sábado, 29 de agosto de 2015

A QUEDA DA BABILÔNIA

Dois anos atrás, Marta Kauffman, uma das criadoras de "Friends", esteve no Brasil dando curso e palestra. E em todos os lugares ela repetiu a mesma coisa: o formato novela está com os dias contados, vocês não vão demorar a fazer apenas séries. Eu ri com os meus botões: quem é essa gringa que nem conhece a nossa cultura para vir dizer como será a nossa TV? Eu nem gosto tanto de novela, mas a profecia dela me pareceu radical demais. Hoje não acho tanto. O final patético de "Babilônia" me reforçou a impressão de que novela já era mesmo. Mesmo com a trama tendo sido encurtada em quase dois meses, o último capítulo parece ter sido escrtio às pressas, como se os autores quisessem se livrar logo do abacaxi. Houve furos gigantescos, como o fato de Beatriz (Glóira Pires) confessar um assassinato na frente de muitas testemunhas, e logo em seguida Inês (Adriana Esteves) ser condenada pelo mesmo crime. Também teve situações forçadíssimas, como as duas indo parar na mesma cela e depois fugirem da cadeia sem ninguém ver, nem mesmo uma câmera de segurança. A cena final da dupla, chupada de "Thelma & Louise", não teve um pingo de emoção e pareceu dirigida com o pé. Antes disso, a revelação do assassino de Murilo foi jogada fora, sem o menor impacto. Foi-se o tempo em que o Brasil parava por causa de um "quem matou?". Terminar novela com esse recurso é sinal de preguiça e/ou desinformação. "Babilônia" foi muito mal de audiência para os padrões do horário, e "A Regra do Jogo", que estreia segunda, pode reverter essa situação. Também foi um ponto fora da curva do momento atual da Globo: todas as outras tramas estão indo bem, até a reprise de "Caminho das Índias". Mas sei não, desconfio que nunca mais teremos outra "Avenida Brasil". Os hábitos mudaram e a rotina criada pela telenovela está mesmo em queda livre.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

AINDA RESTA UMA ESPERANÇA


Comédia brasileira virou sinônimo de porcaria. Boa parte da crítica despreza qualquer obra do gênero, acusando o cinema de copiar o pior da TV e de repetir fórmulas desgastadas (aliás, a expressão "fórmula desgastada"  também já deu o que tinha que dar). Muito disso é verdade, mas de vez em quando surge um filminho despretensioso que não apela para a baixaria nem para as soluções mais fáceis. "A Esperança É a Última que Morre" não é nenhuma obra-prima, mas um digno exemplar do cinema comercial. Seu defeito é não ter calcado o pé no acelerador: um tom de farsa, menos realista, teria ajudado a história absurda a descer melhor. Também teria soltado as frangas de Dani Calabresa e Katiuscia Canoro, que aparecem muito mais contidas do que as conhecemos da televisão. Por outro lado, Rodrigo Sant'anna mostra recursos como ator que vão muito além de seus tipos do "Zorra". O filme só entra em cartaz na semana que vem (eu vi em pré-estreia), e pode ser uma boa opção para quem só quiser se distrair.

O GOVERNO PASSA CHEQUE

Eu que não queria estar na pele do governo. Porque é um ato de desespero querer ressuscitar a CPMF, agora rebatizada de CIS. Inventar um novo imposto num momento de recessão, em que a popularidade da presidenta bate recorde negativo, é limpar cagada com pano sujo. É atrair ainda mais a ira da classe média, que tem a sensação de que as taxas escorchantes que paga vão todas para o ralo (ou para o bolso dos malandros). Mas, para chegar a este ponto, é porque a coisa tá feia mesmo. As despesas não param de subir, empurradas pelas pauta-bomba que Eduardo Cunha na Câmara. E as receitas estão secando. Qual é a solução, se não se pode cortar mais gastos? Não sei, porque a resposta vai além da mera economia. Passa pela política, que é uma coisa que este governo realmente não sabe fazer. O finado "imposto do cheque" - até o nome saiu de moda, já que quase ninguém mais usa cheque - é uma merda que não tem tamanho.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

VOCÊ TEM QUE SENTIR A LETRA

Não gosto da Taylor Swift. Não suporto o ar de princesinha mimada nem nenhuma de suas músicas. Mas admito que ela tem recebido convidados interessantes em sua turnê pelos EUA. Alguns têm até bem pouco a ver com seu estilo, como a diva do folk Joan Baez. Ontem, em Los Angeles, a namorada do Calvin Harris surpreendeu de novo. A visita da vez foi ninguém menos que Phoebe Buffay - não a atriz Lisa Kudrow, mas sua personagem na série "Friends". E a dupla cantou, lógico, o maior hit do Central Perk Café, a épica "Smelly Cat". Antes Taylor pediu que a plateia recebesse com carinho uma cantora que nunca havia se apresentado num lugar tão grande, mas isto não evitou que ela levasse um pito no meio do número: "you really have to feel the lyrics". Indeed you do.

MENTIRAS SECRETAS

A notícia saiu no Sensacionalista, e parecia falsa como todas as outras que são publicadas lá. Mas não era: o Infeliciano tentou mesmo processar o melhor site de humor do Brasil, e ainda queria que ninguém ficasse sabendo. O deputado-pastor tem boas razões para não querer piadas com seu nome: seu eleitorado é dos mais desinformados do país, e não sabe distinguir um boato falso de um fato verdadeiro. Mas nem por isto ele está autorizado a atentar contra a liberdade de expressão, e ainda menos a posar de bom moço, como se nada. Graças a Deus (que com certeza não é o dele) que o juiz Raimundo Silvino da Costa Neto, de Brasília, julgou a ação improcedente. Agora ela pode ser divulgada, e a máscara desse farsante cai mais um pouco. Esta foi só mais uma das tentativas da classe política - em especial a bancada teocrática - de calar os meios de comunicação e a sociedade civil. Temos que ficar ligados o tempo todo, porque senão essa corja toma nossos direitos e até nosso dinheiro. E temos que expor esses hipócritas ao ridículo.

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

#CUMBERBITCH

Consegui. Tentei, tentei, demorei mas consegui. Entrei dias a fio no site do Barbican, o maior centro cultural de Londres, na esperança de alguma desistência. Todo dia surgiam algumas, o que já era previsto. Afinal, os ingressos se esgotaram todos há mais de um ano, quando a produção foi anunciada. E em um ano as pessoas mudam de ideia, arranjam programa melhor, morrem... Mas nunca havia para os dias em que eu vou estar na cidade. Até que hoje surgiram muitos. Depois de esperar um pouco na fila do site - sim, isso mesmo, fila no site - me deparei com vários lugares disponíveis, em vários setores do imenso teatro. Consegui na última fila da plateia. Wuhuu: vou ver Benedict Cumberbatch de perto, no papel mais importante de toda a literatura inglesa: "Halmet". Sem essa de ser ou não ser, I'm a cumberbitch.

ADEUS, MAMÃE MONSTRO

Uma reinvenção das mais interessantes está acontecendo no showbiz americano, feat. Lady Gaga. Os três primeiros anos de superestrelato da cantora foram sopa no mel. Tudo o que ela lançava virava hino, ganhava Grammy e atingia o primeiro lugar das paradas do mundo inteiro. O caldo começou a entornar quando "Born This Way" revelou-se um arremedo de "Express Yourself", ainda que não-intencional. Madonna passou de protetora a inimga, e muita gente começou a achar que Gaga não era mesmo a última Coca-Cola do deserto. Um degrau para baixo decisivo foi o álbum seguinte, "Artpop". Com título pretensioso e exaustiva campanha de lançamento, o disco não estourou e foi logo eclipsado pelos de Katy Perry e Beyoncé. Para completar, os shows da moça no Brasil ficaram longe de lotar. Mas aí rolou um lance curioso, ou melhor - vários. O trabalho seguinte de Lady Gaga foi um inesperado CD de duetos com Tony Bennett, onde ela pôde mostrar que canta pra valer. Depois ela surgiu esplendorosa no Oscar deste ano, cantando um pot-pourri de canções da "Noviça Rebelde" que arrancou lágrimas de Julie Andrews. Agora vem mais um passo na reconstrução dessa carreira que, se não chegou a despencar, balançou legal. Estreia em outubro nos Estados Unidos a quinta temporada de "American Horror Story", pela primeira vez sem Jessica Lange no elenco. A estrela agora é Gaga. E sabia que foi ela quem se ofereceu aos produtores? A série deve vir mais over do que nunca - tem até uma personagem chamada Ramona Royale, rárárá - mas se encaixa perfeitamente na estratégia traçada pelo novo empresário da Germanotta, Bobby Campbell. Claro que a grande cartada será o próximo álbum de inéditas, que só deve sair em meados do ano que vem. Minha suspeita é que ela vai abandonar os vestidos de carne e adotar um visual mais limpinho. Por isto, quem ainda quiser vê-la de monstro, vai ter a última chance com a nova temporada de "AHS". Bom proveito.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A CONSAGRAÇÃO ABSOLUTA


O jainismo é uma das muitas religiões da Índia, e bem pouco conhecida no Ocidente. Seus fiéis não passam de seis milhões de pessoas, uma gota no oceano bilionário da população daquele país. Tampouco ajuda o fato dos jainistas não fazerem proselitismo, nem que suas regras rígidas atraiam muita gente. Além de serem obrigatoriamente vegetarianos, os seguidores dessa fé antiga não podem matar nada, nem mesmo um inseto. Hoje o "New York Times" publicou uma matéria interessantíssima sobre uma prática controversa do jainismo: o santhara (ou sallekhana, ou samadi-marana, ou sanyasana-marana, ufa), o jejum ritual que leva à morte. Quando uma pessoa sente que já cumpriu sua missão na Terra, ou está desenganada, pede permissão ao guru para parar de comer e beber. Tem família que chega a publicar anúncio em jornal comunicando o fato, e a casa se transforma num centro de peregrinação. Todo mundo quer ver de perto o futuro santo - acredita-se que o santhara liberte a alma do ciclo de reencarnações. Dizem até que seus praticantes morrem sorrindo, emitindo um brilho misterioso. Depois o cadáver é colocado em pose de oração e desfilado pelas ruas, para dar o exemplo. Mas este rito milenar está sendo contestado na Índia, cujas leis de inspiração britânica (e do século 19) proíbem o suicídio. Estão querendo criminalizar o santhara (a família seria responsável) e já teve até passeata de jainista clamando por liberdade religiosa. A reportagem me deixou encafifado, e me questionando o quanto eu ando distante de qualquer tipo de espiritualidade. O jainismo nem tem um deus como o entendemos: suas divindades estão mais para os nossos anjos, e ninguém criou o universo nem o tempo, que são eternos e cíclicos. Claro que não estou pensando em me converter, mas fiquei curioso. E com uma certa inveja desse desprendimento todo, muito longe da minha vida ávida por confortos. Sem falar que desfilar morto nos braços do povo é um luxo.

A MULHER-POROROCA


Quem diria? O melhor disco brasileiro do ano até agora é "Do Tamanho Certo para o Meu Sorriso", que celebra os 40 anos da carreira de Fafá de Belém. Gravado em apenas quatro dias sob o comando do DJ Zé Pedro, o novo trabalho da "Musa das Diretas" é brega, esparramado, moderno e contagiante feito uma gargalhada. Fafá chegou ao sul em 1975, quando o Pará praticamente não existia no mapa musical brasileiro. Apesar de sempre ter gravado compositores da Amazônia e até de ter sua cidade natal no nome, ela nunca foi associada aos ritmos paraenses como Ivete Sangalo ou Daniela Mercury são ligadas ao axé. Mas hoje em dia o Pará é um caldeirão fervente, e sua filha mais famosa se atira nele com gosto. Todas as faixas têm aquelas guitarrinhas meio faroeste e percussão eletrônica fortemente influenciadas pela cumbia e pelo reggaetón. Algumas são boleros pós-modernos, como a assumidamente gay "Volta", do pernambucano Johnny Hooker - e que foi tema de "Tatuagem", um dos filmes mais bichas de todos os tempos. Fafá, aos 59 anos, não só está com a voz praticamente intacta, como se tornou uma grande atriz: ela modula intenções para atingir o maior efeito dramático, ao mesmo tempo em que o riso incontrolável não deixa que nada seja levado demasiado a sério. Gaby Amarantos, Lia Sofia e muitas outras estrelas da constelação amazônica são todas tributárias desse rio caudaloso que é Fafá de Belém, uma mulher que se joga de encontro ao novo com a fúria de um vagalhão.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

PINCHE GÜEY


Não é que ninguém consiga acompanhar todas as séries que aparecem por aí: ninguém consegue acompanhar nem as séries exclusivas do Netflix. Parece que toda semana sai uma nova, e quase todas são bacanas. Agora começam a surgir as primeiras gravadas em outras línguas que não o inglês. A pioneira em espanhol é a mexicana "Club de Cuervos", uma comédia dramática sobre um time de futebol fictício. Seus autores foram responsáveis por um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos por lá, "Los Nobles: Quando os Ricos Quebram a Cara" (que, no entanto, passou batido pelos cinemas daqui). Essa incursão pela TV não é nenhuma obra-prima, mas mais do que dá para o gasto. Os roteiros são engraçados e eficazes, a direção é segura e o elenco é encabeçado pelo ator mais badalado deste momento no México: o magérrimo Luís Gerardo Mendez, que é bem my cup of tea. Mas uma das razões que mais me prenderam ao programa é a avalanche de gírias mexicanas. Durante dez anos eu fui muito ao DF, mas há mais de quatro anos que não piso lá. "Club de Cuervos" está me martando as saudades de expressões como padrissimo, güey, pinche e cabrón.

SINCRONICIDADE

Meu marido passou mal no sábado e me pediu para comprar um remédio contra náusea. Pedi uma indicação para o farmacêutico e ele me recomendou Dramin, um medicamento do qual eu havia me esquecido totalmente. Naquela noite fui ao aniversário de uma amiga e uma das convidadas contou que tinha tomado Dramin para poder dormir num voo de longa distância. Ontem conheci um americano que nasceu em Sleepy Hollow, uma cidadezinha no estado de Nova York. Cheguei em casa e liguei a TV - adivinha que filme estava passando? "Sleepy Hollow", conhecido no Brasil como "A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça". Hoje de manhã li um artigo que citava um certo Eduardo Jorge (não o ex-candidato pelo PV). Logo depois, li na seção de cartas do jornal um reclamação assinada por um outro Eduardo Jorge. E estas foram só algumas das muitas coincidências que vêm me acontecendo nos últimos três dias. Carl Jung chamava isto de "sincronicidade". Em outros tempos, eu acharia que todos esses acasos seriam um sinal de que alguma coisa interessante estaria por acontecer. Hoje não sei mais se acredito nisto. E você, ainda pensa que o universo conspira a seu favor?

domingo, 23 de agosto de 2015

NÃO ME CATIVOU


Saímos de casa com o firme intuito de ver "Linda de Morrer", a nova comédia boba da Glória Pires. Mas o meu Alzheimer está avançando e eu me confundi com os horários das sessões. Chegando ao cinema, o único filme que vagamente nos interessava e começava naquele horário era "O Pequeno Príncipe". Digo vagamente porque eu nunca li o clássico de Saint-Exupéry. Ele era conhecido como o favorito das misses quando eu era pequeno, e como miss era uma coisa beyond cafona, achei melhor não. Mas meu marido guarda uma boa lembrança, portanto lá fomos nós. E nos arrependemos amargamente. Sim, porque o que está em cartaz não é "O Pequeno Príncipe": é uma história chatíssima de uma menininha com uma mãe workaholic, que a obriga a estudar sem parar. O que a faz descobrir o personagem é um velho aviador que mora na casa ao lado, meio que o próprio Saint-Exupéry. Como se o escritor não tivesse desaparecido com seu avião no mar durante a 2a. Guerra. Aí entram cenas do principezinho em seu planeta, com uma técnica de computação tão sofisiticada que eu jurava que era stop motion. Mas é muito pouco e, para estragar de vez, o roteiro deturpa a mensagem original. Que não é sobre manter acesa a chama da infância dentro de nós: isto é "Peter Pan". "O Pequeno Príncipe" é muito mais complexo - é sobre a morte, a solidão, a sabedoria, as transformações (não, não li o livro, mas sei do que se trata, e sei citar muitas passagens). Como se não bastasse, a animação da história principal, que toma uns 80% da duração, segue o mesmo estilo de traço da Pixar, com pessoas de olhos enormes. Uma traição e tanto aos desenhos de Saint-Exupéry. Tu te tornas responsável por aquilo que cativas: como meus leitores se tornaram importantes para mim pelo tempo que gasto com eles, recomendo a todos que mantenham distância dessa joça. Ou deixem-se morder pela serpente.

sábado, 22 de agosto de 2015

DIVÓRCIO À ISRAELENSE


Depois de ter passado duas horas preso numa laje em Buenos Aires com seis mulheres falando sem parar, parece que eu tomei gosto pela coisa e fui ver "O Julgamento de Viviane Amsalem". E aí passei duas horas trancado num tribunal rabínico em Israel, com juízes e queixosos falando, falando e falando. E não chegando a lugar nenhum. Este é o ponto do filme: a protagonista quer se divorciar, mas depende do aval do marido. O processo se arrasta por CINCO ANOS. É uma crítica dura ao machismo do judaísmo tradicional, onde a mulher reclama mas não tem voz. O absurdo da situação enlouquece a todos, mas ninguém quer ceder. Por isto, só posso recomendar "Viviane Amsalem"- que foi o escolhido dos israelenses para representá-los no Oscar deste ano, e que conseguiu ser indicado ao Globo de Ouro - para quem se interessar muito por costumes arcaicos e religiões opressivas. Na matriz abrâmica está a origem do sistema sexista que perdura até hoje, e é apavorante vê-lo operar sem restrições. Mas agora preciso ver um filme de ação com muitos efeitos especiais, e logo.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

CATAPLOFT

Vou para Londres a trabalho daqui a pouco mais de um mês, justo a tempo de perder a Dismaland. O parque temático criado por Banksy abriu hoje perto de Bristol e vai até 27 de setembro, dois dias antes de eu pisar solo britânico. Mas, mesmo se a duração for prorrogada, vai ser difícil conseguir ingresso. Tem tanta gente tentando que o site não para de cair. E claro que os engraçadinhos já estão dizendo que toda essa raiva e frustração fazem parte da experiência macabra...

FLAGRANTE DELITO

E aí, já chegou se o seu nome aparece na lista que vazou com os dados de 37 milhões de clientes do Ashley Madison? Duvido: como boa parte do meu leitorado é gay, imagino que nenhum de vocês que me prestigiam tenha se inscrito no mais famoso site de adultério do mundo. Fora que, para pular a cerca, as bibas contam com apps muito mais discretos e eficientes. Eficiência, aliás, nunca foi o forte do Ashley Madison: consta que 80% dos usuários do site são homens héteros, portanto não deve rolar muita coisa na real. E por falar em real, 37 MILHÕES de usuários? Levando em conta que os EUA têm algo em torno de 65 milhões de homens casados, isso implicaria numa proporção absurda deles tentando marcar aventuras pelo site. OK, o A.M. é canadense e está disponível quase que no mundo inteiro, mas tá na cara que esse número inclui muitos fakes e duplicados. Mas alguns são pra valer: já surgiram histórias de caras que receberam e-mails de chantagistas ameaçando contar tudo para as esposas se não receberem uma bolada. Enfim, como eu disse neste post de 2010, o Ashley Madison vende basicamente uma fantasia, e aposto que pouca gente chegou às vias de fato. Tanto que o marketing deles nunca se preocupou em seduzir o público feminino, como se pode ver no delicado anúncio acima. Quem sabe agora, que a mulherada vai começar a tomar Addyi, a coisa mude de figura.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

CONTRA MAS A FAVOR

Quem gosta de absurdos também foi bem servido pelas passeatas de hoje. Como esse aí do lado, que fustiga ao mesmo tempo um algoz do governo e o seu mais importante ministro. Não foi o único: o que mais me chamou a atenção foi a quantidade de gente se dizendo contra o impeachment mas criticando a presidenta (nesse ponto, tamo junto!). O apoio a Dilma está longe de ser amplo e irrestrito, o que só demonstra a fraqueza política dela. Mas a incoerência também campeia no lado que pede seu afastamento. Como já disse muitas vezes, ninguém pode ser a favor da Lava-Jato e defender Eduardo Cunha. Infelizmente, esse parece ser um retrato acabado do Brasil de hoje. Todo mundo é contra, mas também é a favor.

A INJUSTIÇA É CEGA

Pronto: Eduardo Cunha e Fernando Collor de Mello foram denunciados pela PGR ao STF. É mais do que provável que as denúncias sejam aceitas e os dois se tornem réus. Collor não deve ter nenhum apoiador fora de Alagoas e já entrou para a história como o presidente que traiu a redemocratização do Brasil. Mas Cunha ainda tem milhares de fãs, pelo menos até o momento. Este fenômeno é para lá de curioso: basta olhar a página do cara no Facebook e perceber que são pessoas com acesso à informação. E no entanto, elas insistem na ficção de que o deputado fluminense é o paladino da justiça contra a bandalheira do governo. Não há anti-petismo que justifique tamanha cegueira; é só passar uma vista d'olhos na biografia de Cunha para entender que ele se envolveu em escândalos desde o primeiro momento, quando foi presidente da extinta Telerj. Seu currículo inclui de PC Farias a Garotinho, seu rastro cheira mal e, como se não bastasse, suas ideias são as piores possíveis. Só o fato de defender o financiamento das campanhas por empresas com unhas e dentes já mostra que ele está à venda, e disposto a tirar vantagens financeiras de tudo. Mas nem sua oposição ao casamento igualitário impede que alguns amigos gays o achem "digno". Vão ler jornal, queridos. Quem frequenta este blog sabe que eu também não gosto do PT, mas Cunha é o demônio encarnado. Todos os defeitos políticos numa só pessoa. Por isto, vou abrir uma garrafa de champagne quando ele tiver que sair da presidência da Câmara, e duas quando ele for preso.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

O TIC-TAC DO MEU CORAÇÃO

A votação na ALERJ do projeto de lei que prevê multas para quem "satirizar" religiões foi adiada para daqui a cinco dias. A sessão do STF que talvez descriminalize a posse de drogas foi suspensa até amanhã. A denúncia de Eduardo Cunha na Lava-Jato, que chegou a ser anunciada para hoje, talvez não saia até sexta. Todas essas notícias encruadas trarão consequências para o Brasil, mas não dá para apressar o relógio. Estamos à espera. E o meu coração na alegria bate muito forte, mas na tristeza bate fraco porque sente dor...

O PL DA DESGRAÇA

E de repente, em cima da hora, somos avisados que a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro está votando HOJE um projeto de lei que pode criminalizar a liberdade de expressão no Brasil. Elaborado por um deputado evangélico (claro), o chamado "PL da Desgraça" estabelece que qualquer encenação ou charge que ridicularize ou erotize qualquer religião não só pagará 270 mil reais de multa como poderá ser imediatamente interrompida pela PM. O texto foi inspirado pela performance da trans Viviany Delebony na parada gay de São Paulo, que de sátira não tinha nada: era uma denúncia séria contra a violência sofrida pelos LGBT. O autor dessa patacoada, Fábio Silva (PMDB) citou até o massacre no "Charlie Hebdo" para se justificar: "o insulto à crença de um povo motivou esse absurdo, que foi a morte de 12 pessoas". Hã,  mas então foram os cartunistas os culpados pela própria morte? Não foram os terroristas? Ainda não sei do resultado da votação na ALERJ, mas não duvido que tamanho descalabro passe com louvor. Aí temos que rezar para o governador Pezão vetar, e talvez se indispor com boa parte de seu eleitorado. Ah, Brasil, como tá difícil viver aqui.

(Leia aqui a opinião do Gregorio Duvivier, e assine a petição ASAP)

terça-feira, 18 de agosto de 2015

AS GAROTAS DA LAJE


O cinema argentino desandou? Ou os poucos filmes que têm chegado até aqui não são representativos da cinematografia de lá? "Las Insoladas" é o quarto espécime que eu vejo este ano, e a quarta decepção. O diretor Gustavo Toretto emplacou um hit com o mediano "Medianeras", que todo mundo ama menos eu. Ele parece ter se obrigado a ambientar seus filmes em prédios, pois este se passa quase todo numa cobertura em Buenos Aires. Não há plot: só seis portenhas numa laje falando sem parar. Todas reclamam muito da vida, apesar de jovens e saudáveis. Como o filme se passa nos anos 90, há detalhes engraçados como um recém-chegado celular (ainda com antena) e menções ao ex-presidente Menem (eu não sabia que a gente deve se benzer quando ouve o nome dele, porque dá um azar pelotudo). Mas Toretto acha suas garotas muito mais interessantes do que elas realmente são. A câmera lambe com volúpia os corpos dourados, que são todos bonitos - já os rostos... Só que nenhuma delas se torna um personagem palpável, com passado e presente. O futuro, já sabemos que dificilmente se realizará, posto que elas sonham com uma viagem a Cuba que está fora do alcance de seus bolsos. "Las Insoladas" não chega a ser chato, mas para mim só serviu para matar as saudades do sotaque de Baires. Cadê o "Relatos Selvagens" de 2015?

AHAM, SENTA LÁ, XUXA

Um dos vários programas que Dercy Gonçalves teve entre os anos 60 e 70 chamava-se "Dercy de Verdade". O título se referia à ausência de freios da apresentadora, que falava o que lhe viesse pela cabeça. Esse nome também combinaria com Xuxa, que estreou ontem na Record sem a menor papa na língua. A espontaneidade sempre foi o ponto forte da ex-rainha dos baixinhos: desde os tempos da TV Manchete, o que encantava as crianças era a falta de cerimônia com que ela as tratava, de igual para igual e até com uma certa rispidez. Xuxa perdeu o bonde da história ao insistir em se aferrar ao público infantil mesmo quando seus fãs já estavam todos crescidos, e agora corre atrás do prejuízo. Talento e experiência ela tem de sobra para se firmar como apresentadora adulta, sem perder o frescor e a desfaçatez. Dito isto, o programa "Xuxa Meneghel" ainda tem muito a melhorar - mas isto é normal para qualquer estreia. O palco é grande demais e me passou várias vezes a sensação de vazio. Vazia também estava a pauta, como bem reparou o Mauricio Stycer: depois de um longo prólogo cheio de boas piadas sobre si mesma, os primeiros convidados foram... os atores de "Os Dez Mandamentos". Sim, vai ser difícil trazer convidados de peso toda semana, mas a Hebe conseguia. Beleza que a Record queira promover sua novela, mas para quem não a assiste (como eu) foi a senha para mudar para a Globo e ver mais uma grande cena de Grazi Massafera como nóia em "Verdades Secretas".

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

CANSADO DE MATAR


Acho que nenhum assunto foi tão explorado pelo cinema e pela TV nos últimos tempos quanto os serial killers. As histórias já estão se repetindo: o sujeito com a cara mais inocente do mundo na verdade é um cruel assassino de mulheres, e no fundo ele sofre muito por ser tão mau. Foi assim na minissérie "Dupla Identidade" que Globo exibiu no ano passado e é assim no filme francês "Na Próxima, Miro no Coração". A diferença é que aqui a trama horripilante é baseada em fatos reais, e o bandido é o próprio policial encarregado de investigar as mortes. O ator Guillaume Canet foi indicado ao César e está assustador no papel de um homem que se autoflagela para tentar controlar o desejo. Mas o clima soturno e o estudo psicológico não são suficientes para evitar uma certa fadiga do gênero.

INFLADOS

No final deu empate: as manifestações não floparam, como alguns petistas renitentes ainda teimam, mas também não foram o tsunami capaz de derrubar tudo o que aparecesse pela frente. Teve mais gente do que em abril, mas menos do que em março - e olha que os números da economia pioraram muito de lá para cá. Sim, não faltaram malucos com cartazes absurdos ("Volta Sarney" é o campeão na categoria), mas eles também aparecem quando há protestos da esquerda. Fazem parte da democracia, por mais que a gente os ache ridículos.

Às quatro da tarde de ontem peguei meu cachorro e fomos dar um rolé no final da Paulista. Ainda havia muita gente. É bizarro ver o Batalhão de Choque da PM posando feito popstars, mas não faltavam indignados com boas razões para estar lá. Só que tive  a sensação de não estarmos saindo do lugar: uma galera vai para as ruas, outra fica na internet chamando os demais de coxinha, o governo balança mas não cai. E a crise continua, sem soluções à vista. Talvez isto seja bom: o que menos precisamos neste instante é de um salvador da pátria montado num cavalo branco. A Itália passou por uma convulsão anti-corrupção há alguns anos e acabou elegendo o Berlusconi. Mas o fato é que estamos num looping desde o começo de 2015, sem nenhum lado forte o suficiente para se impor ao outro. Pelo menos o dia 16 de agosto produziu uma imagem fortíssima, o inflável do Lula presidiário que flutuou no DF. Não é um ponto de inflexão, mas é um símbolo.

domingo, 16 de agosto de 2015

IR OU NÃO IR

As manifestações marcadas para hoje prometiam ser as maiores de todos os tempos. Com o governo fraco como está, uma enxurrada de gente nas ruas seria o golpe de misericórdia. Mas parece que as pessoas pararam para pensar no day after. E não só as pessoas: nesta semana que passou foi costurado um acordo entre as elites econômicas e o Planalto, pois o clima de instabilidade faz mal para os negócios. Porque a história não acaba com a queda de Dilma. Depois viria o Temer, ou - pé de pato mangalô três vezes - Eduardo Cunha. Aliás, não faz o menor sentido as passeatas protestarem contra a presidenta e pouparem o líder da Câmara, a figura mais nefasta a surgir no cenário político em muitos anos. Quem diz que é a favor da Lava-Jato mas prefere poupar Cunha esquece que, se o nobre deputado assumir o poder, sua primeira providência vai ser despachar Rodrigo Janot para Marte e melar as investigações. Por tudo isto, não me animo a ir para a Paulista. Continuo sendo contra o governo, mas também continuo sendo contra o impeachment. Será que existe alguma manifestação que me represente?

sábado, 15 de agosto de 2015

A PÓS-VIDA DE ADELE


"A Dama Dourada" levanta uma questão importante: a quem pertence uma obra de arte? Quem pagou por ela? Ou à cultura de onde ela surgiu? Ou, aham, à toda a humanidade? O filme conta a história real de Maria Altmnann, uma sobrevivente do Holocausto que processou o governo austríaco para recuperar as telas de Klimt saqueadas pelos nazistas da casa de sua família em Viena. Entre elas está um dos quadros mais espetaculares de todos os tempos, o "Retrato de Adele Bloch-Bauer". Sim, Adele era tia da nossa protagonista, mas será que, passado tanto tempo, a chamada "Mona Lisa da Áustria" deveria sair da parede do palácio Belvedere e ir parar numa coleção particular? O caso aconteceu há mais de dez anos, e eu fui para o cinema já conhecendo o desfecho. Que, aliás, é óbvio para qualquer espectador com um mínimo de quilometragem. Mas o que salva "A Dama Dourada" da overdose de fofura de outros trabalhos recentes de Helen Mirren (como "A 100 Passos de um Sonho") são os flashbacks, com primorosa reconstituição de época, e as reverbarações que afetam a personagem. Maria Altmann não luta apenas por justiça: ela também sofre pela culpa de ter deixado os pais para trás. O roteiro bem amarrado, mais o elenco cheio de caras conhecidas (quantos atores de séries de TV você cosegue identificar?), fazem desse filme uma surpresa agradável. Adele Bloch-Bauer, já eternizada numa imagem esplêndida, ganha mais uma camada de sobrevida.

MORTA SUPLICY

Mór-reu. Morreu qualquer tentativa de Marta Suplicy de nos fazer acreditar que ela teria deixado o PT por razões ideológicas. Quem troca de partido em busca de ares mais puros não vai para o PMDB, a cloaca máxima da política brasileira. Morreu também qualquer chance de eu votar nela para prefeita de São Paulo, no ano que vem. Nem por decreto-lei que eu vou entregar a cidade que eu moro para a mesma agremiação de Eduardo Cunha, Renan Calheiros, José Sarney e tantos outros luminares que escurecem nossas vidas. Marta emporcalha sua biografia ao se juntar a essa gangue, e mostra que no fundo jamais defendeu ideal nenhum: só quer o "pudê", mais nada, e foda-se todo o resto. Do jeito que a coisa vai, com Datena, Russomano e João Dória também disputando o pleito paulistano, eu vou acabar votando no Haddad.

(a foto  foi roubada da página do Facebook que tem o mesmo nome desse post)