sábado, 20 de setembro de 2014

OS GENROS QUE MAMÃE PEDIU A DEUS

Sou totalmente maria-vai-com-as-outras. Pegando carona no assunto que mais mobiliza as bichas nessa campanha eleitoral, resolvi lançar a primeira enquete da história deste blog. Tá vendo o gadget aí do lado esquerdo? Vá lá e crave sua preferência. Qual deles é o genro que mamãe gostaria de ver nos seus braços?

O filho da Luciana Genro, Fernando Genro Robaina, que lembra uma versão mais clara do rapper Criolo, é jogador de futebol e parece ter uma pegada poderosa?

Ou o filho do Eduardo Jorge, o sarado Alexandre Alves Duarte, que, apesar de ser discretíssimo, já tem toda uma rede de intrigas construída ao seu redor?

Valendo!

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

OVA NOVA

Estou sendo pressionado a votar na Luciana Genro. No Facebook, amigos gays me interpelam: "como é que você ainda não fechou com a única candidata que defende os gays?". Na família, minha sobrinha de 18 anos declarou que vai votar nela, junto com toda sua classe - e eu me senti com 267 anos de idade. Fora que Luciana realmente tem dado um show nos debates, e ainda tem um filho gato... Ai, gente, me larga, eu já me decidi pelo Eduardo Jorge. Ele também apoia o casamento igualitário, o direito ao aborto e a liberação da maconha, e ainda propõe um monte de políticas coerentes e factíveis. Luciana é do PSOL: mesmo sabendo que ela tem tanta chance quando o candidato do PV, ou seja, zero, não consigo mudar meu voto. Acho que os partidos da esquerda radical são ótimos no Legislativo, onde fazem bastante barulho e lutam sem tréguas pelo que realmente acreditam. Mas no Executivo, ainda mais na presidência da república... não, não dá. O Jean Wyllys é um excelente candidato a deputado federal pelo Rio de Janeiro, e em São Paulo tem o Ivan Valente, a quem eu fiz questão de cumprimentar outro dia, quando cruzei com ele na rua. Mas, quando se trata do Executivo, me baixa a Regina Duarte e eu tenho medo. Se bem que ia ser fabuloso termos uma presidente com culhão de dizer "uma ova" num debate promovido pela Igreja Católica. Ô se ia.

GAROTAS DE FUTURO

Será que a onda das divas sexy finalmente estourou na praia? Não, porque Nicky Minaj continua balançando a "Anaconda". Mas surgiu uma contracorrente de cantoras gringas que não se encaixam neste padrão. Elas até são lindas de rosto e corpo, mas nenhuma fica esfregando as partes pudendas na câmera. E as letras podem falar de sexo de maneira explícita, mas sensualidade não é o produto que elas vendem. Para complicar, a música que essas moças fazem não é fácil. Escapam das fórmulas para tocar no rádio e são cheias de surpresinhas; algumas faixas são francamente experimentais. É o caso da inglesa FKA twigs, de quem eu falei aqui no blog um mês atrás. E também da americana Banks, que prefere usar só seu sobrenome como nome artístico, ignorando o prenome Jillian. Ela acabou de lançar "Goddess", seu primeiro álbum completo, com um som difícil de classificar. Não é pop, não é dance, não é soul - mas é muito bom, com arranjos complexos e melodias inusitadas. Entrou para minha lista dos melhores do ano.
Com um pé no hip-hop mas ainda da mesma turma, a também americana Jhené Aiko segue trilha parecida. Sua música reflete sua mistura de raças: ela é descendente de japoneses, afro-americanos, judeus e espanhóis. E também de algum povo alienígena, porque partes de seu disco "Souled Out" parecem ter sido gravadas em outro planeta. Não dá para dançar, mas é incrível para se ouvir com headphones.
E aí chegamos a "The Golden Echo", o segundo trabalho solo da neozelandesa Kimbra. Revelada em 2012 graças ao dueto com Gotye no megahit das galáxias "Somebody I Used to Know", ela surpreendeu logo em seguida com "Vows", um disco alegre e inovador. Kimbra continua feliz, mas dessa vez nem todas as músicas são para se cantar a plenos pulmões: há mais introspecção, mais momentos sombrios, e muita colagem de efeitos e trilhas incidentais. Não, não é tão bom quando o álbum de estreia. Mas nunca deixa de ser interessante, o que a torna uma digna integrante dessa nova geração de cantoras-compositoras que está expandindo os limites do pop.

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

SATANÁS PARA COLORIR

Sucumbindo à pressão de grupos ligados a igrejas evangélicas, um tribunal do estado americano da Flórida decidiu que é perfeitamente legal que panfletos religiosos sejam distribuídos aos alunos da rede pública. Mas, como nos Estados Unidos a lei vale mesmo para todos, os ativistas do Templo Satânico correram para produzir um livrinho de atividades voltado ao público infantil. Não, não se trata de um culto diabólico: o Templo Satânico na verdade é uma ONG que luta pela total separação entre Igreja e Estados, assim como pela mais ampla liberdade religiosa (inclusive a de não ter religião). O livro pode ser baixado de graça aqui, e, além de ilustrações fofíssimas de Baphomet ou do pentagrama invertido, também é recheado de mensagens de tolerância e boa convivência. Adoraria que algo semelhante acontecesse aqui no Brasil, onde a bancada fundamentalista tenta impingir sua agenda na legislação. Quem se habilita?

HOJE EU QUERO GANHAR O OSCAR

Mias uma vez, o Brasil não tinha um blockbuster óbvio, tipo "Cidade de Deus", para ser seu representante na disputa pelo Oscar de filme em língua estrangeira. Mas opção era o que não faltava: 17 títulos tentaram a indicação, alguns deles muito bons. "Praia do Futuro", "O Lobo Atrás da Porta" e o excelente "Tatuagem" são filmes que honram qualquer país, assim como "O Menino e o Mundo" - que ainda tem chances na categoria de longa-metragem em animação. Mas no final o comitê encarregado selecionou meu favorito pessoal, "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho". É uma escolha ousada, porque a Academia não costuma morrer de amores por filmes de temática gay. Mas também faz sentido, porque é o filme brasileiro mais premiado do ano no exterior (o que talvez não queira dizer muita coisa: o indicado do ano passado, "O Som ao Redor", também era, e não ficou nem entre os nove semifinalistas). Como bem disse a ministra Marta Suplicy, a história de "Hoje Eu Quero..." é universal, e também muito original. O longa de estreia de Daniel Ribeiro já tem estreia garantida nos EUA, mas o fato de ter sido escolhido pelo Brasil para brigar pelo Oscar vai lhe dar um gás. Se bem que nenhuma bicha precisa desse tipo de incentivo para ver essa pequena joia. A beleza dos meninos protagonistas já basta. Se você ainda não viu, corra - isto é uma ordem.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

CHATOS POR EXTENSO

Impressionante como o Facebook é mal gerido. O mercado publicitário já questiona a eficácia da rede social como mídia. Nem era para menos: o algoritmo que eles usam é burro. Bastou eu entrar numa página teocrática para espinafrar uns "pastores" desonestos para o Feice agora ficar me sugerindo coisas tipo "Namoro Evangélico" - hellooo? Também proíbem cartuns com peitinhos, mas liberam páginas homofóbicas e nazistas. E agora inventaram que os usuários precisam usar seus nomes verdadeiros. As drag queens americanas já estão em pé de guerra, e conseguiram uma reunião com a diretoria da empresa. Por aqui, amigos que usam iniciais ou siglas em seus sobrenomes estão sendo obrigados a adotar seus nomes por extenso, do jeito como estão no RGs. Daqui a pouco virão atrás de mim: Tony não é como eu apareço nos meus documentos. Sugerem que as pessoas usem parênteses embaixo de seus nomes verdadeiros, ou que criem fanpages para suas personas artísticas. Ah, quer saber? Pau no cu do Facebook. Eles é que têm que se adaptar, não nós. Chega dessas regras estúpidas. Por muito menos, MySpace e Orkut foram pro saco.

REINO DESUNIDO

Meu lado racional é totalmente contra a independência da Escócia, que será decidida amanhã num plebiscito. Acho qualquer nacionalismo o ápice da cafonice. O mundo inteiro tem que aprender a viver junto, sem fronteiras nem bandeiras. Mas meu lado emocional é a favor: se a Escócia se tornar indeopendente, acrescentarei mais um país à lista dos que eu conheço, e sem fazer força. Estive lá em 1988.

A fragmentação do Reino Unido impõe alguns problemas práticos. Qual será a moeda escocesa? E como fica o Union Jack, uma das bandeiras mais famosas do mundo? Se o pavilhão azul com a cruz em x de Santo André for eliminado do desenho, sobram as cruzes de São Jorge (da Inglaterra) e a de São Patrício (da Irlanda). Além de parecer ter sido lavada com Cândida, a nova bandeira não contempla o País de Gales.

Um monte de designs alternativos já está sendo proposto. Alguns incluem o dragão galês, outros o preto e amarelo da cruz de São Davi, também símbolo de Gales. Mas talvez nada mude: a rigor, a bandeira atual representa uma união de coroas, não de países (por isto que Gales, há muito tempo incoporado à Inglaterra, não aparece). E como Elizabeth II continuaria sendo a rainha da Escócia (como ainda o é da Austrália ou do Canadá), o Union Jack, presente em milhões de canecas e camisetas, poderia seguir igual. Mas, vem cá, e o castelo de Balmoral? A família real perderia seu refúgio favorito, que fica nas Highlands escocesas? Nããããooo!!!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

QUE DIFERENÇA FAZ PARA VOCÊ?

Drauzio Varella divulgou hoje este vídeo em seu canal no YouTube, que já está viralizando. É um serviço de utilidade pública: o médico mais famoso do país usa toda sua autoridade para esclarecer alguns pontos sobre a homossexualidade e, de quebra, detonar alguns "pastores de almas". Sei que o leitor do meu blog não precisa ser convencido, mas fiz questão de postar o vídeo aqui porque ele merece ser espalhado por aí. Mostre-o para o seu parente ignorante, seu conhecido que "não tem preconceito, mas...", sua tia religiosa. O dr. Drauzio é um aliado de peso.

O CACHORRINHO QUE COMEU A INTERNET

Ter um cachorrinho em casa é uma alegria. Também é uma aporrinhação. Não só ele ainda não sabe que não pode fazer as necessidades em qualquer lugar da casa como mastiga tudo o que lhe aparecer pela frente. Sapatos, meias, pés de móveis, embalagens vazias, casacos de vison, manuscritos raros. E não adianta comprar brinquedinhos apropriados: o pestinha se desinteressa deles em cinco segundos. Quer mais é destruir algo precioso. Como os cabos dos carregadores de celulares e computadores, o prato favorito do Nacho. Já tive que repor vários, inclusive o agora raríssimo cabo do iPhone 4, à venda apenas nos, digamos, distribuidores alternativos. Mas o maior preju foi com o carregador do meu MacBook Air, que me acompanha para cima e para baixo. O treco já vinha falhando desde que sofreu algumas dentadas, e ontem, ao chegar no Rio, morreu para sempre. Foi por isto que não postei mais nada no blog. Mas agora já adquiri um novinho em folha, em suaves prestações. Vamos ver quanto tempo dura.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A MARCA PODRE

Quando uma marca fica associada a alguma coisa muito negativa, é difícil reverter o quadro. Mais fácil mudar a marca. Foi o que aconteceu com a consultoria Arthur Andersen, depois da descoberta que ela estava ligada a inúmeros casos de corrupção. A empresa ainda existe, mas agora com o nome de Accenture. Esta regra não vale apenas para a propaganda comercial: o poder das palavras se estende a todos os aspectos da vida humana. Algo parecido está aocntecendo neste momento com a expressão "evangélico". Até pouco tempo atrás, ela era usada como um distintivo de autoridade moral - "sou evangélico!", gritavam alguns com orgulho, como se isto os fizesse superiores aos demais. Mas nada como um dia depois do outro. A ganância desenfreada de algumas igrejas, os pastores moralistas pegos com a boca na botija e as propostas absurdas da bancada religiosa no Congresso degradaram a marca. A tal ponto que, hoje em dia, é comum vermos fiéis de igrejas mais tradicionais reclamarem de serem incluídos no mesmo saco que os fanáticos. É verdade que os evangélico são divididos em vários grupos, e os não-pentecostais - onde se incluem os batistas e outras denominações mais antigas - costumam ser muito mais discretos e menos intrusivos na vida alheia. O "problema" são os neopentecostais, quase todos pertencentes a igrejas fundadas há menos de 40 anos, que fazem muito barulho e buscam uma influência política maior do que seu número lhes garantiria. Hoje em dia, quem se declara evangélico é imediatamente encarado como retrógrado e preconceituoso. A marca está apodrecendo tão rápido que até os maiores culpados pela sua degradação já estão tentando trocá-la. Reparou como o Marco Feliciano agora se refere aos "cristãos", como se fossem todos iguais? A tática tem lá sua esperteza: assim fica muito mais difícil criticar os cristãos, uma parcela enorme da população. Mas, como todo profissional de marketing sabe, mudar a marca é apenas um paliativo. Se o produto continuar o mesmo, não vai demorar muito para o consumidor rejeitá-lo novamente.

domingo, 14 de setembro de 2014

"GAME OF THRONES" FEITO PELA RECORD

"Mundo sem Fim" é uma minissérie britânica baseada no best-seller de mesmo nome de Ken Follett, e é uma espécie de continuação de "Os Pilares da Terra", do mesmo autor - alguns dos protagonistas são descendentes de personagens daquele livro, que se passa 150 anos antes. Aqui estamos no meio do século 14, no começo da Guerra dos 100 Anos entre Inglaterra e França, e com a peste bubônica devastando a Europa. É um período turbulentíssimo, logo antes do Renascimento. A pesquisa história de "Mundo Sem Fim" é primorosa, mas a dramaturgia nem tanto. Os bons são uns santos e os maus, malvadíssimos, sem as nuances que tornam "Game of Thrones" tão interessante. Aliás, é impossível evitar a comparação com a série da HBO: além de muitos atores em comum, têm a mesma temática medieval. Tirando a fantasia, a maior diferença é mesmo nos valores de produção. O orçamento de "Mundo sem Fim" deve ser muito menor, pois cenários e figurinos têm cara de cenários e figurinos - nada parece real, nada parece vivido. Me lembrou aquelas produções bíblicas da Record, onde dá para perceber que se gastou muito dinheiro para um resultado marromeno. Mesmo assim, a trama vai ficando mais densa no final e, com apenas oito capítulos, dá para ver de enfiada num fim de semana ("Mundo Sem Fim" está disponível no Netflix com seu título original, "World Without End").

sábado, 13 de setembro de 2014

ENCONTRARAM O CULPADO

A polícia de Goiás já prendeu um suspeito do assassinato de João Antonio Donati. É um rapaz de 20 anos, que confessou o crime. Também admitiu ter tudo relações sexuais com a vítima, embora jure que não seja gay. No Brasil, especialmente no interior, ainda vigora o mito de que só é gay quem dá (ahã). Ainda tem muita coisa a ser esclarecida nessa história, mas só o fato do criminoso também ser homossexual já bastou para a polícia descartar a homofobia como motivo do crime. Mas desde quando que não existem mais gays homofóbicos? São os piores, porque não se aceitam. E como não têm coragem de matar a si mesmos, matam os objetos de seus desejos. É um tipo de assassinato bastante comum, mas que não recebe muita atenção da sociedade. As vítimas costumam ser travestis ou homens que buscam sexo anônimo, então a reação do público costuma ser "bem feito". Óbvio que ainda não dá para dizer que foi exatamente isto o que aconteceu em Inhumas, mas tudo indica que sim. E portanto, João Antonio foi vítima de homofobia, sim. Não de um grupo de skinheads ou de um vingador mascarado, mas de um boçal que não se assume. Que aprendeu que ser gay é pecado, um pecado maior do que tirar a vida de outra pessoa. Por isto, não retiro uma palavra do que eu disse. Dilma, Marina, Malafaia, Reinaldo Azevedo, a Globo, você, eu - somos todos culpados.

PRA QUE TANTO CÉU

Todo filme de episódios é, por definição, irregular. Tem sempre uns melhores que os outros, e o resultado final nunca é plenamente satisfatório. Com "Rio, Eu te Amo" acontece algo ainda mais frustrante: nenhum dos 11 curtas chega a ser incrííível, e alguns são francamente ruins. O mais impactante é mesmo o quase censurado "Inútil Paisagem", onde Wagner Moura desabafa com o Cristo Redentor. Mas é pouco mais do que uma cena. As outras histórias, que misturam atores brasileiros e estrangeiros, também exploram a beleza carioca, mas algumas poderiam se passar em qualquer lugar do mundo. Alguns críticos estão reclamando do caráter "turístico" do filme. Eu não: adoro fazer turismo, mesmo no lugar onde eu nasci. Só que, apesar do excesso de cartões postais, senti falta da zona norte, da praia, do samba, de Copacabana... Óbvio que um único filme não daria conta de toda a cidade. Saí do cinema pensando no que eu faria se, por milagre, eu fosse convidado a contribuir com um episódio. Acho que algo inspirado no Alair Gomes, aquele fotógrafo que flagrava os homens mais bonitos da praia sem que eles se dessem conta. Mas o meu curta teria final feliz.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

O INCRÍVEL PASTOR QUE ENCOLHEU

Podem anotar o que eu digo: estamos assistindo à deflação do supostamente imenso poder de Silas Malafaia. Ele está sendo mais desmascarado a cada dia que passa, e daqui a pouco teremos uma noção mais precisa de seu tamanho. Hoje o apóstolo do ódio tentou chamar os holofotes para si mesmo ao propor um tuitaço contra as declarações anti-homofobia da Dilma na sabatina de "O Globo". O importantíssimo cavalo de batalha do profeta de Satanás é a proposta feita por algumas escolas de substituir o Dia dos Pais e o Dia das Mães pelo Dia da Família - apesar de nenhuma dessas datas constar do calendário oficial do governo. A militância petista reagiu na hora e propôs um contra-tuitaço com #MenosÓDIOMalafaia. Resultado: já está em segundo lugar nos TTs brasileiros, enquanto que o "pastor" nem pontuou. Malafaia esperneou e propôs #roubalheiraePTtudoaver, mas não deu certo. Agora ele está espumando em sua timeline, como quase todo dia, mas era bom economizar espuma. A adesão maciça à criminalização da homofobia está mostrando que Malafaia ladra muito, mas não tem força para morder. Faz parte da estratégia dos fundamentalistas projetar uma influência muito maior do que de fato têm: por isto vivem espalhando que o Brasil inteiro vai logo se tornar evangélico ou que em breve instalarão a "Jesuscracia". Vão nada, porque o país está mudando - e não é para o lado que eles queriam. Derrota em Cristo!

O DEDO NA FERIDA

Estou revoltado com os novos comerciais do PT. São pura embromação, tentando apavorar os pobres com a proposta de Marina para a independência do BC (Lula fez igual) ou denegrindo a imagem da Neca Setúbal (que quase foi secretária de educação do Haddad...). Mas era mesmo de se esperar que o nível despencasse quando o partido se visse acuado. Como deu certo, vem mais baixaria por aí.

Por outro lado, Dilma se saiu muito bem quando confrontada com a questão LGBT durante uma sabatina realizada hoje de manhã pelo "O Globo". O curioso é que, no próprio site do jornal, as declarações da presidenta foram transcritas de forma abreviada. Foi no concorrente "Jornal do Brasil" que eu encontrei uma versão mais completa:

“Tenho integral compromisso com a criminalização da homofobia. Esse projeto não tem só esse artigo da criminalização, tem vários, e nós ainda temos que compatibilizar outras questões. O governo não é favorável a todos os pontos, mas a todos que punem os crimes, é. Com essa parte, vamos contribuir. Mas vamos também pedir mudanças em outras”.

“Sou a favor do que o Supremo [Tribunal Federal] aprovou, o casamento civil entre pessoas mesmo sexo. Ele reconheceu para elas todos os direitos das relações estáveis. O que acho que não temos condições de impor é o casamento religioso. Cada religião casa como quiser. O Estado laico tem a obrigação de reconhecer o direito de herança, de adoção, todos os direitos que um casamento entre homem e mulher tem, também para aqueles entre pessoas do mesmo sexo. Isso foi resolvido no maior nível possível. Ficar discutindo se tem direito ou não é absurdo. É uma questão solucionada, pacificada. A discussão central agora é a respeito da homofobia. Em um País onde se tem uma das mais importantes democracia do mundo, essa criminalização é absolutamente necessária. Assim como foi necessário criminalizar a violência contra o negro e contra a mulher”.


São palavras fortes, mas também o mínimo que se espera de uma candidata que se diz progressista. Agora está na hora de encher o saco da Marina novamente sobre este assunto, e também o do Aécio - ele não tem mais chances, mas um posicionamento claro e favorável dos três principais candidatos à criminalização da homofobia vai ajudar, e muito, ao Brasil fechar esta enorme ferida.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

OI, TUDO BEM?

Oi, presidenta Dilma, tudo bem? Que bom que a senhora finalmente manifestou apoio à criminalização da homofobia, não é mesmo? Claro que foi por puro oportunismo, por causa da reviravolta da Marina Silva. E claro que a senhora podia ter apoiado a causa há anos, e não aberto as pernas para a bancada evangélica sempre que isto lhe pareceu interessante para o seu projeto de poder. Que vexame, hein? Sei que não foi a senhora quem matou o João Antonio Donati, mas podia ter feito algo para evitar. Se pelo menos a senhora condenasse a homofobia com a mesma ênfase com que exige ser chamada de "presidenta"...

Oi, Marina Silva, tudo bem? Antes de mais nada, parabéns pela sua história de vida. É simplesmente incrível que uma mulher pobre, mestiça e que só foi alfabetizada aos 16 anos tenha agora chances reais de assumir a presidência de um país tão grande e importante quanto o nosso. Mais incrível ainda é uma pessoa que sofreu na pele o racismo, o sexismo e o classismo demonstrar tão pouca compaixão pelos LGBT. E nem venha me dizer que a senhora crê num Deus de amor quando, há menos de duas semanas, retirou do seu plano de governo a criminalização da homofobia. Sei que não foi a senhora quem matou o João Antonio Donati, mas tem, sim, um pouco do sangue dele nas suas mãos.

Oi, Malafaia, tudo bem? Sei que não: com você tá tudo sempre mal, porque os gays estão dominando o mundo e perseguindo os cristãos, não é mesmo? Só queria que você me mostrasse um evangélico, um só, que tenha sido morto no Brasil pelo simples fato de ser evangélico. Ou que tenha levado lampadadas na cabeça, dentadas na orelha, canos na perna... Perseguição é isso aí, não um selfie engraçadinho tirado dentro de um avião. Sei que não foi você quem matou o João Antonio Donati, mas as suas palavras - e as de muitos outros líderes religiosos - servem para que assassinos selvagens justifiquem seus atos.

Oi, Reinaldo Azevedo, tudo bem? Você e outros colunistas estão sempre alertando sobre a iminência de uma ditadura "gayzista" se abater sobre o Brasil. Também insistem que não existe homofobia no Brasil e que, apesar de liderarmos as estatísticas mundiais em assassinatos de pessoas LGBT, nenhuma delas foi morta pelo simples fato de ser gay. Sei que não foi você quem matou o João Antonio Donati, mas será que você vai ter a cara-de-pau de dizer que foi um "gayzista" que encontrou o cadáver do garoto e aí se aproveitou para encher a boca dele de ameaças homofóbicas, para deturpar o verdadeiro motivo do crime?

Oi, Rede Globo, tudo bem? Sei que eu sou funcionário de vocês, mas nem por isto vou deixar de, digamos, dar uma sugestão. Que tal cobrir este assassinato do jeito que ele merece? Em 2010, a morte bárbara do menino Alexandre Ivo foi totalmente eclipsada pela cobertura do caso Eliza Samudio. Será que só os crimes cometidos por goleiros do Flamengo é que são dignos de atenção? Sei que não foram vocês que mataram o João Antonio Donati, mas no Chile - um país ainda mais conservador que o Brasil - graças à cobertura da mídia, bastou um único assassinato para a homofobia ser criminalizada. Bora dar essa força?

Oi, leitor, tudo bem? Obrigado pela sua audiência, que é sempre sinal de prestígio. Sei que você também está indignado e que já deve estar dando "like" nos posts do Feice sobre essa atrocidade, mas está mais do que na hora de fazer algo mais. Não, não estou pedindo para ninguém sair em passeata. Mas o dia 5 de outubro está chegando, e dessa vez não faltam candidatos que defendam os direitos das minorias sexuais. Sei que não foi você quem matou o João Antonio Donati, mas o mínimo que a gente pode fazer para honrar a memória dele é votar direito para deputado estadual, deputado federal e senador, porque é no Legislativo que o bicho pega. Vamos quebrar as pernas da homofobia!

ATUALIZAÇÃO: Ao contrário do que chegou a ser noticiado, não era um bilhete com uma mensagem homofóbica o que estava dentro da boca de João Antonio Donati, e sim sacolas plásticas. A polícia desconfia, inclusive, que ele tenha morrido asfixiado por essas sacolas, já que os ferimentos em seu corpo não seriam letais. Mas nada foi roubado, o que mantém a suspeita de que a causa do crime foi mesmo homofobia. Temos que manter a marcação cerrada, porque senão daqui a pouco vão dizer que o garoto se suicidou.

E ASSIM SE PASSARAM DEZ ANOS

"Cada Um com Seus Pobrema", o espetáculo de stand-up que consagrou Marcelo Médici, ficou dez anos em cartaz, e mesmo assim eu tive a manha de perdê-lo. Me redimi em parte ontem à noite, na estreia da parte 2 - A Missão. Dessa vez não há só monólogos: também tem uma pecinha que é uma espécie de continuação de "A Malvada" misturada com "Irma Vap", onde Marcelo contracena com Ricardo Rathsam, "ator intimado" e seu parceiro constante. Mas todos os personagens que caíram nas graças do público também estão de volta: o Mico-Leão Dourado, a Tia Penha, a Mãe Jatira... Marcelo Médici é um dos maiores talentos cômicos que este país já teve. Quem só o conhece da TV precisa ver "Cada Dois com Seus Pobrema", onde o cara é possuído por diversas entidades sem jamais perder o foco. Mas veja logo, não espere que se passem dez anos.

A ZAMBIENAL

Dessa vez não esperei pelos últimos dias. Fui visitar a Bienal de São Paulo logo na primeira semana, porque vai que alguma daquelas obras derrete ou entra em processo de decomposição? Mas minha pressa foi desnecessária. Esta é a Bienal mais feia de todos os tempos, com a desonrosa exceção do pavilhão semi-vazio de 2008. "Feia" é a definição mais precisa, mas cabem muitas outras: antiquada, panfletária, equivocada, descolada da realidade... Claro que tem coisas interessantes, como "Map" do chinês Qiu Zhijie - um imenso mapa imaginário do mundo da filosofia e da religião, que será apagado da parede lateral à rampa de entrada quando a mostra terminar em dezembro. Ou a "Linha do Tempo" do Museu do Travesti do Peru, muito mais pelo lado antropológico do que pelo estético. Mas o que predomina são instalações mal-acabadas, rabiscos aleatórios e uma pregação política que soaria velha em 1968. Desconfio até que a Zambininha tenha sido uma das curadoras.O mais impactante de tudo é mesmo o curta-metragem "Inferno", da israelense Yael Bartana. Acho incrivelmente démodé uma exposição de arte exibir vídeos em tempos de YouTube, mas o filme cumpre a função de provocar com fundamento - algo que deveria ser obrigatório em qualquer peça de Bienal. É bem mais do que um ataque à Igreja Universal do Reino de Deus ou mesmo à liberdade religiosa, e está longe de incitar a violência contra os evangélicos, como zurram alguns burros na internet. Mas é, sim, uma crítica contundente à presunção de se criar um terceiro Templo de Jerusalém, e uma meditação sobre a finitude das coisas. Como se não bastasse, quem interpreta o sumo-sacerdote é ninguém menos que Márcia Pantera, uma lenda da noite paulistana. Vale a pena visitar o "Inferno".

(Veja mais do que está exposto aqui, ou visite o site da 31a. Bienal de São Paulo)

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

ISSO NÃO É BOSSA NOVA

Bebel Gilberto encantou o mundo inteiro com "Tanto Tempo", seu CD de 2000 onde ela sussurrava clássicos da bossa nova sobre uma discreta camada eletrônica conjurada por Suba, um músico iugoslavo radicado no Brasil. Mas Suba morreu num incêndio naquele mesmo ano e Bebel nunca mais se preocupou em inovar. Seus discos são sempre corretos, com boas canções e bons arranjos, adequados para uma voz que não é dada a piruetas vocais. A novidade do recém-lançado "Tudo" é a ampliação do repertório. Os pontos altos desse novo trabalho são covers de não-bossas novas, como "Harvest Moon" de Neil Young e "Tout Est Bleu", da dupla francesa de electropop Âme Strong. Não chega a ser tuuudo, mas isso é muito natural.

COPOS E COPOS DE MACONHA

A regulamentação da maconha entrou nos debates políticos deste ano. Não com a força da criminalização da homofobia, é verdade. O assunto consegue ser ainda mais espinhoso, e nunca havia sido discutido antes pelos candidatos à presidência. Agora está a ponto de se tornar aquilo que os americanos chamam de "wedge issue": um tema capaz de, por si só, fazer o eleitor mudar seu voto. E, como no caso de outras pautas progressistas, grupos reacionários já estão tocando o terror com campanhas contrárias. Mas talvez devessem trocar de agência de propaganda: os anúncios publicados em jornais de Fortaleza no começo desta semana são tão ruins que imediatamente viraram piada nas redes sociais.

Ao invés de enumerar os problemas concretos que a maconha pode acarretar, os marqueteiros apelaram para um conceito ridículo, esquecendo que um cirurgião também pode tomar um porre perfeitamente legal antes de uma operação. E também ignorando a quantidade de coisinhas ilícitas que médicos e outros profissionais ingerem para se manter de pé... O tiro saiu tão pela culatra que eu duvido que esse argumento tosco tenha prosseguimento.

Ou não. Este tipo de debate nunca é muito racional. O certo agora seria observarmos as experiências do Uruguai e do estado americano do Colorado, e aprender com elas. Mas esta abordagem não é usada nem no caso do casamento gay, que já é legalizado em muitos países e nem por isto destruiu o tecido social. Pelo menos por aqui temos gente lúcida como o FHC ou o Jean Wyllys, que elevam o nível da discussão. Discussão, aliás, que já foi apertada: está mais que na hora de acendê-la.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

PARA PROTEGER TODO MUNDO

O Põe na Roda é frequentemente chamado de versão gay do Porta dos Fundos, mas nem todos os vídeos do grupo são de humor. O dessa semana, então, é literalmente uma porrada: com depoimentos de vítimas da violência homofóbica, é um dos libelos mais fortes pela criminalização da homofobia já produzidos no Brasil. A questão entrou nas promessas dos principais candidatos, mas não pode ser esquecida depois das eleições. É preciso criar um clima político para que o próximo presidente, quem quer que seja, não abra mais as pernas para a bancada teocrática quando achar que isto lhe renderá algum ganho político. O segredo para isto é mostrarmos que ele perderá muito mais se continuar nos desrespeitando. Como bem diz o vídeo, a criminalização da homofobia não é só para proteger os LGBT, porque não são só eles que sofrem com ela.

A ARTE DA PATOLADA

Foi-se o tempo em que uma pré-estreia repleta de celebridades era uma maneira razoável de promover um filme. No mundo congestionado de hoje, é necessário algo mais para atrair a atenção do público - e Channing Tatum acabou de atrair a minha. Para lançar "Anjos da Lei 2", o novo gostosão de Hollywood preparou este vídeo, que não tem absolutamente chongas a ver com o filme. Tem que ter que muita marra para sair por aí patolando os bros, mas Channing tem. Ele tem tudo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

CANDIDATXS NECESSÁRIXS

Agora ninguém mais tem desculpa. Surgiu um site que lista todos os candidatos gays e simpatizantes, por estado e por cargo. É o #VoteLGBT, que seria ainda mais bacana se não abolisse o gênero ds palavras masculinas ou femininas: são todas grafadas com um "x" impronunciável, como no título desse post. É um radicalismo bobo e desnecessário, mas isto não desmerece o esforço admirável de se juntar num lugar só tantas candidaturas de tantos partidos diferentes. Tem também um manifesto chamado "Acorda, Alice!", com frases como "o Brasil está uó para os gays" e "fazer a egípcia não resolve nada". Também vou fazer a Nefertiti para essa linguagem malandrex, porque uma iniciativa dessas é mais do que necessária. Se votarmos mal de novo, depois não poderemos reclamar. Então escolha com atenção os seus candidatos e se jogue nas urnas, beee.

DERROTADO PELOS PAÍSES-BAIXOS


Três anos depois de ocupar as manchetes do mundo inteiro, o escândalo sexual envolvendo Dominique Strauss-Khan chega às telas de cinema. "Bem-Vindo a Nova York" é mais que uma reconstituição do caso. É um ataque pesado contra o ex-diretor do FMI, pintado com um vilão grotesco e sem qualidades. O personagem é declarado culpado a priori: antes mesmo dos créditos de abertura, o ator Gérard Depardieu aparece dando uma entrevista como ele mesmo, dizendo que "não gosta" de Strauss-Khan. Seguem-se longas cenas de orgias com prostitutas, culminando com o ataque à camareira do hotel Sofitel que acabou por destruir a carreira de DSK. Não resta muita dúvida de que o sujeito é mesmo um predador sexual: como costuma acontecer nesses casos, bastou uma denúncia de estupro para que surgissem muitas outras. O problema é que, sabendo das taras de Strauss-Khan (chamado de "Devereaux" no filme de Abel Ferrara), seus inimigos podem muito bem ter plantado contra ele, que àquela altura era o mais cotado para ser o candidato do Partido Socialista a presidente da França. "Bem-Vindo a Nova York" jamais levanta a suspeita de uma conspiração. Essa lacuna enfraquece o filme, que no entanto tem cenas fortes e interpretações admiráveis de Depardieu e Jacqueline Bisset. Ele, inclusive, não tem o menor pudor em ficar pelado e exibir uma pança descomunal. Dominique Strauss-Khan é mais um exemplo patético de homem que se deixou derrotar pelo próprio pinto. Mas "Bem-Vindo à Nova York", apesar dos muitos bons momentos, é tão enviesado parece ter sido encomendado por Nicolas Sárkozy ou François Hollande. Não é à toa que os produtores já estão sendo alvos de processos.

domingo, 7 de setembro de 2014

NOVA YORK NOSTRA

"Era uma Vez em Nova York" (cujo título original é "The Immigrant") pelo menos nos poupa da viagem de navio, quase obrigatória quando o tema da obra é a imigração. O filme já começa em Ellis Island, o posto de triagem ao lado da Estátua da Liberdade. Mas o clichê seguinte não é evitado: claro que alguém da família da protagonista é barrado pelas autoridades por estar muito doente. Daí para a frente a polonesa vivida por Marion Cotillard cai nas mãos de um cafetão carinhoso, que a explora ao mesmo tempo em que é apaixonado por ela. Sua atuação minimalista, feita por gestos tímidos e falas em voz baixa, no entanto não esconde as falhas do roteiro, que anda em círculos e apresenta personagens inconsistentes. A fotografia dourada e a direção de arte detalhista garantem o deleite visual, mas é pouco. O trailer aí em cima é melhor do que o filme propriamente dito, que concorreu em Cannes no ano passado e só agora está estreando mundo afora. Não vai causar muito impacto, nem com o empurrãozinho do exibidor brasileiro que deu um jeito de enfiar "Nova York" no título (é o terceiro filme em cartaz com o nome da cidade). É um hábito curioso: na dúvida de como traduzir, é mais fácil tascar logo um "Nova York" ou um "Paris" no título e estamos conversados.

sábado, 6 de setembro de 2014

ÓLEO NA PISTA

A sensação que eu tenho com as revelações de Paulo Roberto Costa é a de que simplesmente não temos para onde correr. Não importa em quem a gente votar: o carrinho das boas intenções invariavelmente colide com o caminhão de dinheiro que vem na direção contrária. As denúncias do ex-diretor da Petrobras atingiram até mesmo Eduardo Campos, o mais novo santo brasileiro. É cedo para dizer o tamanho da influência que esse escândalo vai ter na eleições, mas o meu buraco é mais embaixo. O que sobra para mim é uma descrença cada vez maior na política e nos políticos, e isto é contraproducente. Não se interessar por política é deixar a pista livre para os malfeitores de todas as tendências. Ou melhor, ainda mais livre.