quarta-feira, 1 de abril de 2015

SÓ NOS RESTA PECAR

O pecado anda em falta no mundo, e por isto o Vaticano achou por bem criar uns novos. A lista com seis pecados "do capital" foi divulgada esta semana, e claro que já está sendo criticada. Para começar, por que só seis? Ninguém conseguiu pensar num sétimo, só por uma questão de simetria? E por que não bolaram nomes únicos, como "gula" ou "luxúria"? Desse jeito fica difícil decorar. Enquanto isto, devemos todos imprimir a lista abaixo e levá-la na carteira:

1. Fazer modificação genética
2. Poluir o meio ambiente
3. Causar injustiça social
4. Causar pobreza
5. Tornar-se extremamente rico
6. Usar drogas 

Hmm, os números 2, 3 e 4 são meio que indiscutíveis. O 5 peca pela formulação: acho que o errado seria manter uma grande fortuna, não conquistá-la. A moda atual entre os bilionários americanos é livrar-se dela, distribuindo-as por ONGs e diversas causas sociais. E bem que o riquíssimo Vaticano podia começar dando o exemplo... E o número 6? Se fosse para valer, deveriam abolir o vinho da Santa Missa. Mas o mais polêmico é, de longe, o número 1. Não há um único vegetal cultivado pelo homem, nem nenhum animal domesticado, que não tenha passado por modificações genéticas - seja em laboratório, seja através dos milênios. A própria hóstia é feita com farinha de trigo manipulado, completamente diferente do que existia na natureza. Mas há uma boa notícia: nenhum dos novos pecados tem conotação sexual. O Vaticano se furtou de incluir na lista modernices como "comparecer a um casamento gay" ou "assistir 'Babilônia'". Meno male, né não?

DIMENOR

Acho que o debate recomeçou para valer com o caso Champinha, no final de 2003. O rapaz, parte de uma gangue que sequestrou um casal de namorados, estuprou e matou a moça a facadas. Foi preso pouco depois, mas não pôde ser mandado para a cadeia: havia cometido o crime pouco antes de completar 18 anos.

De lá para cá houve mais alguns casos de delitos graves envolvendo adolescentes, mas bem menos do que os programas policiais querem nos fazer acreditar. Menos de 1% de todos os crimes são de autoria de menores de idade, e uma fração ainda menor pode ser considerada hedionda. Mas é fato que os "dimenor" são usados por traficantes, e que a cultura de violência predominante em algumas favelas e bairros da periferia estimula o ingresso cada vez mais cedo na vida de fora-da-lei.

Junte-se a isto o clima de terror existente na classe média, amplificado por um noticiário muitas vezes irresponsável, e o resultado é que a redução da idade penal tem amplo apoio popular no Brasil. Mas será que ela funciona de verdade?

Vamos tentar desideologizar o debate. Nessas horas eu evito as ideias preconcebidas e procuro ser pragmático: como é que é nos outros países? Meu critério é simples. O Brasil deveria adotar leis parecidas com a de países onde todo mundo, em sã consciência, gostaria de morar. Desse jeito já descartamos lugares como o Paquistão, a Arábia Saudita e quase toda a África. Em alguns deles a lei é tão rigorosa que permite a prisão de crianças de sete anos (!!). E sim, a criminalidade costuma ser baixa. Mas repito a pergunta: quem quer morar lá?

No mundo mais civilizado, a coisa varia muito. A maioridade penal na Inglaterra é surpreendente: apenas 10 anos de idade. Talvez um resquício da Idade Média, quando se enforcavam meninos que roubavam pão. Em alguns dos estados americanos tem neguinho (literalmente) cumprindo prisão perpétua por crimes cometidos aos 14 anos. Pelo menos não executam mais crianças...

E aí temos o caso de Cuba, onde a maioridade penal começa aos 16. Mas Cuba não vale: é um planeta paralelo, onde a gravidade é diferente da daqui. Sem falar que Japão ou Espanha baixaram a idade e depois voltaram aos 18 anos, ao perceberem que os problemas são maiores que os supostos benefícios.

Problemas estes que seriam terríveis no Brasil. Se nossos reformatórios já são um horror, o que dizer de uma penitenciária? Um moleque seria comido vivo, em vários sentidos. Fora que é imoral termos prisões para eles, mas não escolas.

Além do mais, quadrilhas seriam estimuladas a utilizar garotos ainda menores. E a criminalidade desceria algum pontinho? Nope. A sensação de segurança aumentaria? Só na cabeça dos reacionários. O Brasil seguiria igual, ou pior.

Qualquer coisa que surja na bancada BBB (boi, bala e bíblia) do Congresso e seja endossada pelo Eduardo Cunha merece o repúdio automático das pessoas de bem. Levando tudo isso em conta, acho que agora eu posso dizer que sou contra a redução da idade penal. Ela só vai causar mais sofrimento em quem já está frágil, e nenhuma vantagem para ninguém. Temos problemas maiores a resolver.

terça-feira, 31 de março de 2015

#AHOMOFOBIAÉ... RUIM PARA TODOS

O iGay, portal LGBT do iG, está comemorando dois anos sob o comando da minha querida Ana Ribeiro. E ela teve uma ideia ótima para celebrar a data: a exposição/campanha "A Homofobia É...", que abriu ontem na Prefeitura de São Paulo e em meados de abril será transferida para o Conjunto Nacional. São 50 fotos onde celebridades de todas áreas dão sua definição para esta praga contemporânea - nenhuma delas lisonjeadora, claro (confira todas aqui). O mais legal é que quem quiser também pode participar, tirando sua própria foto ou compartilhando sua frase nas redes sociais (não se esqueça de usar a hashtag #AHomofobiaÉ, assim mesmo, tudo junto e com acento). Qual é a minha? #AHomofobiaÉ ruim para todo mundo, assim como o racismo ou o machismo. Esses preconceitos visam apenas as minorias, mas acabam sendo maléficos para a sociedade como um todo - inclusive para os preconceituosos. E qual é a sua?

A TIA E AS SOBRINHAS

Não resisto a postar quase todas as performances de Madonna em cerimônias de entrega de prêmio, porque ela costuma inventar alguma novidade. Nos iHeart Radio Awards de domingo passado, ela se fez acompanhar por Taylor Swift no violão ao cantar seu novo single "Ghosttown". É um hábito recorrente de Sua Madgestade: aparecer ao lado de alguma cantora bem mais jovem e que esteja fazendo bem mais sucesso do que ela no momento, como que para dizer "são todas minhas súditas". Ela já fez isto com Britney Spears, Christina Aguilera, Katy Perry, Miley Cyrus e até com Lady Gaga num esquete do "SNL", antes das duas se desentenderem por causa de "Born This Way". O curioso é que Madonna jamais fez coisa parecida com suas colegas de geração, como Whitney Houston, Cyndi Lauper ou Mariah Carey. Talvez porque estas divas não devessem suas carreiras às trilhas desbravadas pela (ainda) rainha do pop? Comenta aê.

segunda-feira, 30 de março de 2015

A LIBERDADE DE SER IDIOTA

Apesar do avanço brutal dos direitos LGBT nos Estados Unidos, os reaças de lá não param de inventar maneiras criativas de legalizar o preconceito. Agora está na moda uma certa "liberdade religiosa": se a fé do sujeito condena o casamento gay (e quase todas condenam), então o cara está livre para até mesmo recusar serviço em restaurante a fregueses que aparentem viadagem. No ano passado os parlamentares do Arizona aprovaram uma lei nesse estilo, que foi vetada na última hora pela governadora Jan Brenner - a ameaça de bociote por grandes empresas e consequente perda de empregos no estado falou mais alto. Mas uma barbaridade parecida acaba de ser sancionada pelo governador de Indiana. A reação está sendo avassaladora: um número enorme de celebridades se pronunciou nas redes sociais, e a lei aberrante virou motivo de chacota nos programas de humor. Assustado com o desastre de relações-públicas, o governador Mike Pence já está dando entrevista dizendo que veja bem, não é bem assim, e que a lei não tem nada de discriminatória (só faltou dizer que tem muitos amigos gays). Mas é discriminatória, sim. Já se percebeu que havia vários lobistas anti-gay no momento da assinatura da nova lei, deixando claro de onde partiu a inspiração. E, para piorar encrenca ainda mais, a legislação pode abrir as portas para o antissemitismo e outros horrores. Sim, um lojista "cristão" pode se recusar a atender um cliente judeu, porque, afinal, ele não reconhece Jesus, néam? Vamos ver se Pence volta atrás, já que o custo político para ele está se revelando muito maior do que eventuais ganhos. E fiquemos alertas, porque daqui a pouco nossa querida bancada evangélica pode tentar introduzir essa excrescência por aqui. Com a Dilma enfraquecida, sei não...

BIBIDI-BÓBIDI-BU


Eu não estava muito animado para ver este remake de "Cinderela" com atores de carne e osso. As primeiras críticas diziam que a única coisa que valia a pena era a madrasta, feita por Cate Blanchett. Ela de fato está divina, mas o filme como um todo me surpreendeu. É uma releitura ortodoxa não do conto de Perrault, mas do desenho da Disney. A grande diferença é que quase não há canções - mas mantiveram os ratinhos e até mesmo o "bibidi-bóbidi-bu", a célebre palavra mágica da fada madrinha. Não houve nenhuma mudança no ponto de vista (como em "Malévola") ou tentativa de transformar a protagonista em guerreira feminista (como em "Branca de Neve e o Caçador). Os rasos não vão gostar, porque Cinderela continua sendo uma mocinha passiva que encontra a redenção através de um bom casamento. Mas quem leu Bruno Bethelhem sabe que o buraco é mais em baixo. Como nas outras histórias de princesa, o assunto aqui é a passagem da infância para a idade adulta (isto é, para a sexualidade), e a madrasta/bruxa nada mais é do que uma metáfora da mãe que não quer que seus filhos cresçam. Tudo isto foi respeitado, e o orçamento que permitiu efeitos especiais e figurinos deslumbrantes garantiu um bom resultado. O elenco é uma mistura de "Downton Abbey" com "Game of Thrones", mas quem brilha mesmo é Cate Blanchett (e Helena Bonham-Carter também, embora numa única cena). Gostei bem mais do que eu esperava desse "Cinderela", só que saí do cinema torcendo por uma versão onde a madrasta fosse a personagem principal.

domingo, 29 de março de 2015

A CALCADA DA FAMA


Julianne Moore teve um ano maravilhoso. Ganhou todos os prêmios por seu papel em "Para Sempre Alice", inclusive o Oscar. Foram tantos que ofuscaram o outro troféu importante que ela faturou em 2014: o de melhor atriz no Festival de Cannes por "Mapas para as Estrelas". O mesmo filme deu a ela uma inexplicável indicação para melhor atriz de comédia no Globo de Ouro. Porque essa nova doideira do diretor David Cronenberg tem lá sua acidez, mas está longe de provocar o mais tênue sorriso. A trama se passa em Hollywood e envolve uma atriz de meia-idade, um astro adolescente, um guru/massagista com clientela famosa e uma garota esquizofrênica e perigosa. Coisas estranhas acontecem por onde ela passa, até culminar numa sequência horripilante de cenas finais. Eu gostei, mas muita gente vai estranhar - o roteiro é uma alegoria sobre a busca pela fama a qualquer preço. Depois não diga que eu não avisei.

sábado, 28 de março de 2015

QUANDO TRÊS SÃO MENOS QUE UM

Paul Haggis é outro de quem eu gostava até ganhar um Oscar. Não foi bem ele quem ganhou, foi seu filme "Crash" - ótimo filme, aliás. Mas não melhor do que "Brokeback Mountain", talvez o título americano mais importante da década passada, de quem ele surrupiou o prêmio da Academia. Mas não dá para negar o talento do cara, tanto como diretor quanto como roteirista. Ou talvez dê, depois desse equivocado "Terceira Pessoa". Dessa vez são apenas três histórias, cada uma se passando num lugar diferente (Paris, Roma e Nova York). Elas demoram para se entrelaçar, e de uma maneira esquisita: um bilhete perdido num quarto de hotel numa cidade é encotrado num quarto de hotel em outra. Isto não seria probelma se as tais histórias fossem interessantes. Não são, nenhuma delas. Porque seus protagonistas são fracos. Liam Neeson faz um escritor adúltero, Adrien Brody, um vigarista que se deixa enganar por um golpe óbvio, e Mila Kunis, uma mãe problemática em busca da guarda do filho. Não dá para torcer por nenhum deles. Para piorar, a conclusão é pífia e pretensiosa. Dá para perceber que Haggis está crente de que fez um puta filme. Fez não. Fuja.

ITATIRA, CAPITAR DO POGRÉÇIO

A mídia, essa marvada, voltou seus holofotes para a pogreçista cidade cearense de Itatira, a 212 quilômetros de Fortaleza. Esta Atenas sertaneja é governada por um prefeito iluminista e uma não menos letrada Câmara de Vereadores. Juntos eles estão propondo uma sábia lei contra a ditadura gay, esse violento aparato militar que vêm promovendo atentados piores que o do Estado Islâmico. O documento que insitui a "Semana Municipal de Valorização da Família" é crivado de erros de ortografia e pontuação, sendo a prova definitiva da ignorância suprema de todos os envolvidos. E, não por coincidência, a cidade de Itatita também vem regisrando casos onde gays são agredidos na rua e têm suas casas apedrejadas. Ninguém evocou Deus explicitamente, mas tá meio óbvio que a influência das "igrejas" fundamentalistas deve ser brutal nesse lugar. O governo federal vai despachar uma comitiva do Conselho Nacional LGBT para lá, mas eu acho pouco. Em casos como esse, a minha constituição pessoal autoriza o bullying. Gente que se atreve a regulamentar a homofobia em pleno século 21 merece ser execrada em praça pública. Quem é burro tem que mais é que sentir vergonha de sê-lo. E antes que me acusem de preconceituoso: sou filho de cearense, com muito orgulho. Mas não tenho a menor tolerância com os intolerantes. Pau neles, no mau sentido.

(leia aqui a carta do Eli Vieira aos esclarecidos parlamentares itatiranos)

sexta-feira, 27 de março de 2015

VÁ TOMAR NO CUNHA

Vamos parar de mimimi. Fazer baderna nas galerias não é falta de educação. É parte da democracia. E quando se trata de uma manifestação contra o crápula do Eduardo Cunha, como a que aconteceu hoje de manhã na Assembleia Legislativa de São Paulo, o ato se reveste de dever cívico. O presidente da Câmara de Deputados acha que está surfando no movimento contra Dilma, mas os protestos só farão sentido se o incluírem (e ao Renan também). O cara é corrupto, homofóbico, inescrupuloso e algumas vezes pior que o Frank Uderwood de "House of Cards", com quem andou sendo comparado. Está mais que na hora dos setores esclarecidos da sociedade se levantarem contra ele. E Cunha só é a crista de uma onda obscurantista que se abateu sobre o legislativo brasileiro. Já tá assim de parlamentar querendo proibir a adoção por casais gays ou o uso do nome social por alunos trans nas escolas. Pelo menos o PSOL irá expulsar o Cabo Daciolo, autor de uma PEC dizendo que todo poder emana de Deus. Mas será que os demais partidos ditos progressistas - inclusive o PT - terão o mesmo culhão?

AS LOUCAS DO FAROESTE


Eu gostava da Hillary Swank até ela ganhar o segundo Oscar. Aí criei uma implicância eterna: como ousa essa sirigaita vencer a deusa Annette Benning duas vezes? Mas o fato é que a moça não fez uma carreira lá muito consistente. Afinal, são poucos os filmes que têm como protagonista uma mulher masculinizada que sofre pacas. Depois de alguns anos na moita, ela finalmente encontrou um personagem sob medida. A solteirona de "Dívida de Honra" parece ter sido escrita especialmente para ela, que realmente dá um show no papel. Tão bom quanto está Tommy Lee Jones, também diretor do filme, como um semi-fora-da-lei que ajuda a bruaca numa tarefa ingrata (veja o trailer acima). Além disso, o elenco é todo recheado de atores famosos em pequenas participações. Como Meryl Streep, que surge só no finalzinho - mas sua filha Mamie Gummer aparece o tempo todo, muda e intensa como uma das três mulheres loucas (veja o trailer!!). "Dívida de Honra" tem um reviravolta na última meia hora que me pegou de surpresa e me fez gostar ainda mais, mas preciso admitir que o filme me fisgou desde o começo. É uma boa reflexão sobre a barra de ser mulher num ambiente inóspito, ainda mais no século 19. Nada mau para um faroeste, um gênero que nunca fez meu gênero.

quinta-feira, 26 de março de 2015

MULHERES INQUEBRÁVEIS


Tem muito filme interessante em cartaz, mas tá difícil convencer o corpo exaurido depois de um dia de trabalho a encarar um cineminha. Ainda mais quando a TV está transbordando de ofertas. Toda semana surgem uns 47 seriados novos, e precisaríamos ter um dia mercuriano para dar conta de todos. Como nem tudo é bom, as dicas dos amigos são importantes. Essas são as minhas de hoje: no quesito comédia, a sensação do momento é "Unbreakable Kimmy Schmidt", a nova série escrita por Tina Fey. Traumatizada com a baixa audiência de "30 Rock", a rede americana NBC passou a bola para o Netflix. O que pode ser bom para a segunda temporada, para os roteiristas pirarem ainda mais. O estilo de Tina, cheio de referências pop e piadas sutis, não é para qualquer um. Mas é para mim. A cada novo episódio, estou gostando mais das desventuras da pobre coitada que passou 15 anos presa num culto apocalíptico. Ellie Kempner, que despontou em "The Office", já é a barbada do próximo Emmy de atriz de comédia.
E o Emmy de melhor atriz de drama dificilmente escapará de Viola Davis, que está tendo em "How to Get Away with Murder" o grande personagem que o cinema sempre lhe negou. Esse novelão policial é o mais novo sucesso da usina de Shonda Raines, a rainha negra da TV americana. Eu nunca tinha me rendido a nenhum programa dela, mas finalmente capitulei. Não é fácil misturar o estilo "procedural" (aquele em que um caso é resolvido a cada episódio) com o "serial" (uma trama mais longa que se prolonga por toda a temporada). Roteiro e direção são mais óbvios do que nas séries do cabo, mas o elenco é fortíssimo - e ainda tem cenas de sexo gay capazes de enfartar muito fundamentalista. "How to Get Away with Murder" está sendo exibida pelo canal Sony, mas eu tenho acompanhado pelo Now mesmo. Baixar de graça? Obrigado. Não estou disposto.

ARABIA INFELIX

O Iêmen costumava ser um país tão obscuro que foi para lá que o Chandler de "Friends" mentiu ter sido transferido, para se livrar da chata namorada Janice (oh... my... God). Mas nem sempre foi assim. Conhecida pelos romanos como "Arabia Felix", essa esquina da Península Arábica com a África é bem mais fértil que sua vizinhança, e ganhou renome no mundo antigo com as fragrâncias florais que produzia. Mas nada como um milênio depois do outro. Hoje o Iêmen é, de longe, o mais pobre dos países árabes. Com pouca água e nenhum petróleo, acabou se tornando um dos celeiros de jovens recrutas para a al-Qaeda e o ISIS. Um lugar que já era instável e perigoso antes da Primavera Árabe agora está em plena guerra civil, com pelo menos três facções diferentes se matando entre si. E o conflito acaba de se internacionalizar: a Arábia Saudita, a grande e rica vizinha do norte, invadiu o Iêmen, para retomar a captial das mãos da milícia xiita Houthi. O curioso é que quase metade do país já está nas mãos de filiais da al-Qaeda há um bom tempo - mas essas são sunitas como os sauditas, então tudo bem, né? Esse imbroglio mostra que, antes de ser com o Ocidente, o problema do Islã é consigo mesmo. As principais vítimas do terrorismo islâmico são os próprios muçulmanos. Mas como intervir nessa D.R. sangrenta? Que se explodam?

quarta-feira, 25 de março de 2015

FODEUS QUEM FEZ VOCÊ

A Suprema Corte americana irá julgar em breve se o veto que alguns estados ainda fazem ao casamento igualitário é constitucional ou não. Se decidirem que não, os gays poderão se casar em todos os 50 estados americanos, não importando se a população e o governo locais são contra ou a favor. Claro que o pau está comendo, e todos os lados da questão vêm se manifestando. Eu acho que todo mundo tem esse direito, mas não tenho um pingo de respeito pelos homofóbicos. Ainda mais quando publicam um anúncio babaca como este, veiculado esta semana no jornal "Washington Post": "Lemmbrem-se de quem foi a ideia original". Será que a AFA (Associação da Família Americana) acha mesmo que os juízes snao tementes ao Deus do Velho Testamento? E poucos argumentos são mais furados do que dizer que o casamento entre homem e mulher é o modelo "bíblico". E o filho bastardo que Abrãao teve com a escrava Agar, aos quais prontamente despachou para o deserto? E as milhares de esposas e concubinas do rei Salomão? A Bíblia é pródiga em exemplos desse tipo, que só têm uma coisa em comum - todas essa relações tem o homem como dominador e a mulher como submissa. Os fundamentalistas brasileiros estão copiando essa linguagem e muitos nem se preocupam em esconder que são machistas e chauvinistas. Mas era bom eles se darem conta que a estratégia não deu muito certo por lá - é provável que a Suprema Corte nos dê a vitória. Por quê daria certo por aqui?

RADIO GAY GAY

Desde quando que 25 de março é o Dia Nacional do Orgulho Gay? Alguém sabe me dizer por quê? Mas o que importa mesmo é que hoje está rolando a Parada Gay na Rádio, uma iniciativa da revista Billboard Brasil que teve a adesão de inúmeras emissoras país afora. Ao longo do dia, elas tocarão playlists de artistas LGBT ou simpatizantes - ou seja, só aquelas aberrações da música gospel é que devem ficar de fora. Também tem gente gravando seus próprios vídeos e enviando para a página da campanha no Facebook, onde também podem ser vistos os comerciais criados pela agência Ogilvy (mas quem foi o gênio que não incluiu o código para "embedar"? Amiga, assim fica difícil te defender). Ah, não esqueça de usar #‎CaleAHomofobia‬, OK?

terça-feira, 24 de março de 2015

TARDE ATÉ QUE ARDE

Quatro anos atrás, nada parecia deter Rafinha Bastos. Revelado para o público de todo o Brasil pelo "CQC", ele ganhou até matéria no "New York Times", onde dizia estar se preparando para conquistar o mercado americano. E aí veio a infame frase sobre Wanessa e o bebê, a demissão da Band e alguns anos na contramão. Que pareciam ter acabado quando ele voltou para sua antiga emissora e assumiu o lugar de Danilo Gentili no "Agora É Tarde". O programa nunca foi um estouro de audiência, mas tinha boas críticas e parecia estar indo bem - até ser sumariamente extinto ontem. A equipe perdeu seus empregos e Rafinha, ainda contratado, foi para a proverbial geladeira. Eu nunca fui fã incondicional do cara, mas o acho bem melhor que seus ex-colegas de bancada. Também creio que está na hora desta maldição que se abateu sobre ele terminar. Será que já não bastou o malfadado "Saturday Night Live" da RedeTV?

segunda-feira, 23 de março de 2015

VIVA LA BAD FRENCH HOUSE

A música eletrônica inspirou relativamente poucos filmes. Talvez porque evoque imagens abstratas, ou não conte histórias lineares. Por isto fiquei curioso para ver "Eden", ainda mais porque o filme foca na house music francesa. Até o surgimento dessa onda na metade dos anos 90, o pop produzido na França tinha pouco impacto no resto do mundo. Aí veio o Daft Punk e uma série de outras bandas e DJs, quase sempre com letras em inglês, e o resultado foi sucesso global e alguns Grammys. "Eden" conta a história de um rapaz que é amigo do Daft Punk (a dupla aparece em cena, representada por atores) e tenta emplacar nesta cena, mas não consegue ir muito longe. O roteiro semi-autobiográfico, do irmão da diretora Mia Hansen-Love, me lembrou "Boyhood": os anos vão se passando e nunca acontece nada de especialmente dramático, mas é a somatória de pequenos episódios que acaba formando uma narrativa maior. Há muita droga e muita, muita música - a trilha reúne os grandes nomes do estilo mais algumas de suas influências, e é tão boa que eu precisei comprá-la na iTunes Store assim que saí do cinema. Mas fica o aviso: só quem realmente gosta de dance music é que vai apreciar "Eden".

domingo, 22 de março de 2015

CESSAÇÃO DE TERAPIA

Achei que só ia ter bichas finas na plateia de "Consertando Frank". Afinal, o assunto aparente da peça é a infame "terapia de conversão", um assunto muito em voga. Mas as críticas andam tão boas que o teatro do MuBE estava lotado por um público bem variado, inclusive casais héteros de mais idade. Há inclusive relatos de que alguns espectadores saem indignados logo depois do primeiro beijo gay (essa gente não se informa sobre o que vai ver?). Mas o texto do americano, escrito em 1997, vai muito além da suposta cura gay. Ele fala basicamente sobre manipulação, e como as nossas identidades são construídas a partir do que os outros pensam de nós. O protagonista é um repórter homossexual que vive com o namorado. Ele resolve se passar por um paciente angustiado e assim desmascarar um psiquiatra que promete inverter a orientação sexual. Só que o rapaz tem uma personalidade frágil, e acaba se deixando influenciar pela lábia do charlatão. Segue-se um duelo a três muito bem defendido pelo ótimo elenco e pela direção sem firulas. Não se trata de um espetáculo abertamente militante, e isto faz com que "Consertando Frank" possa ser apreciado por um público mais amplo. Ainda bem.

sábado, 21 de março de 2015

CARÃO GLOBAL

Capa de revista com foto coletiva de estrelas do cinema ou da TV é uma coisa comum nos Estados Unidos, mas bem mais rara no Brasil. Comenta-se que as sessões de fotos são um terror, com as divas se engalfinhando para ver quem sai no meio, quem sai na ponta e quem sai na dobra. Depois começa uma outra discussão: quem não merecia estar ali? Quem tomou o lugar de quem? Esse debate já está rolando no Facebook, depois que a "Vogue" brasileira revelou sua capa de abril comemorando os 50 anos da Globo. Imagino a encrenca que deve ter sido escolher o elenco: da esquerda para a direita, Fernanda Lima, Renata Vasconcellos, Fernanda Montenegro, Camila Pitanga, Glória Pires, Glória Maria, Paolla Oliveira, Angélica, Malu Mader e Grazi Massafera (o rapaz é um modelo). É uma amostra do topo da cadeia alimentar na emissora, mas claro que muita gente ficou de fora. Cadê Adriana Esteves? E Regina Duarte? E a Xux... ops.

sexta-feira, 20 de março de 2015

SUSPENDERAM OS JARDINS DA BABILÔNIA

Na falta dde louça para lavar e querendo agradar a seus desinformados eleitores, a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso resolveu convocar um boicote à novela "Babilônia". Deram um certo azar, porque o timing é dos mais infelizes: vários dos membros da Frente estão envolvidos em escândalos de corrupção, e é notório que são dos deputados mais ausentes e ineficazes do país. Também é chocante pensar que estão se eriçando por causa de um beijo entre duas senhoras, mas este horror é fundamentado: "Babilônia" quer mostrar que tudo bem ser gay, exatamente o oposto do que pregam os fundamentalistas. As religiões abrâmicas são os alicerces do patriarcado ociental, e qualquer coisa que o ponha em cheque é logo denunciado como sacrilégio. Uma novela de TV não vai transformar nenhum hétero em gay, mas pode dar coragem aos que já são homo para saírem do armário e viverem felizes. Esta mensagem é subversiva, sim (e é mais do que correta). Agora, duvido que esse bociote - que se estende até aos anunciantes do programa - dê certo. A trama é boa, o elenco é fantástico e o Brasil não tem nada melhor para fazer às nove da noite. Não se impressione com os relatos de que a audiência caiu desde a estreia. Isto é perfeitamente normal, ainda mais nesses tempos de declínio generalizado da TV aberta. "Babilônia" vai mesmo causar.

WILKER VIVE

Li "O Capitão de Longo Curso" em mil e novecentos e guaraná com rolha, e no entanto lembrava direitinho do desfecho dessa novela de Jorge Amado. Publicada originalmente junto com "A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água" no volume "Os Velhos Marinheiros", a história devia ser das poucas do autor baiano que ainda não tinha virado novela ou filme. Agora virou: "O Duelo" estreia hoje nos cinemas, e com um atrativo inesperado. Trata-se do último trabalho de José Wilker para a telona, e vê-lo novamente é reconfortante e aflitivo ao mesmo tempo. Lá está o Wilker que conhecemos tão bem, num papel relativamente pequeno mas em pleno domínio de seus talentos. Ainda custo a acreditar que faz quase um ano que ele se foi, no auge e de repente. Mas a verdadeira estrela do filme é Joaquim de Almeida, mais um ator português que aprendeu a falar com sotaque brasileiro. Ele está ótimo como o impostor boa-vida que é obrigado a demonstrar dotes de navegação que nunca teve (mais não posso contar). A produção luxuosa (quase dois anos só de finalização) talvez seja até demais para a singeleza da trama, mas "O Duelo" ficou mesmo lindo. E bem contado, que é mais importante.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Ó QUERIDA, Ó QUERIDA...

...ó querida Clemen...OLÁÁÁ! Hoje eu encarnei a velha da "Praça É Nossa". Ainda não estou surdo, mas dei um mau jeito nas cadeiras que me deixou encarquilhado. A dor começou na segunda-feira, foi crescendo de mansinho e hoje eu precisei de ajuda para vestir as calças, que tal? Tampouco consegui dirigir, e dependi da caridade de estranhos durante todo o dia. Agora vou tomar alguma bomba analgésica e, se não estiver melhorzinho amanhã, terei que me entregar às mãos de um quiroprata fodão. Quem conhece algum? O pior é que ainda tenho muita coisa para arrumar na casa nova e preciso estar zero bala no fim de semana. Caso contrário, acho que teremos que me sacrificar. Bang!

NACIONAL CID

Nunca pensei que algum dia eu fosse dizer isto, mas Cid Gomes me representa. Pelo menos ontem ele me representou, ao se recusar a pedir desculpas aos "300, 400 achacadores" que de fato ocupam a Câmara de Deputados. Suas Excelências ficaram nervosinhas e xingaram de volta o ex-futuro ministro da Educação. Não perceberam que, sabendo que iria cair de qualquer jeito, Cid caiu atirando. Pelo menos ele sentiu para que lado o vento sopra. Eduardo Cunha fez mais uma vez o papel de paspalho, e tampouco percebeu que sua batata está esquentando. Ele e sua gangue não podem ser esquecidos nas próximas manifestações, porque não adianta nada criticar o Executivo e poupar esse Legislativo podre que temos aí. Cid Gomes restaurou, ainda que por poucos instantes, o orgulho nacional. Divou.

quarta-feira, 18 de março de 2015

PARTIU EUROVISION

Transmimento de pensação: entrei na web para procurar notícias do Eurovision, e eis que a alma boa do Daniel havia compartilhado este vídeo aí em cima na minha timeline do Facebook. Sim, ainda é março e o festival só rola em maio, mas já temos todos os concorrentes. A grande novidade de 2015 é a participação da Austrália, convidada especial para a celebração dos 60 anos do evento (a audiência do programa costuma bater recordes por lá). Mas de resto não há nada que realmente se destaque, como as Buranovskye Babushki (Rússia, 2012) ou Conchita Wurst (Áustria, 2014). Minhas favoritas por enquanto são as canções com puxada mais dance, como as de Israel ou da Sérvia. O candidato da Suécia já causou polêmica por ter dado declarações homofóbicas (e depois claro que se desculpou - bitch, puh-lease, isso aqui é o Eurobichion). Mas a mídia vai se interessar mesmo é pela banda finlandesa Pertti Kurikan Nimipäivät, formada por autistas e portadores da síndrome de Down. Não duvido nada que vençam.

A DILMA ISRAELENSE

Era uma vez um país cujo governo já estava desgastado depois de um certo tempo no poder. A economia não ia lá muito bem das pernas e havia um sentimento disseminado entre parte da população de que estava na hora de mudar. Vieram as eleições, e a campanha foi acirradíssima. O partido da situação usou uma estratégia arriscada: o medo. Conseguiu criar a impressão de que as coisas ficariam ainda piores sem ele. Resultado: ganhou raspando, e agora vai ter que administrar os problemas que ele mesmo criou. Esta história que nos é tão famiiar acaba de se repetir em Israel, onde o direitista Likud foi o partido que conquistou mais cadeiras no parlamento. Isto quer dizer que Benjamin Netanyahu continuará sendo o premiê, e que a paz no Oriente Médio ficou ainda mais distante. Justo no momento em que os Estados Unidos tentam costurar um acordo nuclear com o Irã, que "Bibi" já avisou que irá torpedear. Pois é, israelense não sabe votar. Pelo menos o sistema de lá é parlamentarista, e o governo pode ser trocado mais facilmente do que por aqui.