros liberais do que conservadores. Você não podia ir dormir sem saber!

OK, VAI

Nunca vi ninguém comprar ou sequer baixar de graça uma música do OK Go. Nenhuma é especialmente boa - elas são, com o perdão do trocadilho, no máximo OK. Mas é nos vídeos que essa banda americana diz a que veio. Sempre elaboradíssimos, essas pequenas obras-primas de um take só assombram pela técnica prodigiosa e pelo número de tentativas e erros que a equipe deve ter atravessado para chegar ao resultado final. "I Won't Let You Down", o primeiro trabalho depois de alguns anos na moita, foi filmado com um drone e, desconfio eu, finalizado com bastante computação. Não importa: é uma festa para os olhos.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

NÓS CONTRA NÓS

Durante muito tempo, o PT adotou a estratégia do "nós contra eles". O "eles", desde que Lula foi eleito presidente, era o PSDB, um partido do qual os petistas eram até próximos em seus primórdios. Esse discurso divisivo é típico da esquerda populista latino-americana, que precisa pintar como inimigo do povo qualquer um que não comungue com seu ideário. Os tucanos fizeram uma oposição pífia aos governos do PT, e pareciam envergonhados de  serem contrários a um líder, de fato, muito popular. Mas este ano perderam a vergonha, e certos simpatizantes de Aécio - longe de serem todos, frise-se bem - perderam também as estribeiras nas redes sociais. Os ânimos se exaltaram de ambos os lados, como se o Bem absoluto e o Mal total estivessem alinhados ccada um com um partido. Passada a eleição, os dois lados continuam se portando mal. Entendo a alegria causada pela vitória, mas petistas que estão tripudiando dos derrotados deveriam se espelhar no exemplo da própria Dilma. Consciente de que tem quase metade do país contra si, a presidenta reeleita falou ontem em diálogo e em estender pontes, o que está certíssimo. Já será um enorme passo adiante se o PT abandonar o discurso do "nós contra eles"- que aliás, só funciona com maiorias de 60% para cima, como foi o caso da Venezuela durante muito tempo. Simplesmente não dá para taxar a metade da população de um país de racista, homofóbica, reacionária, etc. etc. É a METADE de um país, caralho: não são meia dúzia de gatos pingados. Já alguns aecistas também só prejudicam o próprio candidato ao xingar nordestinos, pobres e dilmistas em geral. Um amigo meu chegou a dizer no Facebook que torcia que o ebola chegasse ao Nordeste e ao Acre - além de imbecil o sujeito é desinformado, porque o AC deu a vitória a Aécio. Volto ao discurso de Dilma: a hora é de união, o que não significa unidade em torno de um só projeto. Quem insistir em desqualificar o outro lado se esquece de que esse lado é imenso, heterogêneo e cheio de gente querida. Sim, os dois lados.

CONTINUA...

Tenho a sensação de que, se a campanha tivesse durado mais dois dias, Aécio teria ganho, ainda que por bem pouco. Ele havia retomado a curva ascendente nas pesquisas, e Dilma voltara a descer, provavelmente por causa do último debate e da matéria da "Veja". Mas não deu tempo. A presidenta foi reeleita por pouco mais de três milhões de votos, a margem mais apertada da história.

Não acho que o Brasil vá afundar, nem pretendo me mudar para o exterior. O país é bem maior do que seus governos. Mas estou muito curioso para ver como Dilma vai se comportar. Dona de um temperamento centralizador e autoritário, ela interpretará o resultado das urnas como um cheque em branco para reforçar sua política econômica equivocada? Ou porá a mão na consciência e perseguirá para valer as reformas que prometeu? De boba, ela não tem nada.

O discurso da vitória foi excelente. Dilma colocou como prioridades o diálogo e a reforma política. Tomara que ela tenha se dado conta que praticamente a metade da população não a queria mais no Planalto, e que tem que governar para todos. O papo de "elite branca" não cola mais: 48% do eleitorado não podem ser chamados de racistas, homofóbicos, alienados e reacionários, como querem alguns petistas mais exaltados. É gente demais para ser ignorada ou destratada.

A reforma política é a maior urgência que temos. Dilma bem que tentou emplacar um plebiscito em junho de 2013, atendendo às reivindicações das ruas. Mas foi bombardeada por todos os lados - principalmente pelo nefasto PMDB, o partido que mais tem a perder se a democracia brasileira tornar-se minimamente funcional. Quero crer que a presidenta esteja farta do clientelismo que gerou o mensalão e o petrolão, e que sonhe com um sistema mais justo e honesto.

Os próximos anos serão turbulentos. Como se não bastassem os (dolorosos) ajustes necessários para que a economia volte a crescer, existe ainda o espectro da Petrobrás. Não tenho a menor dúvida de que Dilma sabia de tudo (sua amigona Graça Foster está no comando da estatal), mas talvez fosse voto vencido. Agora, se o caldo entornar, corre até mesmo o risco de ser "impichada". Não torço para isto, porque daí quem assumiria a cadeira seria... Michel Temer.

E o Aécio, hein? Por muito pouco, ele não protagonizou a maior façanha política de todos os tempos, deslanchando de um longínquo terceiro lugar nas pesquisas para uma vitória consagradora. Mas, ao contrário de José Serra em 2010, ele não sai desta eleição menor do que entrou. Ainda tem quatro anos de mandato no Senado: pode aproveitar este tempo para fazer a oposição que não fez nos primeiros quatro, porque agora tornou-se um líder de expressão nacional que canaliza os anseios de boa parte do eleitorado. É mais que provável que concorra em 2018, possivelmente contra Lula (até porque o PT carece de outros quadros).

Para terminar, é importante lembrar que a política não termina com a eleição. Ela continua, todos os dias, todos os anos, a cada momento. Estamos saindo desse pleito mais conscientes e atentos do que nunca, e precisamos vigiar cada passo dos eleitos. Pessoalmente, eu estou muito interessado num ponto: conseguirá Dilma criminalizar a homofobia, como tanto prometeu durante a campanha? Quererá Dilma criminalizar a homofobia? Tenho dúvidas sérias quanto ao compromisso dela como os LGBT, mas pago para ver. Paguemos todos.

domingo, 26 de outubro de 2014

POR ESO SOY VENGATIVO


Filmes em episódios costumam ser muito irregulares. Mas quando esses episódios são todos escritos e dirigidos pela mesma pessoa e essa pessoa é Damián Szifrón, o resultado é espetacular. "Relatos Selvagens" é ainda melhor do que "Tempo de Valentes", o longa anterior desse diretor argentino, que no entanto passou discretamente no Brasil em 2005 - merecia ser lembrado por nós como uma obra-prima do quilate de "O Filho da Noiva". Depois de trabalhar um tempo na TV, Szifrónn volta com um título que fez sucesso no festival de Cannes deste ano e é o indicado por seu país para concorrer a uma vaga na disputa pelo Oscar de filme em língua estrangeira. São seis histórias curtas de vingança, todas em chave de humor - umas mais, outras menos, é verdade - e todas com finais surpreendentes. O elenco primoroso inclui o obrigatório Ricardo Darín e uma atriz de telenovelas que eu não conhecia, Erica Rivas, absolutamente da pá virada. Os enquadramentos são formidáveis, a decupagem é magistral e a trilha sonora do duplamente oscarizado Gustavo Santaolalla se mistura bem a hits bregas de rádio. Difícil dizer qual o melhor segmento. O primeiro, a bordo de um avião, que termina antes mesmo dos créditos de abertura? O último, que se passa numa interminável festa de casamento? Ou o da estrada em Salta, praticamente um desenho animado do Bip-Bip com atores de carne e osso? "Relatos Selvagens" acaba de usurpar o título de melhor filme do ano até agora, que eu havia dado semana passada para o canadense "Mommy". É um filme entusiasmante, inspirador e divertidíssimo.

A OPOSIÇÃO INCANDESCENTE

Antonio Prata assina um artigo interessante na "Folha" de hoje chamado "A Oposição Fluorescente". Lá ele imagina como vai se comportar a chamada "direita raivosa" - os fundamentalistas, a bancada da bala, os saudosos da ditadura - se Dilma for reeleita. É verdade que o Brasil teve a manha de eleger um Congresso ainda mais conservador que o anterior, que vai dar trabalho a qualquer presidente que se eleja hoje. Mas minha proposta aqui é outra: quero complementar o pensamento de Prata, imaginando como que o PT vai reagir se for alijado do poder. Ainda hoje começarão as acusações de fraude e as ameaças à "imprensa golpista". O slogan "Fora Aécio" surgirá antes mesmo do novo presidente tomar posse, e seu impeachment será proposto já em janeiro. O PT aparelhou o estado como nenhum outro partido o fez antes, nem mesmo a finada Arena. Essa companheirada sem emprego de uma hora para a outra irá se enfurecer, e criar todos os obstáculos possíveis para o novo governo. Por outro lado, acho que pode fazer bem ao PT voltar à oposição. O partido terá a chance de se livrar dos parasitas, fazer uma avaliação interna e voltar purificado nas próximas eleições. Mais próximo do PSOL que do PMDB. Saberemos logo mais.

sábado, 25 de outubro de 2014

AS RAZÕES DE CADA UM

Chegamos às vésperas da eleição com o país rachado ao meio. Há um abismo de opinião separando ricos e pobres, educados e não-educados, Nordeste e Sudeste. Mas o que será lembrado no futuro é a divisão nas redes sociais, com amigos de longa data trocando insultos e se desqualificando mutuamente. Uma exaltação desnecessária. Eu vou votar no Aécio, mas nem por isto acho que quem vota em Dilma seja um completo imbecil. Porque enxergo com clareza algumas razões bastante fortes para votar (e deixar de votar) em um ou no outro:

RAZÕES PARA VOTAR EM DILMA: a diminuição da desigualdade, o sucesso do Bolsa-Família, o baixo nível de desemprego, o crescimento da "nova classe C", a quase eliminação da pobreza extrema e da fome, a luta contra a homofobia.

RAZÕES PARA NÃO VOTAR EM DILMA: o mega-escândalo da Petrobrás, a inflação crescente, o crescimento zero do PIB, os preços artificiais da eletricidade e dos combustíveis, a política externa equivocada, a desconfiança quanto à livre iniciativa, o abandono dos ideais sociais em troca de apoios espúrios.

RAZÕES PARA VOTAR EM AÉCIO: a mudança profunda na condução da economia, a diminuição do papel do estado, a autonomia do BC, o plano Real, o apoio explicitado em programa à adoção de crianças por casais homossexuais.

RAZÕES PARA NÃO VOTAR EM AÉCIO:
a imagem de playboy, os escândalos protagonizados pelo PSDB, o apoio dos setores mais reacionários da sociedade.

Como vocês podem perceber, pelo meu cálculo é o Aécio sai ganhando, e é por isto que eu vou votar nele. Mas eu não contabilizei um fator que paira acima de todas essas razões: a emoção. A empatia, a identificação, o vai-com-a-cara. Se ela for forte, nenhuma outra razão, pró ou contra, é necessária.

Boa eleição para todos nós. E boa sorte para o vencedor, seja lá quem for: ele só representará metade do país, mas terá que governar para todos.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

À TOUT À L'HEURE

Comprei só 11 discos nessa viagem. Quase 200% a menos do que no meu périplo por Turquia e Grécia no ano passado. Mesmo assim, podia ter adquirido quase tudo antes na iTunes Store. Mas, e o frisson de entrar numa loja e me deixar seduzir por esquisitices? Só que sobrou quase que só a FNAC e mais nada (a Virgin da Champs-Elysées, minha favorita, não está mais entre nós). Foi lá que fiz uma pequena festa, incluindo o novo da Yelle. "Complètement Fou" parece ter sido gravado nos anos 80, o que não é ruim, mas mostra que o pop francês está precisando de novidades. Depois eu conto o que mais estou trazendo na mala. Agora preciso fechá-la, porque meu táxi para o aeroporto chega daqui a pouco.

LA PROMENADE DES SOURIS

Eu sonhava em conhecer a Promenade Plantée desde que ela serviu de cenário para uma cena de "Antes do Por-do-Sol", a segunda parte da mais longa D.R. da história do cinema. Esse parque suspenso construído sobre uma antiga estrada de ferro é um antepassado direto da High Line de Nova York e - quem sabe - do Minhocão de SP daqui a alguns anos. Hoje finalmente realizei meu sonho, que quase virou pesadelo. Segui a Ópera da Bastilha pelo lado mais perto da margem do rio até encontrar a primeira escada de acesso. Mal subi, ouvi uns barulhos na folha. Um esquilinho? Um rato. E outro. E outros. Todos sem medo, andando com calma para lá e para cá. Logo adiante, um senhor sentado no banco examinando uma ferida na perna. Uma mordida. Au revoir, à beintôt, desci na primeira saída.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

GRAND ET PETIT

Até hoje de manhã, eu havia entrado uma única vez no Grand Palais, aquele magnífico pavilhão de ferro e vidro construído para a Exposição de 1900, bem no meio da Champs-Elysées. Foi numa mostra sobre Maria Antonieta em 2008, numa galeria lateral. Hoje finalmente consegui conhecer o imenso salão principal. Uma amiga brasileira que é marchande nos arranjou convites para a Fiac (Feira Internacional de Arte Contemporânea), um dos maiores encontros de galerias e colecionadores do mundo inteiro. Todas as fodonas estão lá: White Cube, Gagosian e até... House of Gaga. Já disse algumas vezes aqui no blog que tenho preferido este tipo de evento às bienais, porque neles o melhor da arte que se faz hoje vem meio sem filtro e quem faz a curadoria (mental) é o visitante. Fora que o público ultra-branché é uma atração à parte.

Depois atravessamos a rua rumo ao Petit Palais, uma novidade absoluta para ambos. E deixamos nossos queixos caírem com a époustouflante retrospectiva dos cristais Baccarat. São tantos copos, lustres e objetos expostos em fundo escuro e sob luz dramática que o efeito é o de uma grande instalação fantasmagórica. Fica em cartaz até o dia 4 de janeiro do ano que vem. Programa certeiro para quem vier com a mãe em Paris: nunca vi tantas senhoras juntas, mais assanhadas do que se estivessem numa liquidação das Galeries Lafayette.

DEZ TIPOS DE PRESUNTO COZIDO

Fazer compras de comida na França é um experiência fantástica e frustrante ao mesmo tempo. Fantástica porque a variedade dos produtos oferecidos supera a de qualquer hipermercado brasileiro. Numa biboca do banlieue, certa vez eu contei mais de dez tipos de presunto cozido (fora os crus, os temperados, os outros frios...). Achei que ia morrer quando entrei na Barthélemy, uma pequena loja de queijos na rue de Grenelle, cujo interior é dominado por uma poeira aromática capaz de perfurar as narinas mais sensíveis. E quase pirei o cabeção quando, por indicação de uma amiga, conheci a Grande Épicerie de Paris, nas esquinas das ruas de Sèvres e du Bac (na mesma quadra e lado que a famosa capela). Mas também saí frustrado, porque, apesar da nossa natureza exuberante, ainda estamos a alguns anos-luz dessa cultura gastronômica. Nem as boulangeries francesas que andam brotando no Rio e em SP conseguem fazer um pão tão bom quanto os daqui, e a explicação é simples: nossos ingredientes são medíocres. Farinha ruim, manteiga ruim, leite ruim e assim por diante. Sei que devo estar soando como um coxinha-imperial ao reclamar dos brioches num país onde ainda existe tanta desigualdade, mas o meu objetivo é mais alto. Quero brioches para todom mundo, e também champagne, caviar e dez tipos de presunto cozido.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

MINHA CAABA

Hoje parti em peregrinação a uma espécie de Meca pessoal. Tomei um trem de Paris para Bruxelas e de lá peguei outro rumo a Louvain-la-Neuve, pequena cidade universitária a 25 quilômetros da capital belga. É lá que se ergue o santuário a um dos meus maiores ídolos: Hergé, o criador do Tintin. Um museu desenhado pelo arquiteto francês Christian de Portzamparc (o mesmo da Cidade das Artes no Rio de Janeiro), com janelões nas laterais que parecem quadrinhos num página. Ou melhor, bande dessinée, a insuperável expressão francófona para a chamada "nona arte". E arte é o que não falta: a mostra inclui pranchas originais, influências, rascunhos, filmes, revistas, objetos reais e imaginários (o fetiche arumbaia!) e até parte da coleção de pinturas modernas que Hergé possuía, inclusive seu retrato pintado por Andy Warhol. Para mim foi um mergulho na minha própria formação. Porque Tintin é isto: uma maneira maravilhosa de se descobrir o mundo. Eternamente curioso, corajoso e assexuado, o jovem "repórter" (que só nas primeiras aventuras foi visto escrevendo reportagem alguma) quase não tem personalidade, permitindo que qualquer leitor se projete nele. Eu conheço todos os álbuns de cor e salteado, então imagina os orgasmos mentais que eu tive ao vê-los materializados à minha volta neste pequeno museu. Claro que eu já sabia de muita coisa que estava sendo dita pelo audioguide e pelas legendas das vitrines. Sou tintinólogo há mais de 30 anos e devo ter lido uns 20 livros sobre o assunto. A visita se completou com um pulo na lojinha, a mais bem fornida de camisetas, chaveiros e bonecos que eu jamais sonhei. Estou muitos euros mais pobre na carteira, mas alguns milhões mais rico por dentro. Só há um Deus que é Tintin e Hergé é seu profeta.

PERDIDO NA TRADUÇÃO

E aí você acha que esmerilha no francês, até o momento em que é confrontado com uma comédia contemporânea sem legendas. Olha, eu entendi bem a história de "Un Dîner d'Adieu" ("Um Jantar de Despedida", em tradução livre), mas confesso que perdi boa parte das piadas que faziam a plateia se esborrachar de rir. A peça é o novo megasucesso de Alexandre de la Patellière e Matthieu Delaporte, os autores de "Qual É o Nome do Bebê" - que também nasceu no teatro antes de se tornar um filme de enorme sucesso na França. Aqui, a história gira em torno de um casal burguês que quer se livrar de um amigo mala; este descobre as artimanhas da dupla e fica mais mala ainda. Os atores são todos fenomenais e o texto é um tiroteio verbal. Eric Elmosnino, que fez Serge Gainsbourg no cinema, tem um "bife" de dez minutos onde fica gaguejando e procurando as palavras certas depois de ser pego no flagra, um autêntico tour de force. Mas o espetáculo foi um substituto pobrezinho para "Kinship", com Isabelle Adjani e Carmen Maura. Eu já havia comprado ingressos para este quando recebi o aviso de que a estreia havia sido adiada, hélàs, provavelmente por causa do nervosismo de mlle. Adjani. Enfim, é sempre uma experiência luxuosa ir ao teatro em Paris. Mas antes da próxima vez eu talvez deva dar uma passadinha na Aliança Francesa.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

MON CARNET D'EXPOSITIONS

O bom de passar tantos dias em Paris é que posso estar flanando e de repente entrar numa exposição que eu nem sabia que existia. As que eu vi até agora:

LES BORGIA ET LEUR TEMPS - 
até 15 de fevereiro de 2015 no Musée Maillol
A família proto-mafiosa não sai de moda. Depois de inspirar duas séries de TV, os Borgias agora ganham uma exposição no pequeno museu Maillol, pertinho da rue du Bac. Tem telas de Michelangelo e Leonardo da Vinci, muita arte sacra e boas explicações sobre o contexto político da época. Termina com cartazes de filmes sobre Lucrécia Borgia e figurinos para a televisão.

SAINT-LOUIS - até 11 de janeiro na Conciergerie
O rei-santo, uma das pedras fundamentais da França, ganha uma exposição didática na apavorante Conciergerie, a prisão de maria Antoineta.


INSIDE - até 11 de janeiro de 2015 no Palais de Tokyo
Ah, a falta que faz uma boa curadoria... Essa mostra temática deixa no chinelo quase toda a Bienal que está em cartaz em São Paulo. Inclusive tem a participação de brasileiros como Marcius Galan, que fez um incrível espelho falso.

MAROC MEDIÉVAL - UN EMPIRE DE L'AFRIQUE A L'ESPAGNE
até 19 de janeiro de 2015 no Musé du Louvre

Os subterrâneos do Louvre sempre têm alguma exibição temporária interessante. Dessa vez são centenas de objetos dignos das Mil e Uma Noites, como um sino espanhol capturado por um sheik marroquino e transformado em lustre. Uma mostra sobre a ilha grega de Rodes estreia em novembro e também segue até o começo do ano que vem.

MARCEL DUCHAMP - LA PEINTURE, MÊME
até 5 de janeiro de 2015 no Centre Pompidou

Um mergulho não só na obra como no entorno de um dos artistas mais influentes de todos os tempos. Além dos "praticáveis" e da inevitável Mona Lisa de bigode, há fotos de Man Ray, filmes de Meliés e toda uma ambiance da Paris de antes da 2a. Guerra, muito mais moderna do que hoje em vários sentidos. Uma cidade que realmente H. O. O. Q. (entendeu? entendeu?)

ROBERT DELAUNAY - RHYTHMES SANS FIN, 
até 12 de janeiro de 2015 no Centre Pompidou
Uma pequena retrospectiva desse pintor francês do começo do século passado, que tinha uma visão pra lá de otimista dos avanços tecnológicos. Os quadros de Delaunay "transbordam modernidade", segundo o próprio catálogo da mostra. E capturam o entusiasmo trazido por inovações como a luz elétrica, os automóveis e a aviação. Algumas telas parecem se movimentar sozinhas. Bônus: os posters e projetos da Exposição Universal de 1937.
GARRY WINOGRAND -
até 8 de fevereiro de 2015 no Jeu de Paume

Ao longo de sua carreira, este fotógrafo americano já falecido foi transformando suas imagens jornalísticas em verdadeiras obras de arte. Focando na vida cotidiana de Nova York e de alguns poucos outros lugares, sempre nos EUA, Winograd conseguia flagrantes tão surrealistas que pareciam posados. Uma retrospectiva completa de seu trabalho ocupa quase todo o pequeno Museu do Jeu de Paume, que anotgamente hospedava boa parte das obras do século 19 hoje à mostra no Musée d'Orsay. Que, por sua vez, está com uma exibição temporária inspirada no Marquês de Sade... Haja disposição.


Ainda tenho alguns dias pela frente, portanto esa lista pode aumentar.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

EGOÏÏÏÏÏSTE

Estou exausto & bêbado & exultante & etcétera depois de um dia intenso e de um inesquecível jantar de NOVE pratos num pequeno restaurante chamado Roseval. Não tenho a menor condição de escrever nenhum texto profundo, mas quero deixar registrada aqui minha eterna admirção por Jean-Paul Goude. Esse artista francês, responsável pelo visual de Grace Jones nos anos 80, está com algumas obras expostas no Beaubourg (prometo que depoi eus faço um post mais extenso sobre as muitas exposições que ando vendo aqui em Paris). Entre elas está este comercial incrível de mais de 20 anos atrás, inteiramente rodado no Brasil. E agora bonne nuit, porque meus pés estão me matando. Amanhã tem mais.

O SERRALHO A QUATRO

Tantos anos vindo a Paris, e eu jamais tinha posto os pés na Ópera - hoje mais chamada de Palais Garnier, por causa da nova ópera da Bastilha. Mas eu não queria pegar uma dessas esxcursões de turistas que visitam o auditório vazio. Queria ver um espeáaculo, de preferência uma ópera mesmo, de preferência uma que eu nunca tivesse visto. E consegui: depois de muito penar na internet, acabei comprando diretamente da bilheteria dois ingressos para o quarto andar, quase na torrinha. Com visão parcial do palco e ainda por cima uma lésbica masculina na minha frente, debruçada sobre o espaldar. Mas a ópera em si foi boa, se bem que não sensacional. A atriz Zabou Breitman deu um ar de filme mudo a "O Rapto do Serralho" de Mozart, ajudada por dançarinas do ventre, cantores jovens e magros que realmente tinham o physique de seus papéis e um "mar" que parecia se mexer de verdade. A música contém alguns quartetos dificílimos mas nenhuma ária famosa, e é sempre engraçado ver personagens turcos cantando em alemão. Uma montagem eficiente porém convencional, que não conseguiu ofuscar a opulência do próprio Palais. Matriz inspiracional dos Municipais do Rio e SP, a Ópera de Paris é a nave-mãe. Toda bicha fina precisa tê-la no currículo.

domingo, 19 de outubro de 2014

ELECTRIZANTE

Eu nunca tinha visto uma peça do teatro grego clássico. Claro que conheço as histórias de Édipo, Medéia e sua turma, mas assistir a uma montagem? No Brasil elas são raríssimas. Talvez porque a gente imagine o teatro grego como aquela chatice sem tamanho onde atores de máscara falam sozinhos ou com os deuses, e um coro também mascarado faz comentários sem enxo até que todo mundo morre no final. Mas, como qualquer clássico, um texto de Sófocles pode ser adaptado – até “modernizado” – sem perder a sua essência. É o que acontece com a versão de “Electra” que eu tive o privilégio de ver no lendário teatro Old Vic, um dos mais tradicionais de Londres. E, no papel-título, ninguém menos que uma das minhas atrizes favoritas EVAH, a divina Kristin Scott-Thomas. Que não decepciona. Com cinquenta anos e uns trocados, ela consegue se transformar numa adolescente raivosa (Electra tem uns quinze) que quer matar a própria mãe, porque esta matou o pai, porque este matou a outra filha. Sim, a Grécia antiga era barra pesadíssima, e tragédias em série como estas podem nos parecer distantes no tempo. Mas a condição psicanalítica de Electra é tão comum que se transformou, graças a Jung, na contrapartida feminina do complexo de Édipo. Voltando à peça: com um cenário simples porém impactante, figurinos despojados e música de P. J. Harvey, essa “Electra” é uma pedrada. O elenco inteiro está perfeito, mas Kristin – que se descabela, se espoja no chão, grita feito uma desesperada e ainda faz a plateia rir – entrou para o panteão das deusas que eu já vi no palco, como Vanessa Redgrave, Maggie Smith e Isabelle Huppert. Obrigado, papai do céu, por reconhecer que eu tenho sido um bom menino.

sábado, 18 de outubro de 2014

MÁS-VINDAS

Bem que o papa Francisco tentou. Mas a bispaiada reunida no Sínodo do Vaticano parece que não leva a sério o dogma da infalibilidade papal. Os parágrafos que davam boas-vindas aos gays foram retirados do documento final do encontro, pois não alcançaram os dois terços dos votos necessários. É o que dá tentar transformar a Igreja numa democracia... Mas Francisco faz questão de que a versão original, a sua, também seja publicada, como que para deixar bem claro de que lado ele está. Tem toda a razão: enquanto a Igreja não receber os homossexuais de braços abertos, sem restrições, não dá nem para passar perto.

FILIPINO LINE DANCING!


Quatro anos atrás, David Byrne e Fatboy Slim lançaram a trilha sonora de "Here Lies Love", uma ópera-disco sobre a vida da ex-primeira dama filipina Imelda Marcos. Na época amei o disco, mas achei que jamais teria chance de ver o espetáculo montado. Tive: fiquei sabendo que ele estrearia em Londres, e incluí um rasante na capital inglesa nesta minha viagenzinha só para poder vê-lo. Não me decepcionei. O libreto não é grande coisa dramaturgicamente - a história é contada em linha reta, sem nenhum artifício - mas a direção de Alex Timbers é excepcional. Uma das salas do complexo do National Theatre foi reformada para se parecer com uma boate, e eu fiz questão de estar na plateia em pé, na "pista", bem no meio do fuzuê. Tive que me incorporar à peça e aprender o filipino line dancing, uma versão asiática do antigo hustle. É fácil: left, right, left right, up, down, up, down... Mesmo assim, algumas velhinhas sacudidas dançavam muito melhor do que eu. Tudo isto enquanto plataformas se formam e se desmancham à nossa volta, com os atores rodopiando bem na frente dos nossos narizes. O elenco, todinho de ascendência oriental, é nada menos que fantástico. A protagonista Natalie Mendoza consegue a proeza de cantar e dançar maravilhosamente e ser ainda mais bonita que a Imelda original quando jovem (a atriz que aparece no vídeo acima não é ela, é a da montagem de Nova York). "Here Lies Love" foi uma das experiências teatrais mais incríveis que eu tive na vida. Valeu a pena ter esticado até Londres.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

POR QUE VOCÊ NÃO GOSTA DE MING?

O nome Ming virou sinônimo de vaso precioso no Ocidente, e portanto de desastre. É só aparecer um vaso da dinastia Ming num filme que - pode apostar - dali a alguns segundos ele irá se espatifar no chão. Mas os Ming eram muito mais que isso. Reinaram sobre a China durante 300 anos, logo após o domínio mongol, e transformaram o país no maior e mais poderoso do planeta. Seus navegadores chegaram até a África e talvez à América; seus artistas atingiram um nível de refinamento jamais igualado. O British Museum está exibindo uma mostra que cobre apenas 50 anos desse período glorioso, e eu, que vim a Londres para ver duas peças de teatro, aproveitei a manhã para visitá-la. Claro que é deslumbrante e instrutiva. Serviu até para aliviar um pouco da birra que eu tenho hoje em dia da China. Depois fui dar um alô aos "Elgin Marbles", aqueles pedaços do Partenon que os ingleses roubaram no século 19 e que a Grécia quer de volta. Como estive no Museu da Acrópole no ano passado, agora a visita se completou. Ainda visitei uma exposição chamada "Ancient Lives, New Revelations" sobre múmias egípcias, e mais nada. Há mais de trinta anos, quando vim a Londres pela primeira vez, passei um dia inteiro no British e não vi tudo. Talvez precisasse de uma semana toda para explorá-lo, mas quem tem tempo?

A MÃE DE TODAS AS BATALHAS


Xavier Dolan chegou lá. Esse diretor canadense de apenas 25 anos causou celeuma com sua estreia cinco anos atrás, o emocionalmente violentíssimo “Eu Matei Minha Mãe”. Seus filmes seguintes não repetiram o mesmo impacto, mas agora ele retoma o tema do primeiro: “Mommy” também trata da conturbada relação entre mãe e filho. Só que dessa vez o garoto não é gay, ou pelo menos ainda não – há uma cena rapidíssima que sugere que ele se interessa por outros rapazes, mas é só. Seu problema na verdade é um DDA ao extremo, que lhe confere um comportamento agressivo e sucessivas temporadas em reformatórios. Dolan filma quase tudo em tela quadrada, o que dá sensação de claustrofobia ao espectador. Mas de vez em quando o quadro se abre e respira, e o efeito dramático é poderoso. Se estivesse falando inglês, a atriz Anne Dorval já seria barbada para o Oscar. Mas ela fala aquele incompreensível francês do Canadá, e eu só entendi o filme porque havia legendas em francês “normal”. “Mommy” ganhou um prêmio em Cannes, é o representante de seu país no Oscar de filme estrangeiro e acabou de passar no Festival do Rio, mas ainda não tem estreia anunciada no Brasil. Tomara que entre logo em cartaz: acho que é o melhor filme que eu vi este ano até agora.