segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

TÁ TRANQUILO, TÁ FAVORÁVEL

Hoje começa o ano chinês do macaco. Dificlmente os próximo 12 meses trarão um design mais desavisado do que esse poster assinado por Lehu Zhang, um artista chinês radicado em São Francisco. Tomara que esta imagem tão sugestiva seja um presságio favorável para todos nós, e que ela seja interpretada como defende o Agamenon Mendes Pedreira: no bom sentido, de dentro para fora.

O BLOQUINHO DO JOGO FRIO

Em pleno domingo de carnaval, os americanos também botaram seu bloco na rua. O maior de todos: o show do meio-tempo do Super Bowl, que tem menos de 15 minutos para deixar a humanidade embasbacada. Conseguiram este ano? Médio. O que era para ser uma apresentação do Coldplay com alguns convidados descambou para um rocambole incoerente, que terminou com um tributo meio desnecessário aos artistas que já haviam passado por lá (dois dos quais estavam em cena naquele momento). Este ano a final do campeonato de futebol americano aconteceu na Califórnia, e o show precisou se adaptar para a luz do dia. Mas isto não justifica a primeira parte ter parecido a festa de formatura de um colégio de crianças especiais na Coreia do Norte. Chris Martin, o coxinha-mor do planeta, cantou cercado de jovens músicos metidos em agasalhos que deixavam todos obesos. Enquanto isso, florzinhas coloridas rodopiavam no gramado. Só faltou todo mundo ganhar uma medalha. Ainda bem que a xaropada foi interrompida pela chegada de Bruno Mars e "Uptown Funk", que logo depois teve que ceder a vez a Beyoncé. Aí sim, senhoras e senhores, tivemos um show. Mas Bey não cantou a música que acabou de gravar com o Coldplay, "Hymn to the Weekend". Melhor assim? Acho que não, porque tudo terminou com "Believe in Love" escrito nas arquibancadas. Me lembrou a nova propaganda do PT.
Antes do jogo começar, ainda teve Lady Gaga cantando o hino nacional. Nada a criticar: a tarefa é inglória, e ela se saiu bastante bem. Agora me pergunto como será a abertura das Olimpíadas: espetacular, ou uma zica maior que a da Copa?

domingo, 7 de fevereiro de 2016

A PAIXÃO DE LEONARDO


Já virou piada em Hollywood: não importa o quão bem Leonardo Di Caprio esteja num filme, ele não vai ganhar o Oscar. A Academia sempre acha alguém que mereça mais, e muitas vezes sequer indica o rapaz. Mas agora parece que vai. O ex- de Gisele Bündchen não só está no filme com mais indicações dessa safra, como sofreu para caralho nas filmagens. E só tem uma coisa que comova a Academia mais do que um ator que sofre para compor um personagem: ator que interpreta doente. Como Leo ainda por cima tem a narrativa de que chegou a sua hora, o Oscar está mais do que no papo. Pelo menos ele está bem mesmo em "O Regresso", o longa mais dolorido desde "A Paixão de Cristo". Seu protagonista sofre todas as dores possíveis, inclusive na alma. Tanta coisa dá errado que, lá pelas tantas, me deu até vontade de rir. Mas o tom solene, a fotografia espetacular e a música dramática de Ryuichi Sakamoto inibem o riso. Por outro lado, o fiapo de roteiro não atinge o coração. É o filme mais frio de Alejandro G. Iñárritu, um cineasta que sempre foi visceral (e cerebral em seu último trabalho, o ótimo "Birdman"). "O Regresso" é um prodígio técnico: todo filmado com luz natural, vistas de tirar o fôlego, design de som impressionante e violência ímpar, tanto do homem como da natureza. A famosa cena do ataque do urso é de arregalar os olhos - ainda mais se lembrarmos que se trata de um urso inteiramente construído em computação. Um filmaço, mas faltou alguma coisa.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

TRAVESTI E BAGUNÇA


Comecei meu carnaval com um filme que fez muito braulho no festival de Sundance do ano passado e que arrancou elogios unânimes da crítica americana. Apesar disso e da adequação à data, "Tangerine" estreou no Brasil sem fazer barulho. Só tinha eu e mais um gato pingado na sessão a que fui nessa sexta. Mas esse silêncio fica fora da tela: dentro dela, o que não falta é babado, confusão e tapa na cara. "Tangerine" é inovador tanto na forma como no conteúdo. Foi inteiramente filmado com iPhones 5s, o que dá às cenas um sentido de urgência e palpabilidade. E conta a história de duas trans que se prostituem nas ruas de Los Angeles, o tipo de protagonista que é raro em qualquer lugar do mundo. Uma delas acaba de sair de um mês na prisão por porte de cocaína, e a primeira coisa que sua amiga lhe conta é que o namorado-cafetão não só não foi fiel, como a traiu com um "peixe" (a gíria local para as mulheres). O que segue daí é uma perseguição implacável em plena véspera de Natal, mostrando um mundo sórdido de drogas, sexo e violência. Ah, falei que é uma comédia? Pois é: o diretor Sean Baker não tem peninha de seus personagens, e deixa que a denúncia social aconteça sozinha na cabeça do espectador. Ninguém reclama de sua própria situação. A edição agitada e o ótimo uso da trilha sonora levantam o astral, e o drama humano se manifesta sem firulas. Só não entendi o título do filme, já que não há sombra de tangerina. Talvez seja uma corruptela de "transgender"?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

LUTA INGLÓRIA

"Minha Luta" é um horror absoluto, mas também é um documento histórico. O livro de Adolf Hitler entrou em domínio público no começo do ano, e diversas edições comentadas estão sendo lançadas pelo mundo afora. Mas não no Brasil: aqui somos considerados incapazes pelo bondoso papai-Estado, que sempre sabe o que é melhor para nós. O manifesto nazista acaba de ter sua venda proibida em todo o território nacional, como se isto adiantasse alguma coisa. Claro que quem quiser ler a obra pode baixá-la de graça a qualquer momento, mas papai-Estado parece que nunca ouviu falar que existe internet. Melhor assim: vai que ela também tenta proibir?

AQUI É O APARTAMENTO 6?

Tanto canal no meu pacote de TV a cabo, e nenhum  é o Logo. A única emissora dos Estados Unidos (do mundo?) voltada ao público gay oferece mais do que "Ru Paul's Drag Race". Semana que vem estreia o humorístico "Gay Skit Happens" e, pelo aperitivo acima, vai ser babado e confusão. Vou reclamar na operadora.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

TÁ FALTANDO NO MERCADO

Rodrigo Pitta lançou esta semana uma música que vem dividindo opiniões como se elas fossem o Mar Vermelho. "Será?!" é uma marchinha de carnaval com a participação de Ana Carolina e Elza Soares, e uma letra que leva o clássico "Cabeleira do Zezé" to the next level. Como estamos em 2016 e absolutamente tudo precisa ser problematizado, claro que não faltam acusações de homofobia, machismo e até heterofobia (porque, afinal, héteros também podem ser limpinhos e educados, não é mesmo?). Tá faltando humor no mercado, mas a verdade é que essa polêmica toda está ajudando na divulgação da faixa - que aliás é bem boa. Ah, e se alguém tem dúvida de que lado eu estou nessa cizânia, é só conferir o nome do marcador dos posts sobre assuntos gays aqui no meu blog. Não é "pautas para o  empoderamento LGBTTTQX"; é "viadagem" mesmo.

SIA O QUE VOCÊ QUISER

Ninguém mais sabe a cara de Sia. Desde que resolveu se reposicionar como cantora do primeiro time, a australiana adotou uma estratégia astuta. Desprovida de encantos físicos e já beirando os 40 anos, ela preferiu não competir com Demi Lovato ou Selena Gomez. Simplesmente se escondeu embaixo de uma peruca - ou melhor, se transformou nela. Sia é quem estiver usando a peruca no vídeo ou no palco, seja Lena Dunham, Kirsten Wiig ou a própria (que ainda assim deixa a franja ocultar seu rosto). Agora a moça deu mais um passo nesse experimento que mistura celebridade e anonimato. O recém-lançado "This Is Acting" só reúne canções que ela compôs para os outros - e que, em sua maioria, foram rejeitadas. "Alive", por exemplo, foi escrita em parceira com Adele, mas ficou de fora de "25". Outras eram destinadas a Rihanna ou Beyoncé, para quem Sia já assinou hits no passado. O que quer dizer que os estilos musicais e, principalmente, as letras, não refletem sua personalidade. Ou será que relfetem? O disco atual não soa muito diferente do anterior, "1,000 Forms of Fear". As faixas são quase todas baladonas, e falam geralmente de alguém que superou imensas dificuldades. Sia já assumiu que sofre de depressão: ela pode jurar que só está interpretando personagens, mas é óbvio que, como qualquer ator, também está revelando muito de si mesma. Por baixo da peruca, por trás das palavras escritas por encomenda, Sia está pelada.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

COMO DOBRAR UM LENÇOL COM ELÁSTICO

As atrizes na capa da Vanity Fair ainda estão rendendo. A revista está postando em seu canal no YouTube uma série de vídeos onde elas revelam algum talento secreto. E eu descobri que faço pelo menos uma coisa melhor que a Lupita.

BANDEIRINHAS COLORIDAS

Verdade seja dita: a propaganda do PT costumava ser muito boa. O partido sempre contratou os melhores marqueteiros do Brasil, e seus comerciais tinham grande impacto mesmo se contassem lorotas. Mas não é mais assim. A situação crítica da economia fez com que os argumentos convincentes evaporassem. O que sobrou são filminhos patéticos como esse aí de cima, implorando pela união de todos os brasileiros. Só que união para o PT quer dizer apoio incondicional a medidas como a volta da CPMF. Alguém se habilita? Eu sou contra, e não é nem pelo dinheiro. É pelo desaforo. O governo Dilma já deu sobejas provas de que gasta mal e porcamente, portanto não merece um tostão a mais de quem sua a camisa para pagar imposto. Vão sacudir bandeirinha numa outra freguesia, vão.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

VOLTEI PRA VOCÊ

Alguém estava com saudade? Depois do recesso parlamentar de janeiro, fevereiro trouxe de volta a figura nefasta de Eduardo Cunha para o noticiário. E ele chegou chegando: seus asseclas já fizeram com que o processo  contra o presidente da Câmara que rola na Comissão de Ética voltasse pela enésima vez à estaca zero, em mais uma manobra que afronta a opinião pública. Mas Cunha não está mais preocupado em posar de paladino. Agora só luta para ganhar tempo, porque sabe que a forca virá mais cedo ou mais tarde. Por isto está apelando para qualquer coisa, como um possível apelo ao Tribunal Internacional de Haia. Essa eu queria ver. Cunha alegaria que está sendo perseguido injustamente no Brasil, mas é para lá de impossível que essa cascata cole. Pesquisas revelam que seus próprios eleitores, entre os mais ignorantes do Brasil, já não o apoiam mais. O nó está se apertando.

SONHO DE ACTRESSEXUAL

A revista Vanity Fair lança todo mês de março seu número especial sobre Hollywood (como se no resto do ano ela falasse do cultivo da cana de açúcar). A capa da versão 2016 é o sonho molhado de um actressexual como eu. Conseguiram reunir todas as indicadas ao Oscar de melhor atriz, outras em diferentes graus de badalação e algumas lendas vivas. Vamos por partes?

A capa: O grupo mais à esquerda é aquele que aparece nas bancas. Para esta posição de prestígio, escalaram um time equilibrado: Jane Fonda, Cate Blanchett, Viola Davis e Jennifer Lawrence. Continuo achando que J. Law já foi premiada demais por suas parcas realizações, mas entendo que precisem por alguém jovem na comissão de frente. E não tem ninguém mais famosa do que ela entre as novatas. Quanto às demais, nenhuma reclamação. Todas divas absolutas.

A segunda dobra: Se eu fosse o editor da Vanity Fair, teria dado uma capa exclusiva para minha musa Charlotte Rampling - mas fico contente dela aparecer com destaque no pelotão do meio. Entre as outras estão duas meio low profile este ano,  Rachel Weisz e Lupita Nyong'o, e as duas prováveis vencedoras dos Oscars de protagonista e coadjuvante, Brie Larson e Alicia Vikander. Já percebeu como ambas se parecem? Poderiam ser irmãs. Talvez um dia, no cinema.

A terceira dobra: As menos cotadas sempre ficam à direita, junto com alguém bem importante para não pegar tão mal. A turma da vez tem Gugu Mbatha-Raw, que está em plena ascensão, as veteranas Helen Mirren e Diane Keaton, e uma indicada de nome impronunciável, a irlandesa Saoirse Rónan.

Enfim, uma turma digna, e bem representativa dos tempos que correm (inclusive nos quesitos raça e idade). Mas a gente sempre acha que tem alguém sobrando e alguém faltando. Eu incluiria Lily Tomlin, que está numa ótima fase. E você?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

A PROBLEMATIZAÇÃO DO CARNAVAL

Vejo amigos questionando no Facebook se o Brasil deveria estar festejando o carnaval. Muitos deles foram influenciados por esta matéria da revista "The Economist". Mas sinto que existe uma certa ignorância de todas as partes sobre o que é o carnaval brasileiro. Não se trata de uma festa qualquer, apesar das inúmeras tentativas de enquadrá-lo, patrociná-lo e retirar dele qualquer sentido contestatório. Só que carnaval é contestação. Para começar, é uma reação pagã a uma regra católica. Acontece nos dias que antecedem a quaresma, o período de 40 dias em que muita coisa era proibida aos fiéis, do sexo à carne (hoje em dia sobrou a Sexta-Feira Santa e olhe lá). Aqui no Brasil o carnaval sempre teve conotação política, desde os tempos do entrudo no século 19. Eram os dias onde os escravos podiam fazer coisas que em outros dias renderiam chicotadas, como jogar farinha na cara de quem lhes passasse pela frente. Ao longo do século 20, o carnaval se tornou palanque de protestos e laboratório da revolução sexual. O mundo vira de cabeça para baixo durante o reinado de Momo: o pobre desfila em roupas de rei de França, o machão se veste de mulher, desconhecidos se beijam na boca. Achar que o Brasil não deveria pular carnaval por causa da situação econômica é calar a boca da contestação. Dilma, Lula, Eduardo Cunha, Alckmin e tantos outros vão adorar não serem alvos da sanha dos blocos e marchinhas. Quem sai usando uma máscara deles não está os apoiando: está tirando sarro, está fantasiado de alguma coisa que não é. Por isto que é absurdo esse grupo judaico de São Paulo querer processar uma loja da 25 de Março que estava vendendo máscaras de Adolf Hitler. Um folião fantasiado de Führer não está endossando o 3o. Reich, nem incitando o nazismo. Ah, mas estaria desrespeitando as vítimas? Hmm... sim. Acontece que carnaval É desrespeito. É o oposto do sagrado. Sempre foi e sempre será, se quiser continuar sendo carnaval. Não existe carnaval "a favor". Bem-vindos ao Brasil.

A PROBLEMATIZAÇÃO DO TURBANTE

A problematização está saindo da periferia da internet e começando a aparecer no "mainstream" cultural brasileiro. É bom que isto aconteça, porque o debate fica pobre quando relegado a sites que só pregam aos convertidos ou a bate-bocas pueris no Twitter. Stephanie Ribeiro, por exemplo, agora escreve no Brasil Post e atinge um público bem maior do que quando escrevia apenas no "Blogueiras Negras". Acho ótimo, porque assim ela se expõe mais e tem suas ideias discutidas por muito mais gente. Minha coluna de hoje no F5, por exemplo, é meio uma resposta a um artigo que ela publicou no sábado. Concordo com muita coisa que ela diz: estilistas africanos, por exemplo, são solenemente ignorados pela mídia ocidental, e isto é terrível. Mas subo nas tamancas quando ela defende os turbantes como exclusivos  para as mulheres de descendência africana. Oi? Então Madame Grès era sacrílega? Fora que fico puto se alguém caga regra sobre o que os outros podem ou não podem usar. O termo "apropriação cultural" é uma espécie de fascismo light, que ignora a história e tenta criar vítimas onde elas não existem. Eu faço parte da humanidade: portanto, me sinto empoderado a usar o que quer que me dê na telha, pois nada do que é humano me é estranho. Isto não quer dizer que eu vá trabalhar vestido de esquimó, mas se eu quiser eu vou. O curioso é que esse tipo de ativismo hostiliza gente que seria simpática à causa e frequentemente é contraproducente. Volto a citar o caso "Sexo e as Negas": o seriado de Miguel Falabella, com elenco quase todo negro, teve só uma temporada por causa dos protestos equivocados gerados pela má compreensão do título. Tantos problema sério por aí, e essa turma problematizando bobagem...

domingo, 31 de janeiro de 2016

NOME NA LISTA


É incrível pensar que os Estados Unidos, onde impera uma liberdade de expressão absoluta, perseguiram gente por causa de suas ideias há pouco mais de meio século. O estrago foi bastante visível em Hollywood: dezenas de atores, roteiristas e técnicos tiveram suas carreiras arruinadas. Um dos casos mais famosos é o de Dalton Trumbo, que chegou a ir em cana só por ser filiado ao partido Comunista. Quando saiu, ele e seus colegas de lista negra não conseguiam mais trabalho. Essa história é contada no filme "Trumbo" de maneira bem quadrada. Bruan Cranston foi indicado ao Oscar, mas faz um pouco de careta demais no esforço para se desvencilhar de Walter White. E Helen Mirren quase o foi, por transformar a colunista de fofocas Hedda Hopper numa versão florida da Bruxa Malvada do Oeste. Dalton Trumbo foi um roteirista genial, que ganhou dois Oscars (sob pseudônimos) e escreveu clássicos como o "Spartacus" de Stanley Kubrick. Ele provavelmente ficaria bem puto com o roteiro caretinha que sua cinebiografia ganhou.

HOW DO YOU SOLVE A PROBLEM LIKE MARIA?

A Virgem Maria é uma invenção relativamente tardia do cristianismo. Os textos originais em aramaico usam uma palavra que pode ser traduzida como "jovem", não necessariamente uma virgem. Além disso, a Bíblia fala em irmãos de Jesus: quem seria o pai deles? A própria Maria é citada poucas vezes nos evangelhos, e provavelmente se espantaria de ter se tornado uma espécie de deusa. O monólogo "O Testamento de Maria" é uma tentativa do dramaturgo irlandês Colm Tóibin, criado como católico, de explorar a mulher comum que pode estar por baixo da santa. A peça causou um certo escândalo quando estreou em Londres e Nova York, além do mais porque levava um abutre vivo para o palco. O diretor Ron Daniels dispensa esse requinte na montagem brasileira, e o substitui por alguns equívocos. Criou marcas inúteis, pôs um músico ao vivo para competir com as falas da atriz, e ainda a vestiu num horrendo macaquinho, digno de dona-de-casa suburbana em dia de calor. Ainda bem que essa atriz é Denise Weinberg. Eu nunca tinha a visto em cena, e fiquei arrepiado. A mulher é um assombro. Dicção perfeita, presença magnética, entrega absoluta. Sua Maria primeiro se irrita com os seguidores do filho, uns "desajustados", depois se horroriza e desespera com o suplício por que ele passa. Agora, vivendo no exílio em Éfeso como uma espécie de prisioneira dos apóstolos, ela desabafa e faz uma confissão de fé, Que não deixa de ser em algo que ela mesma irá se tornar... Mais não conto, tem que ver. Mas é bom ir preparado. Na sessão a que eu fui teve um cara que levantou e foi embora.

sábado, 30 de janeiro de 2016

O MENINO É O MUNDO


Depois que meus sobrinhos cresceram, quase não vejo mais cinema de animação. Nos últimos anos acho que foi só "Frozen" (em DVD), "Divertida Mente" e olhe lá. Por isto mesmo ignorei "O Menino e o Mundo", quando estreou em 2014. Foi preciso que o longa de Alê Abreu fosse indicado ao Oscar e voltasse ao cartaz para atiçar minha curiosidade. É mesmo um filme belíssimo: não há um único frame que não seja deslumbrante, ou que não atice a curiosidade para o que vem a seguir. As muitas técnicas utilizadas se misturam sem costuras aparentes, num fluxo incessante de imagens e sons. Mas não é um filme para crianças. Apesar da censura livre, é mesmo para adultos, e, de preferência, tendendo à esquerda. Porque há momentos bem tristes, denúncia social e um final bem cabeça. A gente basicamente descobre que o menino é o mundo. Não se iludam, não tem a menor chance no Oscar. Mas é um digno representante do Brasil, e um aperitivo do que Alê Abreu ainda fará.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

VENENO ANTIMONOTONIA

Rihanna deu um tapa na cara da sociedade. Depois de acostumar seus fãs com álbuns anuais recheados de hinos dance, ela primeiro ficou um bom tempo em silêncio. Depois, ao longo de 2015, lançou três singles bem diferentes de seu trabalho anterior. Nenhum deles foi incluído em "Anti", mas davam pistas do que estava por vir. E como veio: desde quarta-feira que as internets estão discutindo a estranheza do novo disco. Não tem hits contagiantes, nem beats acelerados. Dá para desconfiar que RiRi se inspirou em divas pós-modernas como FKA twigs ou Jhené Aiko, que constróem mais texturas do que melodias. Também é admirável o fato dela sequer aparecer na capa, desprezando a postura piranhesca comum a tantas cantoras e que ela mesma ajudou a disseminar. Rihanna está indo contra a própria imagem e frustrando expectativas, mas o fato é que "Anti" é muito bom. Tem ideias, tem climas, tem ousadia. Deve ser apreciado aos poucos, com fones de ouvido e mente aberta.

ESPERANDO PELO FILME

Às vezes tenho medo de manifestar entusiasmo excessivo por alguma coisa aqui no blog e acabar gerando a famosa dissonância cognitiva. O leitor vai ver o filme que eu amei de paixão e sai com aquela sensação de "esperávamos mais". Foi o que aconteceu comigo com o "Funny Girl" de Nick Hornby. O livro me foi recomendado por muita gente, e eu já tinha gostado de "Alta Fidelidade", do mesmo autor. O tema, então, não podia me ser mais atraente: os bastidores de uma sitcom inglesa nos anos 1960. Mas a leitura acabou me frustrando - um pouco. Achei tudo fácil demais para a protagonista: sem nenhuma experiência como atriz, ela faz um único teste e ganha de cara o papel principal de uma nova comédia da BBC. Depois disso, sua vida pessoal fica meio de lado, e o foco recai sobre os dois roteiristas da série. São personagens mais interessantes: ambos gays, mas um com mulher e filho, o outro ainda caçando nos banheiros públicos. O romance é todo ilustrado com fotos da época, e figuras reais como Lucille Ball ou o primeiro-ministro Harold Wilson fazem participações especiais. Material de sobra para um bom filme. Que ele venha logo, portanto.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

AS QUE COMANDAM VÃO NO TRÁ

"Metralhadora" é o "Lepo Lepo" deste ano: o provável maior sucesso do carnaval. Pena que a música não seja grande coisa (apesar do bom uso do violino) e o vídeo, uma tristeza. Tem até "prisioneiros" que lembram o Estado Islâmico. Mas talvez seja a tradução do momento que o Brasil atravessa: em conflito consigo mesmo, violento, baixo astral. Que é tão contagioso quanto uma marchinha.

TRIPLO X

A classificação etária de espetáculos nos Estados Unidos usa um sistema de letras: G quer dizer livre, NC-17 significa que menores de 17 anos só entram se acompanhados pelos pais e o raríssimo X indica que se trata de uma obra rigorosamente proibida para menores. Os filmes de Hollywood tentam escapar dessa categoria, que faz mal para as bilheterias. Mas a indústria pornográfica quer é mais, e com dois ovos em cima. Tanto que inventou o tal do "XXX" como chamariz de público. Minha mente é tão suja que eu juro que achei que era a isso que se referia a nova fase da operação Lava-Jato, "Triplo X". Meu marido precisou me explicar que não, o nome é só um joguinho com o apartamento triplex que Lula teria adquirido no Guarujá. Faz sentido, mas a minha interpretação também faz. Por causa da putaria que parece ter rolado na compra desse apê, com uma empresa no Panamá abrindo uma offshore em nome de um laranja. Ah, e a fachada do prédio é tão feia que merecia ser censurada.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

DIVINA DECADÊNCIA

As gerações mais novas não conhecem, mas Divine foi a drag queen mais selvagem de todos os tempos. Alçada à fama nos filmes underground do diretor John Waters, ela fazia coisas em frente à câmera que são difíceis de acreditar (na boa: cuidado ao abrir o link). Divine morreu em 1988 com apenas 42 anos por problemas cardíacos, mas tornou-se uma lenda em sua cidade natal, Baltimore. Agora existe um projeto de crowdfunding para erguer um monumento em sua homenagem. Uma espécie de altar que inclui uma foto da diva e uma pequena escultura de... cocô de cachorro. Coragem, abra o link para entender por quê. Blergh.

EU SOU FEITO PURPURINA

Claro que ver o Bolsonazi atingido por uma "glitterbomb" tem lá a sua graça. Mas fico com a sensação de que o ataque sofrido pelo deputado em Porto Alegre pode causar mais estragos para a própria causa LGBT. A razão é óbvia: agredir fisicamente um inimigo, mesmo com algo tão inócuo, é o mesmo que dar munição a ele. Os ativistas que cometeram o atentado já estão sendo chamados de intolerantes e até de terroristas, e aconteceria a mesma coisa se Jean Wyllys ou outro defensor dos gays tivesse passado por algo parecido. Sem falar que Bolsonaro estava fora da mídia há meses: esse episódio serviu para que ele voltasse resplandecente aos holofotes, e no papel de vítima. Como diz um antigo sucesso de Lucinha Lins, "se uma luz não ilumina não há jeito de brilhar".

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

A CONQUISTA DE TROYE


O som de Troye Sivan não traz grandes novidades. A persona de Troye Sivan traz: com apenas 20 aninhos de idade, esse cantor e ator australiano não só já se assumiu gay como não se furta de usar sua viadagem em canções e vídeos. Como, por exemplo, na trilogia publicada neste post, criada para divulgar seu álbum de estreia, "Blue Neighborhood". Deu certo: com bichice e tudo, o disco já é um grande sucesso internacional. Eu demorei um pouco para gostar, mas agora me rendi. A voz de Troye é agradável, suas músicas são boas e sua própria existência é importante, num cenário pop mais careta do que o de 40 anos atrás. Fora que ele é uma teteia.

THE JOY OF CAPITALISM


Jennifer Lawrence pode estar em vias de se tornar mais um caso de "too much, too soon": alguém que faz sucesso demais, cedo demais. Aos 25 anos de idade, ela já contabiliza uma franquia de sucesso planetário ("Jogos Vorazes"), um Oscar e outras três indicações ao prêmio da Academia. Quase sempre sob a direção de David O. Russell, que vive lhe dando papéis para os quais ela ainda não tem idade. A personagem-título de "Joy" é mais um deles. JLaw está bem, mas não convence totalmente como a mãe divorciada que enriqueceu graças a um esfregão revolucionário (você leu certo). A Joy verdadeira tinha 10 anos a mais quando se passaram os acontecimentos narrados pelo filme, e provavelmente uma carga de vida que Jennifer não consegue transmitir. Além do mais, o roteiro não ajuda muito. É corretinho, acadêmico, uma cena bem encadeada na outra. Mas nunca mergulhamos na cabeça da protagonista, que está em quase todas as cenas. Só ficamos sabendo que ela é "guerreira" e mais nada. O elenco cheio de caras conhecidas ajuda, e não há propriamente um momento chato. No entanto, mesmo com a presença luminosa de Isabella Rossellini, ficou faltando aquele algo mais. "Joy" não passa de um tratado sobre a alegria do capitalismo. A mensagem do filme é só "trabalhe bastante, acredite em si mesmo e fique bem rico". Ahã.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

METADE POR METADE

"Medida por Medida" é a mais escrachada das comédias escritas por Shakespeare. Tem puta, viado, bandido, bêbado, cafetão: é praticamente uma chanchada. Mas o diretor Ron Daniels não enxerga a peça assim. Sua montagem em cartaz em São Paulo desperdiça dezenas das piadas que já vem prontas no texto. Ele também não conseguiu limpar totalmente o vício recorrente dos atores brasileiros quando interpretam o bardo: a fala empolada, grandiloquente, como se as palavras fossem esculpidas em ouro. Mesmo assim metade do elenco está muito bem, como Luiza Thiré (bastante parecida com a avó Tônia Carrero), Silvio Zilber, Felipe Martins e uma irreconhecível Giulia Gam, hilária como a prostituta Bem-Passada. Mas os pontos altos são ofuscados não só pela direção frouxa como por, literalmente, luzes de neon que ficam acesas no palco durante boa parte do espetáculo. Essa "Medida" é boa só pela metade.