sábado, 30 de maio de 2015

O HOMEM QUE FILMAVA DE MENOS

O caso verídico que inspirou "O Homem que Elas Amavam Demais" causou tanta repercussão na França que o trailer do filme já entrega o final. Mesmo assim, me deixei seduzir pela ideia de um filme policial ambientado na Côte d'Azur, nos anos 70. Ainda por cima estrelado pela mãe de todas as divas, Catherine Deneuve, e a estrelinha do momento, Adèle Haënel (que é lésbica na vida real - desculpe, não resisti ao momento secador). Mas eu me arrependi... O roteiro anda em círculos, e nunca deixa claro porque uma moça rica e aparentemente bem resolvida se volta contra a mãe num momento de crise financeira, piorando muito a situação de todos - especialmente a dela própria. O veterano diretor André Téchiné é muito badalado por lá, mas nunca fez um filme de que eu realmente gostasse. Vai continuar me devendo.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

EAT THE RICH

Quando eu era pequeno, programa de paulistano era ir ao terraço do aeroporto ver avião subir e descer. Hoje é entrar numa fila do Eataly. O gigantesco supermercado de comida italiana (mas não só) abriu faz dez dias, e parece que não existe mais nada para fazer em São Paulo. Já existem relatos de gente que esperou três horas por uma mesa num dos vários restaurantes que existem lá dentro. Hoje tomei coragem e fui enfrentar a fera. Não era nem meio-dia, e já havia confusão para entrar no estacionamento. Consegui lugar fácil no Piazza, que só depois eu percebi que está mais para bar, mas em poucos minutos havia um enxame ao meu redor. A comida é boa, os preços não são absurdos (o que não quer dizer que sejam baratos) e, ó glória, tomei chinotto, um refrigerante amarguinho que é típico da Itália. Também aproveitei pra fazer umas comprinhas.

A bem da verdade, o Eataly é menos glamuroso do que eu esperava.O fato é que ainda não está totalmente pronto; tenho até a sensação de que foi inagugurado às pressas. Mas também é importante lembrar que, no exterior, o Eataly não é um lugar "premium". Oferece produtos de qualidade, mas a proposta não é elitista. Como no Brasil a gravidade funciona ao contrário, virou um templo de gastronomia sofisiticada. Daqui a pouco vai ter nego criticando tanta "ostentação".

quinta-feira, 28 de maio de 2015

RODÍZIO À BRASILEIRA

A reeleição é tabu em muitos países da América Latina. Não existe, por exemplo, no México, no Chile, no Peru e no Uruguai. A razão é simples: evitar que a mesma pessoa se eternize no poder, se reelegendo sucessivamente (como era o sonho do falecido Hugo Chávez). O Brasil adotou um sistema parecido com o dos Estados Unidos, que permite uma única reeleição do presidente - quanto aos governadores, cada estado americano tem suas próprias regras. Lá a tradição é que o sujeito se aposente depois de seus dois termos, apesar de não ser lei. Mas por aqui parece que a reeleição já era. Achei surpreendente o placar de 452 a 19, o que mostra que todos os partidos estão contra ela. Inclusive o PSDB, que a introduziu nos anos 90, e o PT, que tanto se beneficiou dela. Pessoalmente, acho bom este modelo que está sendo engavetado. E desconfio de qualquer coisa aprovada pelo nosso atual Legislativo, que me parece tão podre quanto a diretoria da FIFA.

TABLEAUX VIVANTS

Existem 25 mil maneiras de se fazer cinema, e acho que o diretor sueco Roy Andresson inventou mais uma. Seu filme "Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência" é tão esquisito quanto o título sugere. São 39 vinhetas com a câmera sempre parada e apenas um fiapo de história: dois patéticos vendedores de "novidades", como dentes de vampiro ou sacos de risadas. Alguns desses quadros são engraçados, poéticos ou intrigantes, como o em que um rei do passado invade um bar moderno com todo seu séquito militar. Outros são francamente chatos, para não dizer pretensiosos. "Um Pombo..." venceu o festival de Veneza do ano passado e vem arrancando elogios da crítica. Mas só posso recomendar para quem realmente estiver interessado em ampliar a própria cultura cinematográfica.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

PENALIDADE MÁXIMA

Quem diria, hein? Justo os Estados Unidos, um país onde o futebol nunca foi dos esportes mais populares, estão por trás da prisão dos cartolas da FIFA hoje cedo em Zurique. Ou talvez por isto mesmo que esa prisão tenha acontecido: sem desfrutar de ligações intestinais com o governo americano, a quadrilha comandada por Sepp Blatter se revelou surpreendentemente vulnerável. Agora José Maria Marín e seus comparsas terão que lidar não com a justiça de seus países, tão cheias de recursos e juízes amigões, mas com o FBI. Mas como é que fica a provável reeleição de Blatter nesta sexta? E as Copas da Rússia e do Qatar, vão mesmo acontecer? Não sou ligado em futebol, mas este jogo promete fortes emoções.

WISHFUL THINKING

É de se lamentar que a Câmara de Deputados tenha mantido tudo exatamente como está e ignorado todas as propostas de reforma política que foram ao plenário. Incrível a nossa incapacidade crônica de andar para a frente. Por outro lado, merece comemoração a dupla derrota de Eduardo Cunha. Não passaram nem o "distritão", nem a emenda constitucional que permite o financiamento particular das campanhas, duas bandeiras absurdas empunhadas pelo presidente da Câmara. Some-se a isto as evidências cada vez mais fortes do envolvimento dele com propinas reveladas pela Lava-Jato, e minh'alma não consegue reprimir uma esperança risonha: será que estamos assistindo ao começo da derrocada do inimigo público no. 1 do Brasil? Pensamento positivo aí, gente!

terça-feira, 26 de maio de 2015

TODA FORMA DE AMOR

Quando eu vi o comercial do Boticário para o Dia dos Namorados, pensei cá comigo: legal, bacana, que bom que cada vez mais empresas admitem que os gays existem (e que podem faturar com eles!). Mas também fiquei com medo que esse anúncio fosse apenas para a internet, como muitos outros gay-friendly produzidos por marcas brasileiras. Não desmereço o esforço, mas aí é mole posar de moderno, né? Mas temi em vão: o filme será veiculado na TV aberta, no intervalo da novela e tudo o mais. Parabéns ao Boticário e a todos os envolvidos.

FAZENDO NAS CALÇAS

Quem acha que todo musical da Broadway é exuberante e conformista vai levar um choque com "Urinal". A bem da verdade, o espetáculo nasceu na Off-Broadway: o circuito de teatrinhos alternativos de Nova York, onde a experimentação e a irreverência dão o tom. Mas o sucesso foi tão grande que a montagem logo foi transferida para um teatrão perto do Times Square, o epicentro planetário dos musicais. Foi lá que eu o assisti, em 2002. Gostei, mas gostei muito mais da versão brasileira que está em cartaz em São Paulo. Talvez porque "Urinal" tenha voltado às origens: o Teatro do Núcleo Experimental, na Barra Funda, é minúsculo, e combina muito bem com a proposta da peça. Aqui não há cenários deslumbrantes nem figurinos luxusosos, e muito menos efeitos especiais. Mas há um elenco excepcional e um libreto extremamente atual. Porque "Urinal" fala de um problema que estamos vivendo, a falta d'água. Num futuro com cara de anos 30, a água anda tão escassa que não existem mais banheiros particulares. Todo mundo precisa fazer suas necessidades em toaletes públicos e pagos, controlados por uma cruel corporação. Além disso, é proibido mijar na rua: quem for pego no flagra será despachado para um vago inferno chamado Urinal. No meio disso tudo há um romance à la Romeu e Julieta e números musicais bastante inventivos. Como se não bastasse, o final subverte todas as expectativas, e mais não posso contar. "Urinal" fica em cartaz até 3 de julho, a entrada inteira custa apenas 40 reais e as sessões de sexta têm entrada franca.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

NAVALHA NA CARNE

Se até hoje a vida não tá fácil pra mulherada, imagina na segunda metade do século 19. Foi nessa época que grandes autores criaram protagonistas inesquecíveis. Todas pularam a cerca; todas encontraram o mesmíssimo fim, e pare de ler agora se você não quiser mais spoilers. Foi assistindo à nova versão para o cinema de "Senhorita Julia", a peça clássica de August Strindberg, que eu me dei conta que a moça termina como suas contemporâneas Anna Karenina e Madame Bovary. Rebatizada de "Miss Julie" e transferida para a Iranda, esta adaptação dirigda por Liv Ullmann é pouco mais do que teatro filmado. Com a ajuda de pouquíssima música e apenas três atores em cena, o texto acaba se tornando enfadonho quando deveria eletrizar. Interessante mesmo foi pensar porque todos esses escritores "suicidaram" suas mocinhas. Desenlace dramático inevitável, crítica à sociedade machista à la "Thelma & Louise" ou - gasp - ou nenhum deles sabia lidar de outro jeito com a sexualidade feminina?

RASTAFARIAN TARGARYEN

Este vídeo está na rede há alguns dias, mas só hoje eu consegui vê-lo inteiro. Quem for escravo de "Game of Thrones" não deve perder: trata-se de uma paródia elaborada para o programa beneficente Red Nose Day, uma espécie de Teleton do humor. Mas será que essa galhofa conseguirá calar o pessoal que ainda está reclamando do estupro de Sansa no episódio da semana passada? Aquilo é ficção, people! Estão armando para ela se vingar! E ninguém reclamou quando Ramsay Bolton caçou a flechadas uma de suas namoradas...

domingo, 24 de maio de 2015

OITO OU OITOCENTOS

Hoje o blog completa oito anos de existência, que mais parecem uma eternidade.
Parabéns a vocês que me aturam.

A VOLTA DA GUERRA FRIA


Como faço desde 2009, ontem passei a tarde plantado em frente à TV apreciando a grande final de mais um festival Eurovision. A produção fica ainda mais impecável a cada ano que passa. Pirei no jogo de luzes que subiam e desciam sobre o palco, criando a ilusão de uma espiral. E adorei a presença constante de Conchita Wurst, que aproveitou o intervalo para cantar duas cancões de seu álbum recém-lançado. Já quanto as musiquinhas que estavam no páreo...
A minha favorita foi a candidata da Letônia, "Love Injected". Interpretada por Aminata, uma mulata improvável - a máe é russa e o pai é de Burkina Faso, um pequeno país africano - a faixa tem um quê de experimental e lembra um pouco o som da Björk. Ficou em sétimo lugar, atrás da estreante Austrália (que só foi convidada a participar porque estão se comemorando os 60 anos do evento).

Se o repertório concorrente não empolgou, a apuração foi repleta de emoção. Durante muito tempo estava pintando que a homofóbica Rússia iria ganhar - e, heresia máxima, levar esse Super Bowl das bichas para a Estrela da Morte Moscou no ano que vem. Um amigo meu inflitrado no Wiener Stadthalle me mandou essa foto incrível: a bicharada da plateia empunhou seus celulares sintonizados no Grind'r em sinal de protesto, quando Polina Gagarina cantou a melosa "A Million Voices". Mas no final o Bem triunfou.

O bem bonito Måns Zelmerlöw, quero dizer. E assim, o Eurovision mais uma vez toma o rumo da Suécia, a maior usina de hits da Europa. Desde os tempos do ABBA, os compositores de lá escrevem sucessos por encomenda para o mundo inteiro. Seus clientes incluem tanto divas como Britney Spears quanto rivais no Eurovision como o Azerbaijão, que há anos terceiriza para lá as canções que inscreve no festival. Vitória merecida? "Heroes" não é grande coisa, mas tem refrão pegajoso. Num ano de vas magras, essa até que tá rechonchuda.

sábado, 23 de maio de 2015

A GOLEADA IRLANDESA

Dois a um. No futebol esse placar não é grande coisa, mas na política é. Pesquisas de boca de urna apontam que nada menos que dois em cada três iralndeses votaram pelo "sim" no referendo de ontem, sobre a legalização do casamento gay. Na capital, Dublin, a vitória da igualdade foi ainda mais acachpanate: três a quatro. E isto num país que era quase uma teocracia há pouco mais de vinte anos. A Igreja Católica exercia uma influência desmedida na vida da população. Foi ela quem esteve por trás da campanha pelo "não", que produziu comerciais bastante pesados pregando que crianças precisam de pai e mãe (balela: crianças precisa de amor). Alguns desses anúncios mostravam homossexuais indo contra os próprios interesses, algo que também existe no Brasil. Mas não adiantou: com o apoio de praticamente todos os partidos políticos, o "sim" ganhou com folga. Agora Irlanda é o primeiro país do mundo onde o casamento gay foi aprovado pelo voto popular. Não acho que os direitos de minorias tenham que ser decididos pela maioria, mas essa vitória é histórica.

O DETETIVE AO CONTRÁRIO


A premissa de "O Vendedor de Passados" é super interessante. O protagonista é um expert em criar passados falsos (e críveis) para seus clientes. É uma espécie de detetive particular no sentido oposto: ao invés de procurar alguém para o cliente, ele recria esse próprio cliente com fotos, vídeos e recortes de jornal, tudo lindamente falsificado. E, como no clichê das histórias de detetive, a trama aqui deslancha quando uma loura misteriosa vem lhe bater à porta. Ela também quer um passado, mas não diz por quê. Só exige que seu novo currículo inclua um crime. O filme de Lula Buarque de Holanda vai muito bem até a metade, quando de repente vira um romance complicado entre fornecedor e freguesa. Imagino que o romance do angolano José Eduardo Agualusa seja melhor; não o li. É por isto que saí frustrado, apesar da produção bem-cuidada e dos atores afiados (Alinne Moraes até me curaria). Ficou faltando o final acachapante que a história pedia.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

MAGNUM OPUS

Uma causa pode se considerar vitoriosa no momento em que começam a ganhar dinheiro com ela. Pode parecer cinismo, mas é assim que funciona o mundo capitalista onde vivemos. E a propaganda, essa safada, transforma ideais em comércio, mas também tem um papel fundamental para o avanço da sociedade. Ela abraçou o feminismo, está abraçando o casamento igualitário, e começa a se interessar pela transexualidade. Vejam só esta campanha internacional dos picolés Magnum: um produto que é pouco mais do que gordura hidrogenizada com sabor artificial virou um símbolo de libertação, tanto política como sexual. E, mesmo que reclamem os xiitas, isso é bom para todo mundo. Chupemos todos!

(Marta Matui, obrigado pela dica. Você é mesmo uma drag honorária)

BANDEIRA BRANCA, AMOR

Alguns anos atrás, durante uma entrevista para a revista "Bravo", Marco Nanini assumiu que é gay. Não foi uma declaração bombástica: ele apenas deixou escapar que namora homens, como se todo mundo já soubesse (e quase todo mundo sabia mesmo). Alguns sites de fofoca deram destaque, este blog também, e a repercussão foi discreta e positiva. Elogiaram a coragem do ator, quase ninguém criticou e rapidamente passou-se para outro assunto. Esta semana aconteceu algo parecido, mas nem tanto. Luiz Fernando Guimarães - que está promovendo o lançamento de "Acredita na Peruca", sua série no Multishow - contou que é casado há décadas com outro cara, mas que nunca foi de "levantar bandeirinha". Esta expressão mudou tudo: ao invés de louvarem mais um famoso que saiu publicamente do armário, alguns ativistas caíram de pau na suposta acomodação despolitizada do ator. A polêmica rendeu uma matéria interessante no Blogay do Vítor Ângelo, e acabou me atiçando a dar meu pitaco. Claro que eu acho que quanto mais gays se exporem à luz do dia, melhor. E as celebridades têm um papel crucial nessa batalha: se a popular dona Maria souber que o galãzinho de quem ela tanto gosta é bicha, talvez ela não se deixe engabelar pelo pastor que prega o fogo do inferno para os homossexuais. A imensa maioria das pessoas que convive com gays assumidos, no trabalho ou na escola, logo perde o preconceito e passa a defender o nosso lado. Mas daí a exigir que todo gay ou lésbica se torne um militante da causa é um pouco demais. Porque nem todo mundo pode, dependendo de onde vive ou no quê trabalha. Eu tive sorte: nasci num meio bastante liberal, escolhi profissões onde a cobrança heteronormativa é mínima e nunca tive muito a perder ao me assumir. Mas muita gente têm. Especialmente atores: até hoje rola um debate se é crível ou não que um gay faça papel de hétero. Além do mais, a personalidade de cada um influi na militância. Alguns simplesmente não têm saco. São preguiçosos? Egoístas? E quem não é? Acho que não dá para cobrar um comprometimento homogêneo de um segmento que está longe de sê-lo. E ainda tem as diferenças generacionais, o momento de vida e o fascismo latente de alguns militantes, que abraçam causas que lhes parecem sagradas só para cagar regra na cabeça dos outros. Estamos vivendo tempos curiosos na política brasileira, com radicalizações de todos os lados. Isto é bom, porque sempre fomos meio lenientes. Mas o exagero é contraproducente e acaba prejudicando a própria causa. Deixem o Luiz Fernando em paz.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

MODERN ADVERTISING

No melhor estilo "Modern Family", a marca de hummus Sabra incluiu um casal gay em seu novo comercial que está sendo veiculado na TV americana,. O mais legal é que esse casal é de verdade: são dois atores casados na vida real. Não gosto de hummus, mas juro que fiquei com vontade de experimentar.

HEEERE'S DAAAVE

O "Late Show" de David Letterman começou a ser exibido no Brasil no distante ano de 1993, logo depois de Madonna ter ido ao programa e causado. A repercussão foi tão grande que o extinto canal pago Superstation adquiriu os direitos para cá, e eu me viciei. Toda noite, às 10, lá estava eu diante da TV. O tempo passou, o mundo mudou, e ontem Letterman fez seu último programa como apresentador. Vou sentir falta das Top 10 Lists (a derradeira foi um arraso, como se pode ver aí em cima), e também do anúncio "Heeere's Daaave" feito pelo bandleader Paul Schaffer no começo de cada programa. Mas Stephen Colbert tem tudo para se dar bem no lugar de Letterman, a partir de setembro. Acho admirável esse traço da cultura americana, do cara saber a hora de parar - e geralmente eles param no auge. Fica a dica para os similares nacionais.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

ISSO É QUE É

Ainda reverberando o final de "Mad Men": muita gente achou tão ambíguo quanto o último episódio dos "Sopranos", mas para mim foi claríssimo (expliquei por quê na minha coluna de ontem no F5). Também recomendo a leitura do artigo de Julia Sweig publicado na versão online da "Folha" de hoje. E pego a deixa para postar a versão completa do épico comercial "I'd Like to Teach the World to Sing", que encerrou a série. Esse marco da história da propaganda tem uma história interessante, e eu agradeço ao anônimo que me mandou este link num comentário de outro post. Aquele foi um dos primeiros momentos em que um produto significou mais do que si mesmo. Em miúdos: o anúncio tornou a Coca-Cola mais do que uma bebida refrescante, como ela era vendida até então. Ela virou um fator de união entre as pessoas - cascata pura, mas também a mais pura verdade. Caso contrário não teria feito tanto sucesso, com um jingle que toca até hoje nas nossas cabeças ("isso é que é... Coca-Cola..."). Desde então, surgiram os conceitos de produto. Uma reles batata frita transcende suas qualidade intrínsecas: é algo para comaprtilhar com os amigos. Um remédio para resfriado não alivia os sintomas, mas faz você aproveitar os bons momentos da vida. Essa bulllshitaiada chegou a um ponto de saturação, e hoje a publicidade busca discursos mais diretos para (literalmente) vender seu peixe. Ainda mais porque a paisagem está mudando, e as pessoas de hoje não são mais atingidas por anúncios como as gerações passadas o foram, nos intervalos comerciais ou nos extintos outdoors. Um puta desafio para o pessoal das agências. E um alívio para mim, que aprendi muito neste mundo mas já não faço parte dele.

GOODNIGHT VIENNA


Perdoem insistir no assunto, mas Eurovision me domina, Eurovision me alucina, é hora, é hora, é hora, é hora do Eurovision. E é só uma vez por ano, gentem! Ontem rolou a primeira semi-final em Viena, e claro que Conchita Wurst fez as honras da casa e cantou logo de cara sua música campeã do ano passado, "Rise Like a Phoenix". Aproveito para dizer que o álbum de estreia dela é melhor do que eu esperava. Tem muito hino de autoajuda pras bibas inexperientes, mas também tem letras engraçadas e até um hit para as pishtash. Fecha parênteses: as três horas de programa já estão disponíveis no YouTube, mas cadê pachorra para encarar tudo? A seleção de 2015 está über-careta, e a grande novidade do festival - a banda finlandesa formada por deficientes mentais - já foi sumariamente desclassificada. Ou seja, parece que este Eurosivion não vai entrar pra história. Tô nem aí, tô nem aí...

terça-feira, 19 de maio de 2015

A SÍNDROME DO PUNK

Hoje acontece em Viena a primeira semi-final do Eurovision. Entre os candidatos desta rodada está a banda punk finlandesa Pertti Kurikan Nimipäivät, formada por três portadores de síndrome de Down e um autista. Achei que, por causa das deficiências, eles seriam os favoritos, mas as casas de apostas apontam para mais uma vitória da Suécia. Na verdade, é melhor que os caras vençam por causa de sua música (que eu particularmente não gosto), e não por solidariedade ou peninha. Além do mais, esses apostadores erram muito. No ano passado diziam que a Holanda iria vencer. Não foi bem o que aconteceu, né, Conchita?

(O título deste post foi roubado do documentário sobre a banda PKN, que já era conhecida no rock muito antes de participar do festival mais cafona do mundo. Dureza fazer trocadilho com deficiência mental, viu?)

ATUALIZAÇÃO: Contrariando todas as previsões, a banda PKN NÃO foi classificada na semi-final de ontem. Dos 16 concorrentes, 10 passaram para a grande final de sábado - e os finlandeses não estão entre eles. Ô dó...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

ODEIO QUANDO ISSO ACONTECE

Todo mundo esperando que o próximo bafão entre divas pop envolvesse Madonna e/ou Lady Gaga, e eis que as duas estão quietinhas nos seus cantos. O arranca-rabo da vez é entre Taylor Swift e Katy Perry: a primeira acaba de lançar o vídeo para "Bad Blood", que funciona como uma declaração de guerra à segunda. Mas o que foi que rolou? No ano passado, a turnê de Taylor pelos EUA estava a todo vapor quando Katy abiscoitou toda a trupe de dançarinos da "frenemy" para sua própria turnê. E a gente achando que bailarino tem na feira...

WE DON'T NEED ANOTHER HERO

Já tem gente falando que "Mad Max: Estrada da Fúria" é o melhor filme do ano até o momento. Não concordo, porque minha idade mental já ultrapassou os 14 anos. Mas não nego que essa releitura do herói pós-apocalíptico dos anos 80 tem lá seus méritos. Não se trata de um "reboot", nem exatamente de uma continuação. A rigor, o personagem nem é mais o mesmo: Mad Max se tornou pouco mais do que uma marca. Porque Tom Hardy não tem o carisma alucinado do jovem Mel Gibson, e aqui ele faz parte de um grupo - deixou de ser um cavaleiro solitário. Sua presença é importante, mas a verdadeira protagonista é a Imperator Furiosa de Charlize Theron. O filme inteiro não passa de uma longa perseguição com duas horas de duração, e tem detalhes que podem ser considerados ridículos ou cool, dependendo do espectador. Como o guitarrista que acompanha as batalhas, ou o fato das esposas do vilão terem todas caras (e corpos) de modelos de passarela. Mas são elas a chave para entender essa nova iteração de "Mad Max". Quando baixa a poeira, a história nada mais é do que um "reboot" da humanidade, com a volta do matriarcado ao poder. Esse viés feminino e feminista é o que torna a mensagem do diretor George Miller revolucionária, pois o herói é pouco mais que um apêndice de um plano maior. Quem diria? Um filme que parece falar apenas com meninos adolescentes no fundo é subversivo.

domingo, 17 de maio de 2015

LUTAR O BOM COMBATE

Luxemburgo está em vias de se tornar a primeira ditadura gay do mundo. Esta semana o pequeno grã-ducado foi manchete no mundo inteiro, porque o primeiro-ministro Xavier Bettel se casou no papel com seu namorado (ele nem foi o primeiro mandatário homossexual a fazer isto enquanto estava no poder: esta honra cabe a Johanna Sigurdardottir, ex-PM da Islândia). Mas o que a mídia não noticiou é que o VICE primeiro-ministro (segundo-ministro?) luxemburguês é biba também. Ou seja: estamos chegando ao poder, um grã-ducado de cada vez! Se bem que no Brasil parece ainda falta muito. Hoje é o Dia Internacional de Combate à Homofobia, e não vi nada além de alguns posts no Facebook para marcar a data (que é celebrada em 17 de maio porque foi neste dia, em 1990, que a homossexualidade deixou de ser considerada doença pela Organização Mundial da Saúde). O que podemos fazer para lutar esse bom combate? Para começar, acho que devemos reforçar a definição da palavra "homofobia". Pastores evangélicos vêm insistindo que homofobia é tão apenas somente a violência física contra os gays. Isso libera quase todo homofóbico para estufar o peito e dizer que não é, tanto que tem até amigos gays. Nananina: QUALQUER pessoa que for contra a plena igualdade de direitos entre gays e héteros é, sim, homofóbica. Claro que há gradações, uns são mais, outros menos. Mas vamos chamar as coisas pelos nomes certos, certo?

sábado, 16 de maio de 2015

HIBERNAÇÃO

"Winter Sleep" foi Palma de Ouro em Cannes no ano passado, mas demorou tanto para estrear por aqui que já está rolando outra edição do festival. Também demora muito para acabar: são nada menos que três horas e dezesseis minutos, quase todos ocupados por diálogos aborrecidos em casas sombrias. Eu estava esperando ver mais das paisagens fantásticas da Capdócia, onde estive faz dois anos, mas o diretor Nuri Bilge Ceylan gosta mesmo é de blábláblá e escuridão. Já disse aqui muitas vezes que não tenho o chip para apreciar este tipo de filme, mas mesmo assim insisto. Quero entender por que são tão premiados, mas não consigo.

DROGAS, TSARNAEV E ROCK'N'ROLL

Sinto uma forte dissonância cognitiva quando vejo Dzohar Tsarnaev, condenado à morte por causa do atentado à maratona de Boston em 2013. O cara tem cabelo grunge, ouve rock e, segundo seus amigos e conhecidos, é um amooooor de pessoa. No entanto, ele e seu irmão Tamerlan, morto pela polícia, mataram duas crianças e uma moça, além de ferir gravemente dezenas de pessoas. Tudo em nome de uma vaga jihad islâmica: não sei muito bem como que qualquer causa avança quando mata gente a esmo. A família Tsarnaev vem da Chechênia, região russa do Cáucaso que passou por uma violenta guerra civil. Que eles se voltem contra o país que os acolheu é só mais um sintoma de fanatismo descerebrado (um pleonasmo?). Agora o rapaz vai recorrer, provavelmente em vão, e passará algum tempo no corredor da morte. Mesmo sendo maior idade (tinha 19 na época do crime), acho brutal condenar alguém tão jovem. Será que ele se radicalizará ainda mais na cadeia? Ou mudará de ideologia e se tornará a mulher de um outro prisioneiro?